






 Paixo no oeste
  Once a Lawman
  Theresa Michaels
  Desbravadores 3

   Como xerife de uma pequena cidade do Texas e primognito de uma famlia de rancheiros, Conner sabia que o poder tinha um preo. E estava disposto a pagar com
a prpria solido, at que uma espirituosa herdeira do Leste preencheu um vazio que ele nunca percebera existir em sua alma...
   Belinda Jarvis, tinha poder, o tipo de influncia que provinha de uma beleza dourada e de uma polpuda conta bancria. Mas em Conner Kincaid ela finalmente encontrou 
algo que nem sabia existir, um homem que ainda acreditava que a justia no podia ser comprada
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   CAPTULO I
   
   Aborrecido. Zangado. Assustado. Conner Kinaid permanecia sentado atrs da velha mesa que pertencera a Verl Jenison, antigo xerife de Sweetwater, revendo o estado 
confuso de suas emoes. Nunca sua pacincia enfrentara to grande provao, e estava diante da causa de tamanha inquietao. Alta e esguia, a srta. Belinda Jarvis 
andava de um lado para o outro no escritrio de propores reduzidas.
   Havia deduzido que ela viera do leste antes mesmo de ouvi-la pronunciar a primeira palavra. Pelo penteado gracioso que mantinha presos os cabelos louros, passando 
pelo vestido de gola de renda sob a capa marrom, at as pontas das botas amarradas at os tornozelos, ela era a imagem da mulher bem vestida, rica e atraente.
   No tivesse ela lanado uma ameaa a sua famlia, Conner exploraria a centelha que havia explodido no momento em que a,jovem invadira seu escritrio exigindo 
ateno.
   At mesmo Seely Morehouse, que dormia na nica cela disponvel depois de mais uma bebedeira, esfregara os olhos vermelhos e resmungara alguma coisa sobre anjos 
e demnios vindo busc-lo.
   Mas no havia nada de angelical naquela mulher. Como se pudesse ouvir os pensamentos de Kincaid, ela parou de andar e encarou-o.
   Conner recebeu seu olhar com frieza, sem deixar transparecer o tumulto que dominava suas emoes.
   Analisados individualmente, os traos no eram excepcionais. As sobrancelhas e os clios emoldurando os grandes olhos castanhos eram escuros, contrastando com 
os cabelos claros. O nariz era reto e o queixo, um pouco pontudo. O formato da boca era generoso. O rosado dos lbios carnudos contrastavam com a pele alva como 
uma flor no meio da neve. Era o tipo de boca sobre a qual um homem podia especular.
   Mais intrigante ainda era o brilho de inteligncia que iluminava os olhos que o fitavam. Outros homens podiam sentir-se incomodados com mulheres de aparncia 
independente e resoluta como era aquela forasteira, mas ele sempre se sentira atrado por elas.
   Belinda Jarvis nunca se deixava perturbar pelo olhar de um homem, porm havia algo naquele sujeito que a fazia perder a compostura, como se tivesse de se esforar 
para manter a pose.
   - E ento, xerife? - perguntou para romper o incmodo silncio. - J teve tempo para ler a carta de meu falecido irmo e tomar uma deciso. - Ela apontou para 
o papel sobre a mesa. - Isto , presumo que saiba ler.
   - Sim, madame, fui alfabetizado.
   - Bem, pelo menos no terei de perder tempo procurando algum de sua confiana para ler a carta.
   Havia algo de sombrio e perigoso no rosto do xerife. Belinda estava aborrecida por notar a mandbula que parecia esculpida em granito, ou o sorriso indecente 
que, combinado ao olhar insistente e ao brilho que iluminava os olhos cinzentos, sugeriam idias que preferia ignorar. Abaixou a cabea lentamente e analisou o que 
via. Pescoo, ombros, peito... e parou, censurando-se pelo comportamento tolo. Tinha de lembrar que s precisava desse homem para cumprir uma misso.
   - No tive a inteno de insult-lo, xerife.
   Conner empurrou a cadeira para trs, equilibrando-se nos ps traseiros.
   - No me sinto insultado, madame.
   Belinda adoraria arrancar o sorriso arrogante daqueles lbios, mas limitou-se a inclinar a cabea numa resposta silenciosa.
   - E agora, podemos voltar ao que interessa? A carta estabelece que, na ocorrncia de algum impedimento com meu irmo e minha cunhada, eu devo ser nomeada guardi 
do filho deles. Tudo que peo, xerife,  sua cooperao para que eu possa encontrar meu sobrinho.
   Conner devolveu a cadeira  posio natural. As mos agarraram as beiradas da mesa.
   - Tem certeza de que seu irmo e sua cunhada esto mortos?
   - Certeza absoluta. - Belinda esforava-se para manter a aparncia calma e controlada. Sabia que devia soar fria e calculista. - Meu irmo e eu no ramos muito 
prximos. Ele se recusou a ocupar o lugar que o esperava nos negcios de nossa famlia e na sociedade.
   No precisava explicar que a famlia no havia aprovado a mulher que ele escolhera, e que s se conformaram depois dele revelar que em breve seria pai. Uma vez 
casado, Robert recusara-se a perdoar a famlia pelas coisas cruis que haviam dito sobre sua amada.
   - O que a faz pensar que a criana ainda est viva? Este  um territrio difcil, madame. Se est certa de que os pais morreram...
   - Xerife, por favor - ela o interrompeu. - J disse que tenho certeza do que afirmo, e vai ter de aceitar minha palavra. No estou habituada a ser questionada.
   - Realmente? - O tom era srio, mas havia um brilho debochado em seus olhos.
   - Sim, realmente. - Sabia que estava prestes a perder a pose e a pacincia.
   O xerife era mais jovem do que havia imaginado e, ao contrrio da maioria dos homens que conhecia, no fazia o menor esforo para tentar agrad-la.
   No era vaidosa sobre a prpria aparncia, mas desde muito cedo percebera que havia sido abenoada com um rosto e uma silhueta atraentes. Se os homens desejavam 
ficar cegos diante de uma mulher interessante, aprendera a no contrari-los. E havia aprendido a tirar vantagem das pequenas fraquezas do sexo oposto e usar a prpria 
inteligncia, livrando-se assim de qualquer interferncia masculina.
   A riqueza da famlia tambm garantia cooperao sempre que era necessrio. Mas esse homem da lei, atento a todos os movimentos que fazia e a todas as palavras 
que pronunciava, parecia imune.
   - Ainda tem dvidas - acusou-o. - Ficaria satisfeito se eu repetisse a histria?
   - No sei, mas certamente me ajudaria a entender melhor os fatos. - Conseguira deix-la zangada, na defensiva, como desejara desde o incio. - V em frente.
   Ela cerrou os punhos e desviou os olhos dos dele.
   - A Agncia Pinkerton de Detetives investigou a questo a meu pedido. Allan Pinkerton era amigo pessoal de meu pai, e minha famlia o apoiou por ocasio da fundao 
da filial da agncia em Chicago. Tem de admitir que eles so os melhores que o dinheiro pode comprar.
   - Nunca precisei comprar os servios de uma agncia de detetives, madame. Vou ter de aceitar sua palavra sobre o assunto.
   - No importa - ela disparou irritada. O caipira era arrogante! No perderia a calma. No permitiria que ele a provocasse. Respirando fundo para recuperar-se, 
Belinda continuou: - O relatrio sobre alguns meses de investigao envolvendo os melhores profissionais da agncia conclui que meu irmo, sua esposa e seu filho 
nunca chegaram ao destino proposto, na Califrnia. Eles viajavam com outra famlia, e nenhuma delas jamais ultrapassou a fronteira do Arizona.
   - E seus detetives exclusivos explicaram que o territrio  muito vasto, srta. Jarvis? Eles podem estar em qualquer lugar.
   - Minha chegada a Sweetwater no  conseqncia de uma escolha aleatria, xerife. A ltima vez que meu irmo parou para comprar suprimentos foi em Apache Junction. 
Conner sentiu o corao apertado ao ouvir o nome da cidade que ligava seu irmo  histria. Queria expuls-la de seu escritrio e do vilarejo, mas sabia que era 
impossvel. 
   - Esse lugar fica ao norte daqui, e pessoas desaparecem o tempo todo nesta regio. Alguns so vtimas da febre do ouro e partem sem deixar rastros. Outros so 
atacados por ndios. Enchentes, deslizamentos... h pelo menos uma centena de maneiras de se perder a vida por aqui.
   - Tenho plena conscincia disso. Quando fui informada sobre o local onde meu irmo foi visto pela ltima vez, soube sobre uma viva que havia deixado a rea recentemente 
em companhia de um fora-da-lei e de dois garotos que no eram seus filhos. No tenho dvidas de que essas pessoas esto com meu sobrinho. Mesmo assim, decidi vir 
ao oeste para descobrir a verdade por mim mesma.
   Belinda fez uma pausa antes de prosseguir com o relato.
   - O rancho da viva estava deserto, mas soube que ela retornou duas vezes e, em ambas, partiu levando carroas carregadas. As ltimas notcias afirmam que essa 
mulher vive atualmente no rancho Kincaid. Nada me impedir de seguir esta pista.
   - Se tem tanta certeza de que est certa, por que no vai at l e reclama seu sobrinho perdido?
   - Est tentando me fazer perder a pacincia, xerife?
   - Estou tentando chegar  verdade.
   - Tem um jeito bem estranho de investigar. No posso correr o risco de precipitar os fatos. Aquelas pessoas podem esconder o menino. No entende o que est em 
jogo?
   - Acho que no. Ainda no entendi se sua preocupao principal  com o bem-estar da criana.
   - No sabe nada a respeito de meus sentimentos. No se atreva a me julgar, xerife. No teria vindo a este territrio hostil se no me importasse com o garoto. 
Pelo que sei, eles podem estar ensinando o pobrezinho a roubar. Meu irmo no descansar em paz sabendo que o filho est sendo criado por um fora-da-lei. Mesmo um 
homem como voc deve admitir que a idia  capaz de provocar os piores pesadelos.
   Conner olhou para a parede coberta por cartazes amarelados com fotos de bandidos perigosos procurados pela justia. Imagens apagadas dos irmos James, dos Youngers, 
de Charley Pitts e Ty Hardin o encaravam de volta. Os nomes e as recompensas oferecidas em troca dos bandidos, vivos ou mortos, s serviam para faz-lo lembrar que 
Belinda Jarvis acreditava que seu irmo era realmente o fora-da-lei que fora forado a fingir ser para pegarem o bando de ladres que perseguiam.
   - Xerife, sua falta de ateno  irritante. Fico me perguntando se compreendeu a natureza inquietante de minha solicitao. Estou perdendo tempo, ou vai tentar 
me ajudar?
   O sujeito a encarou. No se deixaria intimidar por aquele olhar frio e penetrante. No deixaria um xerife de fim de mundo realizar o que homens mais ricos e poderosos 
jamais haviam conseguido.
   Ela se aproximou da mesa.
   - Quero saber se vai me ajudar. No pode duvidar das evidncias que apresentei. Fez um juramento de preservar a lei. Se essas pessoas esto com meu sobrinho, 
quero que sejam presos e que o menino seja entregue a mim. Afinal,  possvel que o bando esteja ligado  morte de meu irmo.
   Foi com grande surpresa e constrangimento que Belinda descobriu-se inclinada sobre a mesa. Levantando os ombros, sentiu o suor que escorria por entre os seios. 
Sob o chapu, os cabelos midos pareciam colados  cabea, e ela levou a mo enluvada  tmpora numa tentativa desesperada de aliviar a tenso. No podia deix-lo 
perceber o quanto estava perturbada. Os homens costumavam tirar vantagem de mulheres vulnerveis.
   Abanando-se com uma das mos, voltou a andar pela sala apertada. O ar quente parecia envolv-la a cada passo.
   Atravs da porta aberta, vislumbrou a rua empoeirada. Oh, como gostaria de sentir a brisa s margens do lago onde ficava seu lar! Talvez houvesse sido um erro 
viajar sozinha. Devia ter deixado o problema a cargo dos detetives. Mas o menino j enfrentara tantos perigos sozinho! No podia aceitar a idia de receb-lo em 
casa, cercada por todo o conforto, sabendo que ele chegaria na companhia de estranhos.
   Conner a observava. No costumava provocar as pessoas, mas o comportamento dessa mulher o levava a agir de maneira inusitada. Ela parecia um rifle de repetio 
disparando acusaes e exigncias!
   A insistncia sobre a necessidade de prender seu irmo o enfurecia.
   O som montono dos saltos altos contra o piso de madeira revelava o estado de agitao dela. Conner notava cada olhar ressentido que Belinda lanava em sua direo.
   - Estou pensando no assunto. 
   - Pensando? O que h para pensar. - Ela parou da sala, os olhos cheios de incredulidade.  - Ou acredita em mim, ou no!
   - No precisa gritar. Minha audio  perfeita. E no se deixe consumir pela agitao, srta. Jarvis. Sente-se. Sei que as acomodaes no so como as que est 
habituada a encontrar em sua requintada sociedade, mas toda essa movimentao est me distraindo.
   Conner notou que ela examinava a cadeira bamba diante da mesa. Ainda no tivera tempo de consertar a moblia do escritrio e recusara as ofertas de ajuda das 
mulheres Kincaid. Ainda nem havia pendurado a placa com seu nome na porta, fato que aborrecera profundamente sua me, autora da pea. Passara boa parte dos ltimos 
dois meses visitando os ranchos da regio para agradecer as famlias que o elegeram e garantir que poria fim aos roubos de gado.
   - Pare de sonhar acordado, xerife. No seria tratada com tanto descaso em Chicago. O nome e o dinheiro de minha famlia me asseguram...
   - Talvez ainda no tenha notado a dferena, mas no estamos em Chicago - Conner a interrompeu.
   Belinda ficou vermelha, sinal evidente de sua ira.
   - J percebi, xerife.
   - Melhor assim. Como faz questo de lembrar que sou o nico representante da lei por aqui, faremos as coisas ao meu modo.
   - Devagar, como derreter melao numa manh de inverno.
   - Muitas mulheres no estariam reclamando disso. H muito prazer em fazer as coisas lentamente. - Surpreso, notou que o rubor se tornava mais intenso no rosto 
plido. Ela no era uma colegial recm-sada da escola. Os olhos recaram sobre os movimentos rpidos do peito arfante. 
   - No, madame, lentido no  motivo para queixas.
   Ele a estava provocando mais uma vez, e Belinda conteve o mpeto de oferecer uma resposta que o deixaria zangado. A renda da gola do vestido apertava seu pescoo, 
e ela ergueu a mo enluvada para esconder o mpeto de engolir em seco. Recusava-se a pensar na idia sugerida pelo comentrio a respeito do prazer proporcionado 
por determinada lentido. Bravatas. As palavras no passavam disso. Ele olhava para a carta, ignorando-a, e sua atitude a aborrecia.
   Conner ouviu o comentrio contrariado e a viu caminhar at a porta, onde parou para encar-lo. Estava dividido. Os ltimos dois meses haviam trazido contentamento. 
Os irmos mais novos assumiram a responsabilidade pelo rancho e pelas operaes de minerao. Estava livre para perseguir seu sonho.
   O sonho de assegurar a segurana e libertar o territrio para as famlias distintas que queriam se estabelecer.
   Como um Kincaid, queria ver essa mulher partindo.
   Como xerife, no tinha outra opo seno considerar seu pedido e ajud-la a encontar o sobrinho.
   A idia de ver a queridinha da sociedade do leste envolvida numa caada selvagem por toda a regio era tentadora.
   O fato de pensar numa possibilidade to impondervel era prova de sua lealdade dividida. E de como estava prximo de perder a cabea e deixar o temperamento explosivo 
domin-lo. Sem encar-lo, Belinda pressionou em busca de uma deciso.
   -Ainda no estou preparado para decidir. Vai ter de esperar.
   Os ombros delicados caram como se a revelao a desanimasse, e Conner quase lamentou seu tom duro. Por um momento ela o brindou com a viso das costas eretas. 
Tinha de admirar sua fora.
   Mas, se o que ela afirmava fosse verdade, a felicidade de seu irmo Logan seria destruda. Se a elegante srta. Jarvis conseguisse o que queria, Jessie ficaria 
devastada. Um dos meninos que ela e seu irmo pretendiam adotar no ostentariam o nome Kincaid.
   O problema era que a carta que ela trouxera mencionava um garoto, mas no esclarecia seu nome.
   Tentou lembrar se algum havia pronunciado o nome Jarvis. No lembrava de t-lo ouvido. Kenny, aos treze anos, era mais maduro que as crianas de sua idade. Se 
houvesse decidido guardar algum segredo, nada o faria revelar a verdade. E o pequeno Marty... seguia as ordens de Kenny sem question-las. A possibilidade de um 
deles ter mentido sobre a prpria identidade no fazia sentido. Ela devia estar enganada. Kenny afirmava que eram primos, e Marty nunca negara a alegao.
   Belinda Jarvis, com sua cara e exclusiva agncia de detetives de Chicago, estava procurando por um garoto, no dois.
   As diferenas entre os relatos o confundiam. Todos acreditaram na palavra de Kenny sobre no terem familiares. E se ele houvesse mentido?
   No podia ignorar o fato de Jessie, esposa de Logan, ter vindo de um rancho prximo a Apache Junction. Fingindo ser um fora-da-lei, seu irmo fora salvo pelos 
dois rfos depois de ter sido ferido num roubo e abandonado  prpria sorte, e os meninos o levaram ao rancho de Jessie.
   A nica coisa sobre a qual Conner tinha certeza era que precisava de tempo para conduzir uma investigao.
   Teria de ter muito cuidado ao questionar os garotos. No queria alertar sua me sobre o que ocorria. Macria recebera as crianas como se fossem seus, e ele e 
os irmos haviam respirado aliviados por ela ter desistido das atenes dispensadas ao novo vizinho e antigo advogado.
   Fora um choque descobrir que Charles Riverton, o homem que ele e os irmos suspeitavam estar por trs de todos os roubos, um dia cortejara sua me. Chegaram s 
raias do desespero quando Macria o defendera de todas as acusaes, e a chegada dos garotos fora uma distrao bem-vinda.
   No podia deixar de pensar em qual seria a reao de sua famlia  carta trazida por Belinda Jarvis. Em poucos meses as crianas haviam passado a fazer parte 
da vida familiar como se houvessem nascido Kincaid.
   E o que tudo isso faria aos garotos? Estavam to excitados quanto todos os outros com a chegada do novo beb. Dixie, a esposa de Ty, seu irmo caula, logo estaria 
dando  luz.
   As costas de Belinda foram o alvo de um olhar cheio de ressentimento. Como um demnio etreo, ela surgira do nada para criar o caos. Infelizmente, Conner no 
acreditava que pudesse desaparecer com a mesma rapidez com que surgira.
   - Xerife - ela chamou, virando-se para encar-lo. - Tambm tenho muito em que pensar. H algum problema que queira discutir comigo?
   - Problema? - ele repetiu aturdido.
   - Sim, um problema. Devia ter percebido que sua relutncia era sinal de algum dado novo.
   - Desculpe-me, madame, mas acho que no estou seguindo sua linha de raciocnio.
   - Esse homem, o tal Kincaid,  um fora-da-lei. Tem medo de enfrent-lo?
   Conner ficou rgido. Depois de alguns instantes balanou a cabea como se no houvesse compreendido o que ouvira. 
   - Est me acusando de covardia?
   O tom suave da voz devia t-la prevenido, mas Belinda, disposta a alcanar seu objetivo, no deu ateno  sbita mudana.
   Aproximou-se da mesa, olhando em volta enquanto analisava a moblia pobre. Um fogo equilibrava-se sobre tijolos num canto da sala. As chamins que convergiam 
para uma nica abertura no teto pareciam ser o resultado de um trabalho de amadores. Ao lado do fogo havia uma mesa. Um dos ps, quebrado, fora amarrado com barbante, 
e outro era mantido sobre uma xcara esmaltada virada de boca para baixo. A superfcie empoeirada sustentava um bule de caf, pratos, panelas, xcaras e latas de 
comida. Sabia que a porta lateral levava  cela, e o edifcio no parecia ser grande o bastante para abrigar mais de um compartimento.
   Na parede oposta quela com os cartazes de "Procura-se", um armrio muito velho sem uma das gavetas suportava a base dos ganchos onde descansavam os rifles. A 
escrivaninha e as duas cadeiras bambas completavam a decorao.
   Pobre. Muito pobre, realmente.
   Belinda sempre havia considerado o suborno uma escolha lamentvel. Mas aprendera que o dinheiro era um instrumento necessrio quando queria as coisas feitas  
sua maneira, com rapidez e eficincia. Franzindo a testa, transps a distncia que a separava da mesa.
   - E ento, srta. Jarvis? Perguntei se est me acusando de covardia.
   - Deve ter entendido mal, xerife. No quis insult-lo. - Consciente da linha tnue que separava o sucesso do fracasso em momentos cruciais como aquele, adotou 
um tom mais suave e ntimo. - Imagino que um homem em sua posio est habituado a arriscar a prpria vida em troca de um pagamento irrisrio. Se no me engano, 
os inspetores ganham pouco mais de quinhentos dlares por ano. Li um artigo no...
   - Est absolutamente certa, senhorita. O salrio  modesto.. Mas s vezes um homem aceita um trabalho por outras razes. Alm do mais, no entendo qual pode ser 
a relao entre o que ganho e a questo que a trouxe at aqui. E no vou esquecer que me chamou de covarde, por mais delicadas que sejam suas palavras.
   - Reconheo que me expressei mal. Vejo diante de mim um homem que merece uma recompensa especial pelos revelantes servios prestados  populao.
   Pousando a bolsa sobre a mesa, Belinda abriu-a e serviu-se de um mao de notas de diversos valores. Atenta, notou que ele se inclinava para examinar o dinheiro, 
e um sorriso frio distendeu seus lbios.
   - Vejo que  um homem sensato, xerife. Quanto vai me custar convenc-lo a me acompanhar ao rancho Kincaid para salvar meu sobrinho?
   Conner ergueu os olhos do dinheiro e fitou-a. A ruga na testa de Belinda tornou-se mais profunda. Havia a promessa de fria nas profundezas prateadas, mas ela 
sustentou o olhar, perdendo a maneira como ele flexionava os dedos em busca de controle.
   - Como sou apenas um representante da lei num pequeno vilarejo do oeste, desconheo a maneira de agir dos habitantes de sua cidade, e por isso quero ter certeza 
de que a entendi bem desta vez.
   Ao ouvir o tom suave, Belinda ignorou mais uma vez o calor que a inundava.
   -  claro. Podemos conversar por quanto tempo quiser.
   - O homem devia ter recebido a estrela por sua coragem, no pela inteligncia. Afinal, fizera uma proposta clara. 
   - Est me oferecendo um suborno.
   Dessa vez Belinda deu ouvidos ao sinal de alarme que ecoou em sua mente.
   - Encare como uma demonstrao de gratido pela ajuda que vai me prestar.
   - Uma demonstrao de gratido? Bela escolha de palavras. Diga-me, srta. Jarvis - ele levantou-se -,  sempre to ofensiva com os homens com quem lida? Sente-se 
na obrigao de pagar por todos os servios prestados?
   Chocada com a insinuao, ela retrocedeu um passo. Recusava-se a responder a pergunta to absurda.
   Enquanto o vira sentado, no havia percebido como era alto. Possua uma estatura bastante avantajada para uma mulher, mas ele a superava em pelo menos dez centmetros. 
Centmetros musculosos e msculos. Ao debruar-se sobre a mesa, o xerife revelou um peito amplo e formidvel sob a camisa de tecido fino. Belinda reviu a opinio 
que at ento havia formado sobre o homem. A camisa era feita de linho fino costurado por mos habilidosas, e o caimento alcanado era perfeito.
   - Srta. Jarvis, no est respondendo s perguntas que fiz. No estou acostumado a esperar por respostas.
   - Bem, parece que cometi um grande engano a seu respeito, xerife.
   - Sabe de uma coisa? Se continuar exibindo todo esse dinheiro por a, pode acabar encrencada. Ou morta.
   Belinda guardou as notas na bolsa e fechou-a depressa.
   - Ainda precisa de tempo para tomar uma deciso? Talvez queira enviar um telegrama  Agncia Pinkerton para confirmar o que eu disse.
   -  muita gentileza de sua parte entender minha posio.
   - Est praticamente me acusando de ser uma mentirosa! No tolero que questionem minha palavra. E tambm no gosto de atitudes debochadas e irnicas.
   - Infelizmente, desta vez ter de resignar-se, porque no pretendo mudar de atitude para agradar a algum que nem conheo.
   - Rude, no?
   - Honesto, senhorita.
   Um brilho determinado cintilou em seus olhos.
   - Existem outras maneiras de obter aquilo que vim buscar.
   - Aposto que conhece cada uma delas, honestas ou sujas. Esteja prevenida, docinho. Estamos no meu territrio, e a distncia que a separa dos cavalheiros de sua 
civilizada sociedade  muito grande.
   - Est me ameaando, xerife?
   - Apenas tentando precav-la. Acidentes acontecem. Uma mulher sozinha...
   - No sou nenhuma flor de estufa desamparada e frgil.
   Pela primeira vez desde que ela entrara em seu escritrio, Conner permitiu-se especular sobre o que passava por sua mente. Os olhos a examinaram da cabea aos 
ps e, lentamente, fizeram o caminho de volta at que, mais uma vez, encontraram os olhos dela.
   - A est um ponto sobre o qual concordamos, srta. Jarvis. No  nenhuma flor de estufa. Est mais para erva daninha, a primeira a lanar razes num solo rido 
e a ltima a morrer.
   Uma erva daninha! Ele a comparava a uma erva daninha!
   Adoraria esbofetear aquele rosto arrogante. Mas tinha de confiar no prprio instinto e reconhecer que atitudes temperamentais no a levariam a lugar nenhum.
   - Ora, xerife - respondeu com voz melosa. - Creio que est tentando flertar comigo.
   - Docinho, se estivesse flertando, voc no teria dvidas. 
   - Parece que o subestimei. 
   - Pode apostar nisso.
   Belinda sabia reconhecer um desafio. Sem parar para pensar, apoiou as mos sobre a mesa e inclinou-se at que os narizes quase se tocassem.
   - Senhor Homem-da-Lei, juro que arrancarei essa estrela do seu peito antes de deixar este horrvel vilarejo. 
   - Ela  toda sua, docinho. Venha busc-la.
   Por um momento, Conner esqueceu todas as ameaas que ela fizera. Absorveu a fora envolvente de seus olhos e o perfume tentador. A tenso sexual era como uma 
cano entre eles, to bsica e primitiva quanto era possvel.
   - No costumo ameaar em vo - Belinda sussurrou.
   No conseguia livrar-se da atmosfera sensual que os cercava. 
   - No h nada de vazio no que estamos vivendo - Conner respondeu com voz rouca. 
   - Ainda quer a estrela?
   O convite nos olhos e no tom de voz no tinha qualquer relao com a insgnia presa  camisa.
   - No - ela disse, sem saber ao certo o que recusava. 
   - Oh, sim - Conner devolveu, jogando a cautela pela janela.
   Ele inclinou a cabea para a direita.
   Ela repetiu o movimento para a esquerda.
   Havia admirado a generosidade dos lbios carnudos, mas agora podia confirmar a maciez e o calor da pele mida. O beijo era uma promessa silenciosa, um convite 
ao desejo. O tremor da boca e a exclamao abafada traam uma inocncia que ele no havia notado.
   Belinda assustou-se com a perfeio do encaixe entre os lbios. Era perigoso. Beijara alguns homens desde que fizera sua entrada na sociedade sete anos atrs, 
mas nenhum deles o fizera com tanta habilidade, como se soubesse exatamente o que queria e como conseguir. Lento como derreter melao numa manh de inverno. Era 
assim que ele saboreava sua boca. Estava sendo seduzida pelo toque gentil da lngua sobre seus lbios.
   O sussurro que pedia mais passou pela boca entreaberta de Conner e o despertou. Que diabos estava fazendo, seduzindo uma mulher que podia destruir a felicidade 
de sua famlia? Com um movimento brusco, afastou-se dela.
   Passando a mo pelos cabelos, fechou os olhos e respirou fundo. De todos os enganos idiotas... mas no vou me desculpar. A splica murmurada ecoava em sua mente 
at estar gravada em seu crebro.
   Belinda quase caiu com o rosto sobre a mesa quando ele encerrou o beijo bruscamente. Devagar, ergueu o corpo e virou-se, perturbada com a prpria reao. Devia 
ter ao menos protestado contra a liberdade que ele havia tomado.
   Tomado? Ou voc a permitiu? A honestidade exigia que admitisse: praticamente pedira o beijo.
   Surpreendeu-se levando a ponta dos dedos aos lbios.
   Pare de se comportar como uma colegial que acabou de receber o primeiro beijo. A censura mental foi intil. Era exatamente assim que se sentia. Por que ele havia 
parado?
   No era nenhuma especialista, mas tivera a sensao de que o fogo que a invadira encontrara eco no corpo do xerife.
   E por que ele no falava nada?
   Tinha de agarrar a oportunidade de assumir o comando.
   - Isso no devia ter acontecido.
   O som gutural podia significar qualquer coisa, concordncia ou discordncia.
   - No sei o que houve comigo. E tambm no vou pedir desculpas. Nenhum de ns precisa se justificar. Somos adultos, e isso foi apenas um devaneio momentneo. 
Normalmente no sou propensa a atitudes to irresponsveis.
   Aposto que no. Para voc, moa, sexo tem de vir embrulhado em lenis de renda com um grande lao de seda em torno de uma caixa de pedras preciosas.
   Longe de ser acalmado pela concluso a respeito do carter da srta. Jarvis, Conner sentiu-se ainda mais irritado com a explicao fria e direta. E da que o beijo 
no tivera nenhuma importncia para ela? Tambm no tinha qualquer significado especial para ele. No era nenhum garoto inexperiente. Mas a irritao persistiu e 
ele voltou-se contra si mesmo por t-la deixado distra-lo da questo principal.
   - Esquea - disparou impaciente. - Onde posso encontr-la? Assim que terminar de verificar alguns pontos importantes, irei procur-la para comunicar minha deciso.
   Muito contido. Respirando fundo, Belinda conteve a urgncia que ele despertara com tanta facilidade. Que diferena podia fazer se esse xerife grosseiro, rude 
e mal-educado a mandava embora sem nenhuma considerao s boas maneiras? Devia ser o calor que a afetava. Ela se virou, mas no foi capaz de encar-lo.
   - Onde est hospedada? - Conner insistiu.
   - Meu tio Phillip tomou providncias antes da minha partida, e estou hospedada na casa de um grande amigo dele e associado comercial. Tenho certeza de que sabe 
sobre as contribuies do sr. Riverton para a...
   - Riverton? - Conner quase rosnou ao pronunciar o nome. - Do rancho Circle R?
   - Creio que  esse o nome. - Surpresa com o tom irado da voz dele, Belinda inquietou-se. - Algum problema?
   Conner tratou de colocar uma placa imaginria com os dizeres "No Ultrapasse" no peito da mulher; perigo era o que o esperava naquelas curvas sensuais. Devia 
t-lo pressentido desde o primeiro instante, quando ela entrara em seu escritrio anunciando o prprio nome com orgulho exagerado, tentando impression-lo com a 
conta bancria da famlia em Chicago. Devia ter deduzido que ela estava ligada a Riverton. No que isso importasse. Iria verificar a histria que ela contara, e 
Riverton pagaria por todos os crimes que cometera contra sua famlia.
   - Mandei aquele garoto que fica perto da estao...
   - Steven, o filho de Shelden. Ele sempre fica perto do velho Wally, ouvindo suas historias.
   - Bem, ele pareceu ter idade suficiente para cavalgar at o rancho do sr. Riverton e avisar sobre minha chegada. O responsvel pela estao est cuidando da minha 
bagagem at que mandem uma carruagem, ou coisa parecida. Meu tio garantiu que o sr. Riverton me ajudaria em tudo que fosse possvel para a realizao do meu propsito.
   - Moa, se essa  mais uma de suas ameaas, est perdendo tempo. Riverton no vale a saliva gasta para pronunciar seu nome. Se ele, ou qualquer outro homem de 
seu bando, puser um p nas terras Kincaid, haver uma bala certeira esperando.
   - Ora, ora, xerife, parece ter um problema. - No podia resistir  oportunidade de testar o adversrio. Ainda estava ressentida por ele a ter rejeitado com tanta 
facilidade. - Que comentrio mais inadequado para um homem da lei. E tenho certeza de que ouvi uma nota de aprovao em sua voz. Talvez no seja o homem certo para 
me ajudar. Parece ter uma grande considerao por essa famlia Kincaid, apesar deles abrigarem um fora-da-lei.
   - Est absolutamente certa, madame. O fora-da-lei sobre o qual est falando desde que chegou aqui  meu irmo.
   Belinda abriu a boca e encarou-o com expresso horrorizada.
   - Seu irmo? Ento  um Kincaid? Esteve me enganando o tempo todo! Seu miservel, mentiroso, sujo! Seu... seu trapaceiro! Bastardo!
   - Est enganada, docinho. Meus pais se casaram muito antes da visita da cegonha.
   - No se atreva a me chamar de docinho! - Ela fechou os olhos por alguns instantes numa tentativa desesperada de controlar-se e, quando voltou a abri-los, havia 
um sorriso nos lbios dele que quase a fez perder a cabea.
   - No vou mais cham-la de docinho - Conner ofereceu, debochado.
   - Melhor assim.
   - Salmoura seria mais adequado.
   - Meu nome  Belinda, senhor, mas no tem permisso para us-lo. Para voc, serei sempre a srta. Jarvis. E ainda  um bastardo.
   Executando uma meia-volta com preciso militar, Belinda saiu sem despedir-se.
   - Maldio! - Conner explodiu furioso, contornando a mesa para chutar a cadeira. Quisera apenas provocar uma exploso temperamental para arrancar a verdade da 
forasteira, no revelar que era um Kincaid! Gostaria de ter investigado sua histria antes de identificar-se. 
   - Em certos dias  melhor nem sairmos da cama! - Resmungando, apanhou o chapu e o cinturo com a cartucheira no cabide ao lado da porta e a seguiu.
   A primavera chegara cedo ao territrio e o sol inclemente obrigava os moradores a permanecerem em suas casas, especialmente quela hora do dia.
   Dois cavalos permaneciam amarrados na frente do armazm de Shelden, do outro lado da rua. Os animais mantinham as cabeas baixas e abanavam as caudas num movimento 
preguioso, espantando as moscas que os cercavam.
   Conner acenou para Mose Riley, que esperava pela chegada do parceiro de conversas. A cidade costumava comentar que Haines, a esposa do pastor, obrigava o pai 
a enfeitar-se antes de deix-lo ir sentar-se na porta do armazm para dividir suas histrias de guerra com o velho amigo, enquanto observavam cada passo de todos 
os habitantes.
   Conner acompanhava o movimento sinuoso dos quadris de Belinda, que caminhava de cabea erguida. Era uma mulher e tanto!
   Sabia que ela podia ouvir o tilintar de suas esporas contra o piso de madeira da calada. Alm do armazm, o rudo montono de marteladas indicava que Tom Sweet 
trabalhava em sua forja. Proprietrios do estbulo e da oficina de ferreiros, Tom Sweet e Walter Waterman haviam fundado a cidade. Walter era dono do banco, do posto 
telegrfico e scio do filho na explorao da linha de vages de carga.
   Conner olhou para a nova janela de vidro da Gazeta Semanal de Sweetwater. Mark Dryer comprara o jornal seis meses antes e oferecera apoio incondicional  candidatura 
de Conner ao posto de xerife. Podia ver a silhueta do amigo debruado sobre as mquinas de impresso, mas no tentou chamar a ateno dele.
   A brisa suave carregava o odor do couro tratado. Conner acenou para Carl Gladden, que devolveu a rdea em que ele trabalhava  plataforma onde outras peas secavam. 
Notou que Gladden interrompeu o cumprimento para olhar para Belinda, que atravessava a rua rumo  estao.
   Vassoura na mo, Rob Long passou pela porta do caf.
   - Bom dia, Conner. Ali vai uma bela embalagem contendo guloseimas tentadoras.
   - Se est pensando em desembrulh-las,  melhor usar luvas, Rob. Vai precisar delas para proteger as mos contra os espinhos.
   -  mesmo?
   Conner conteve a prpria impacincia e parou.
   - A mulher tem a lngua mais afiada que as facas que Carl usa para arrancar a pele dos animais.
   - Felizmente Deana  diferente. No suportaria conviver com uma mulher ferina. Minha irm fez galinha frita e tortas variadas para o almoo. Sei que aprecia esses 
pratos. Vou dizer a Deana para guardar um pouco de comida.
   - Obrigado, Rob, mas vou ter de voltar ao rancho. Seely Morehouse pode ficar com minha parte. No sei se a mulher dele vir busc-lo hoje, ou se o deixar eternamente 
trancafiado naquela cela. E, Rob, desta vez ponha na minha conta.
   - Parece preocupado, Conner. Aquela mulher trouxe problemas? - Rob olhou para a jovem parada na porta da estao. - S estou perguntando porque ela interrogou 
o velho Wally a respeito dos Kincaid antes de ir procur-lo.
   - Ela andou fazendo perguntas?
   - Deve ter ficado surpresa quando descobriu quem voc . O velho Wally tentou preveni-la, mas ela tinha sempre mais uma questo a fazer, e acabou indo embora 
sem saber a verdade sobre o nosso xerife.
   Conner notou a nuvem de poeira do outro lado da cidade. Reconheceu o novo veculo que havia causado furor quando a linha de carga o entregara, duas semanas atrs.
   - Riverton - resmungou aborrecido. Ento, o grande homem veio receb-la pessoalmente.
   Quatro pees do Circle R o seguiam, e Conner aproveitou a passagem da pequena carruagem para estudar o perfil de Charles Riverton sob o toldo de couro. Odiava 
admitir, mas o sujeito comandava a parelha de animais imponentes com habilidade espantosa.
   - Uma conduo  altura da dama elegante - Rob sorriu debochado.
   Conner o ignorou. Permanecia atento ao homem que odiava. Charles deteve os cavalos e desceu da carruagem, alisando o traje de tecido claro, antes de tirar o chapu 
Panam da cabea para cumprimentar Belinda com um floreio exagerado. O sorriso com que ela retribuiu e a facilidade com que se deixou beijar nas mos fez Conner 
pensar em atacar.
   Notando a expresso furiosa do xerife, Rob decidiu varrer a calada na frente do caf.
   A ltima coisa que Conner desejava era um confronto com Riverton ou Belinda. Wally j acomodava a bagagem da visitante no compartimento de carga do veculo, mas 
nenhum dos homens de Riverton desmontou para oferecer ajuda. Por outro lado, Riverton no os contratara por suas maneiras, mas sim por suas pistolas.
   Estava perdendo tempo parado no meio da rua, observando a cena. J comeava a virar-se para partir, quando viu que Belinda apontava para o seu escritrio. Devia 
estar contando a Riverton tudo o que ocorrera entre eles. Ou melhor, quase tudo. Sabia que ela no mencionaria o beijo.
   - Rob, fique de olho em tudo por mim, est bem? Estarei de volta antes do entardecer.
   V tranqilo, xerife. Lembranas para a famlia. 
   - Obrigado.
   Cortando caminho pela alameda que passava ao lado do caf, Conner dirigiu-se ao alpendre que os fundadores da cidade haviam construdo nos fundos da cadeia. Minutos 
depois havia selado o cavalo, e logo partia tomando a direo do rancho. Enquanto cavalgava, pensava em como daria as notcias sobre Belinda Jarvis.
   
   
   CAPTULO III
   
   Belinda recusou-se a reconhecer o olhar atento do xerife, mas no momento em que ele virou-se, suspirou aliviada por no estar mais sendo observada.
   - Minha querida, alguma coisa a aborreceu? - Charles Riverton perguntou, devolvendo o chapu  cabea. - Parece distrada. Kincaid fez algo que...?
   - O xerife? De onde tirou essa idia? Se algum est aborrecido, a culpa  minha pelas notcias que dei a ele. Por favor - disse, pousando a mo em seu brao 
-, no se preocupe.
   Vendo que a bagagem estava na carruagem, agradeceu a Wally. Como Charles no fez meno de recompens-lo, ela removeu uma moeda de um dlar da bolsa e entregou-a 
ao homem.
   - Isso no e necessrio. Wally  pago para...
   - Charles, entendo que os costumes desta cidade so diferentes, mas, por favor, deixe-me tomar minhas prprias decises a respeito dos servios que me forem prestados.
   Houve uma breve centelha de raiva nos olhos escuros.
   -  claro. Havia me esquecido de que  uma mulher independente. No repetirei o engano, minha querida. Venha - e ofereceu a mo para ajud-la a acomodar-se no 
veculo. Uma vez sentados, ele a observou por alguns instantes. - Est ainda mais linda do que minha memria previa. E se Kincaid esqueceu que est lidando com uma 
dama, juro que o farei pagar pelo erro.
   Ouvindo o pulsar da violncia na voz dele, Belinda sentiu-se alarmada. Olhou para o corpo imponente vestido de acordo com os ltimos rigores da moda masculina 
e lembrou-se da reao de Kincaid quando mencionara o nome de seu anfitrio. Era evidente que a antipatia era recproca.
   - Garanto que no precisa incomodar-se, Charles. O xerife no foi to desagradvel quanto rude. - Teve de parar. Charles exibia uma expresso estranha. Desapontada, 
pensou. E era inquietante descobrir-se defendendo Kincaid mais uma vez. Como podia esquecer que ele a ofendera e desafiara? O calor devia estar afetando seu raciocnio.
   - Tenho certeza de que seu tio Phillip disse que farei tudo que estiver ao meu alcance para ajud-la. - Ele soltou as rdeas que deixara amarradas ao poste na 
frente da estao. - Modstia  parte, tenho um poder considervel nesta parte do territrio. Mas admito que estou intrigado, minha querida. Phillip no mencionou 
o que a trouxe aqui.
   - Foi um pedido meu. - Belinda pensou na falta de modstia do anfitrio e nas ameaas de Kincaid. Podia pr um ponto final no problema revelando a Charles o que 
desejava fazer.
   O desconforto que comeara no instante em que Charles levara suas mos aos lbios cresceu com rapidez assustadora. Sabia que ele determinaria um preo por sua 
ajuda, e no acreditava que estivesse sendo vaidosa ao considerar que faria parte da barganha.
   Os cavalos partiram num trote acelerado. Os quatro cavaleiros que o acompanhavam dividiram-se em dois grupos e colocaram-se nas laterais do veculo. A aparncia 
endurecida dos homens contribua para o seu desconforto, embora tentasse justific-la. De acordo com os artigos que lera nos jornais, o oeste era uma regio repleta 
de ameaas. Um homem com a riqueza e o poder de Charles Riverton seria um alvo constante.
   Muitos cavalheiros de seu conhecimento possuam guarda-costas. Por que ento o sentimento de inquietao persistia?
   Ao passarem pela cadeia, notou que a porta do escritrio do xerife permanecia aberta. Separados por alguns poucos lotes de edifcios, dois saloons erguiam-se 
frente  frente na rua deserta. Discreta, virou-se para ler os nomes nas tabuletas. Dugout e Potee's seriam mais duas palavras que acrescentaria  lista que preparava 
para Christian DeYoung, seu homem de negcios. Apaixonado por novelas sobre os perigos do oeste, ele manifestara a inteno de acompanh-la na viagem, mas com a 
ameaa que seu primo Albert oferecia aos negcios da famlia, Belinda tivera de recusar a oferta.
   - Minha querida, no consigo deixar de pensar nos motivos que a levaram a se lanar nessa viagem sozinha. No quer me tranqilizar contando a verdade?
   Belinda analisou o perfil determinado. Normalmente no hesitava em usar seus encantos femininos para servir a propsitos especficos. Tambm era capaz de tornar 
a voz to melosa que at o mais persistente dos homens esqueceria de seus objetivos.
   - Desculpe-me, sr. Riverton, mas...
   - Charles, minha querida, por favor. Acho que ultrapassamos a fronteira da formalidade quando usou meu primeiro nome na estao. Ser chamado de sr. Riverton me 
faz ter a impresso de que sou da idade de seu tio, quando a verdade  que existe uma diferena considervel entre mim e ele.
   O deslize de t-lo tratado pelo primeiro nome havia sido conseqncia do estado de esprito em que Riverton a encontrara depois do encontro com o xerife.
   Mas agora tinha uma nova preocupao. O velho devasso no era nada sutil em suas insinuaes. Pensar nele como qualquer coisa exceto contemporneo e amigo do 
tio? Nunca! Phillip havia comemorado cinqenta e oito anos de vida com um ms de antecedncia por causa de sua partida. Charles era dez anos mais jovem. Conhecia 
muitas mulheres que haviam se casado com homens mais velhos, mas vinte e tantos anos era uma diferena grande demais. Se estivesse pensando em se casar.
   Kincaid no era velho.
   Belinda assustou-se com o pensamento. De onde ele surgira?
   - Minha querida, ainda no respondeu. Posso cham-la de Belinda?
   - No sei se meu tio aprovaria. 
   - Mas Phillip no est aqui.
   - Tem razo. Bem, se ser chamado de Charles o faz mais feliz... Como estava dizendo, estou cansada depois da longa jornada. A explicao  longa e aborrecida. 
Tenho certeza de que ser delicado e me permitir a oportunidade de repousar antes de esclarecer suas dvidas.
   Posto em seu devido lugar de anfitrio, Charles no teve outra opo seno concordar.
   - Est bem, mas o telegrama de Phillip levou-me a deduzir que o problema  de certa urgncia.
   - . - A resposta, alm de curta, era rude. Qual era o problema com ela? Podia precisar da ajuda desse homem. Alien-lo no era a melhor maneira de garantir sua 
cooperao. No podia deixar o problema inteiramente nas mos do xerife, cujo envolvimento com a questo despertava suspeitas. Ou podia? Kincaid ficara ofendido 
quando tentara suborn-lo. S um homem muito honesto teria reagido a to alta quantia daquela maneira.
   Ou seria apenas um truque? Massageando a testa, Belinda reconheceu que no possua respostas. Raramente errava ao julgar o carter de algum. Mas Kincaid... e 
o calor... e aquele beijo...
   Gostaria de permanecer em silncio e refletir enquanto apreciava a paisagem, mas no descobriria nada sobre os Kincaid se no convencesse Charles a falar. Era 
hora de desculpar-se pela atitude grosseira e rspida.
   - Charles, espero que me perdoe. Os ltimos meses foram difceis. - Como todos os homens, especialmente os que dispunham de riqueza mas ansiavam pelo poder. Charles 
no era imune ao tom suave de sua voz e a um ou dois elogios vazios. Precisava encontrar um assunto qualquer para alimentar a conversa, mas a terra nua no oferecia 
sugestes aproveitveis. Ento ela teve urna idia. 
   - Posso lhe fazer uma pergunta pessoal?
   Charles fitou-a e pensou ter visto um brilho de admirao nos grandes olhos castanhos. Belinda tinha personalidade e opinies prprias, como descobrira h pouco, 
mas era jovem, malevel e muito rica.
   Pensar em toda aquela riqueza ajudou-o a injetar mais calor na voz.
   - Pergunte o que quiser, minha querida.
   - Depois de termos sido apresentados, no ano passado, fiquei bastante curiosa a seu respeito. - Felizmente o terreno acidentado obrigou-o a manter os olhos fixos 
nos cavalos. - Por que um homem refinado e de bom gosto como voc decidiu vir morar aqui? Pelo que pude notar at agora, no h o menor indcio de civilizao. Nunca 
entendi o que leva as pessoas a deixarem as grandes cidades, onde tudo que se pode desejar est ao alcance das mos. No  segredo que esta terra indomada oferece 
todos os tipos de provaes e dificuldades que a mente humana pode conjecturar.
   - Tem razo, Belinda. Ainda temos bandos de Apaches renegados resistindo aos nossos esforos de transformar o territrio num local menos selvagem. Mas o exrcito 
tem se empenhado na luta, e ultimamente os ndios tm sido mantidos em suas reservas. As possibilidades de sucesso e riqueza so infinitas para um homem de viso. 
Reconheo que tenho pensado em me candidatar ao governo deste territrio.
   - Estou detectando fortes ambies, Charles?
   - Por que no? Aqui h ouro e prata suficientes para abastecer todos os meus sonhos e os de mais um punhado de homens gananciosos. Dinheiro como o que gente como 
os Gould e os Commodore tm  sua disposio.
   - Os bares do roubo de gado - ela murmurou, escondendo o desgosto.
   Charles brindou-a com um sorriso satisfeito. - Exatamente.
   - Tio Phillip estava certo a seu respeito. - Belinda acomodou-se melhor no banco de madeira, recordando as palavras do tio. Charles s servia a um deus: o poder. 
Phillip tambm a informara que o homem era inescrupuloso ao escolher os meios pelo qual o obtinha.
   - Como admiro seu tio, vou interpretar o comentrio como um elogio.
   Melhor no corrigi-lo, ou conquistaria sua antipatia. Sentia-se confortvel fazendo esse tipo de jogo com homens como Charles Riverton. A situao era muito diferente 
do desconcertante encontro com o xerife Kincaid.
   Era difcil expulsar da mente a imagem de Kincaid, e o sentimento de relutncia s contribua para sua confuso. Um estranho e sensual arrepio percorreu sua pele, 
uma reao instintiva que no podia controlar ou deter.
   - Se estiver disposta, amanh iremos cavalgar pelo rancho. Quero que conhea minha propriedade. H uma certa beleza primitiva nesta regio.
   - Ser maravilhoso. Tem vizinhos prximos?
   - Os Kincaid so os mais prximos. Estamos separados por cerca de uma hora de cavalgada. Por que pergunta?
   - Simples curiosidade - ela encolheu os ombros. Ento ficaria hospedada ao lado do rancho dos Kincaid? Poderia tomar um cavalo emprestado e... E o qu? Raptar 
o sobrinho? Arriscar um confronto com a lei? Tinha de proceder com cautela at conhecer melhor o oponente. Kincaid podia ser duro.
   No entendia essa preocupao exagerada com o homem. Examinando os prprios sentimentos, Belinda soube que no podia estar atrada por ele. No encalo dessa concluso, 
uma voz inconveniente perguntou que diabos a possura para beij-lo daquela maneira. Um estranho... um sujeito arrogante e atrevido, um mentiroso... Podia passar 
dias inteiros relacionando adjetivos para descrev-lo.
   Brincou com o boto da gola do vestido. O beijo havia sido apenas um impulso momentneo. E o calor a afetava, ela disse a si mesma pela dcima vez. E existira 
uma quantidade espantosa de calor gerada pela masculinidade envolvente do xerife. E quanto aos comentrios sobre o prazer que outras mulheres encontravam em seus 
mtodos lentos?
   Pronto! Podia sentir a raiva retornando, alimentada pela lembrana de como ele a enganara com suas maneiras incialmente civilizadas. Deliberadamente, Kincaid 
a levara a falar sobre seu irmo. Seu irmo!
   E no esqueceria aquela acusao absurda sobre no estar preocupada com o bem-estar do sobrinho. Criando uma muralha protetora com os tijolos da ira e do ressentimento, 
continuando refletindo sobre a situao em que se encontrava. No informara o xerife sobre a distncia que o irmo havia colocado entre eles. Todas as tentativas 
de reaproximao haviam sido frustradas. Nunca contara a ningum sobre a dor que sentira ao ser impedida de ver o sobrinho.
   O problema tornara-se ainda maior quando a av decidira deixar para Belinda sua cota de aes nas empresas da famlia. Robert rompera todos os laos em carter 
definitivo quando soubera que o testamento do pai manifestava deciso idntica.
   Ele culpara Belinda por ter sido privado de sua parte na herana, mas ambos sabiam que isso no era verdade. O verdadeiro motivo da excluso do nome de Robert 
dos testamentos fora seu desinteresse pelos negcios da famlia.
   Sim, a acusao do xerife a atingira, mas orgulhava-se por ter sido capaz de esconder a dor dos olhos astutos e penetrantes.
   Por outro lado, Kincaid havia lhe dado algo em que pensar.
   O velho da estao, Wally, dissera que a famlia Kincaid era muito antiga e prxima. Todos desfrutavam de um relacionamento muito ntimo e caloroso.
   E se o xerife se recusasse a agir de acordo com o desejo de Robert? E se a impedisse de ficar com o garoto? E se o menino se recusasse a deix-los?
   A paisagem era um borro desbotado diante de seus olhos cansados. No podia se deixar abalar pelas dvidas. Aquelas pessoas no tinham direito algum sobre o garoto 
e nenhuma criana podia tomar decises envolvendo seu futuro.
   Era aquele calor infernal que prejudicava seu raciocnio e permitia que pensamentos ridculos perturbassem sua habitual segurana.
   Conseguiria o que viera buscar, e nenhum Kincaid, xerife ou no, a deteria.
   
   
   CAPTULO IV
   
   - Isso tudo  ridculo! - Logan concentrou-se no curativo que trocava na pata da gua preferida de sua me. 
   - No imagino de onde tirou essa histria absurda, Conner. -Ajoelhado sobre instantes, palha do estbulo, Logan ergueu a cabea por alguns algun tantes, o suficiente 
para lanar um olhar irado na direo do irmo. 
   - No tem nada melhor para fazer alm de ficar sentado em seu escritrio, inventando coisas? Se isso  uma piada, saiba que no tem graa nenhuma. E se precisa 
trabalho, h muito o que fazer por aqui.
   - No estou inventando nada. Nem estou tentando diverti-lo com histrias engraadas, Logan. Li a carta. Conversei com a mulher. Mas vamos deixar esse assunto 
para outra hora. Parece que est cheio de trabalho.
   A compreenso nos olhos do irmo aplacou a fria de Logan.
   - Sim - ele suspirou. - Estou to cheio de trabalho que no durmo em minha cama h duas noites. Caramba, Conner, como conseguia dar conta de tudo?
   - Apenas conseguia - ele encolheu os ombros. - O trabalho tinha de ser feito. No havia muita escolha.
   E Conner no pudera contar com a ajuda de ningum. Assumira o papel que fora do pai como se houvesse nascido para ele, em todos os sentidos. Pelo menos, era o 
que Logan e Ty, o caula dos trs irmos, pensavam. S quando Conner delegou a maioria das atividades dirias, livrando-se da carga excessiva, puderam entender que 
ele jamais desejara o comando. As palavras de Santo ecoaram na mente de Logan: Conner se tornou um homem antes de ter tido tempo de ser menino.
   - No  o trabalho, Conner. -Satisfeito com o curativo na pata da gua, Logan acariciou-a e guardou as bandagens, a pomada e o leo analgsico na caixa de primeiros-socorros.
   - Ento, qual  o problema?
   - Acho que Ty e eu ainda no conseguimos determinar quem decide sobre o qu. Na verdade, ele passa boa parte do tempo apressando os carpinteiros, tornando providncias 
para que a casa onde ele e Dixie vo morar fique pronta depressa. Se quer saber, acho que o invejo. Jessie nunca disse nada sobre deixarmos a casa principal, mas 
ela  uma mulher habituada a cuidar dos prprios domnios. Sofia no permite que ningum use a cozinha. Sabe como ela ..
   - Sim, eu sei - Conner sorriu.
   No sei quando terei tempo para construir uma casa s para ns. Alm do mais, no posso tirar os garotos de perto de mame. No agora.
   Tem razo, no pode. Resumindo, todas as decises recaem sobre seus ombros, porque voc est aqui, enquanto Ty se ausenta.
   - Brilhante concluso.
   - Quer mais uma? - Conner perguntou, apoiando um p sobre a ala da caixa de madeira no cho. - Belinda Jarvis... No pode acreditar nela.
   - J disse que acredito na mulher. As evidncias so muitas, e os fatos...
   - Os fatos no me dizem nada.
   Conner respirou fundo.
   - Logan, pode negar quanto quiser, mas a mulher tem ao nos ossos. Ela no vai desistir. No pode ignorar...
   - No estou ignorando nada. Irritado, Logan levantou-se e encarou o irmo. - Estou ouvindo o que diz e tenho a estranha sensao de que aprova essa mulher. Pensei 
ter escutado alguma coisa sobre como ela fala o tempo todo, como  encrenqueira e barulhenta, como...
   Eu disse isso?
   - Vai negar?
   No.
   - O que est havendo com voc, Conner? Admira a tal mulher?
   - Deus me proteja! Ela  mais dura que...
   - Conner, pare de tentar me convencer de que no gosta dela. Em vez disso, diga que ela no pode tirar o menino de ns. Deslizando uma das mos pelos cabelos 
escuros, Logan olhou em volta. 
   - Meu Deus! O que vou dizer a Jessie?
   - Nada, por enquanto. J disse que vim at aqui para preveni-lo, mas no quero que essa histria se espalhe. Ser um segredo nosso, est bem? Ao menos at esclarecermos 
os fatos. No conte nada a mame ou a Jessie. Converse com Ty, se quiser. Farei tudo que puder para verificar o que a srta. Jarvis afirma.
   Conner abriu a porta do estbulo para o irmo e trancou-a por fora. Logan parecia aturdido, como se comeasse a compreender a seriedade da questo. Sabia que 
o irmo havia pousado um brao sobre seus ombros, mas no se moveu.
   - Escute, Logan, voc pode me ajudar a provar que ela est mentindo. Ou que se enganou. Se tem tanta certeza de que o menino a que ela se refere no est aqui, 
consiga provas. Os garotos tm as Bblias que foram de suas famlias, no?
   Logan olhou para a porta fechada do galpo que servia de depsito.
   - Tudo que  deles est ali. Tudo que as carroas trouxeram. Nunca mais pedi que fossem examinar os objetos depois da primeira vez que eles se recusaram a toc-los. 
Aceitei a palavra de Kenny desde o incio, e por isso afirmo que so primos sem ningum que possa responsabilizar-se por eles. No creio que o menino tenha mentido 
para mim.
   - No podemos ter certeza de nada. Alm do mais, Kenny tem um jeito que faria o pregador pensar que ele  o pecador a ser salvo.
   Os dois riram.
   - Precisamos conversar com Kenny antes de mais nada Conner sugeriu.
   - Santo levou Jessie e os meninos para colherem amoras. Vai ter de esperar que eles voltem.
   - Est bem, mas pense no que eu disse, Logan. Se estiver certa, a srta. Jarvs tem o amparo da lei.
   - A lei? - Logan deixou cair a caixa de primeiros socorros e, furioso, chutou-a com violncia, investindo contra o irmo. 
   - Repita isso - exigiu, agarrando Conner pelo brao.
   - Voc ouviu, Logan. Se ela estiver certa, no terei escolha seno entregar o menino.
   - No vai tirar nenhum deles daqui! - Descontrolado, Logan soltou o brao de Conner e desferiu um soco contra seu queixo.
   Conner virou a cabea, esquivando-se do golpe. A mo de Logan atingiu-o no ombro. Enlouquecido, ele investiu novamente contra o irmo mais velho, que fazia o 
possvel para evitar os ataques sem revid-los. Notando que no conseguiria cont-lo por muito mais tempo, Conner agarrou os braos de Logan e empurrou-o contra 
a parede do estbulo, imobilizando-o.
   - Pare com isso! No quero brigar com voc! - gritou.
   Ofegante, Logan o encarou. Havia apoiado a deciso de Conner sobre candidatar-se ao cargo de xerife, mas isso... Isso era traio da pior espcie.
   Ele balanou a cabea.
   - No acredito que esteja aqui, dizendo que vai se colocar contra ns.
   - No estou contra....
   - E claro que est! Seus ps pisam sobre terra dos Kincaid, Conner. E mesmo assim se atreve a dizer que vai partir o corao de minha Jessie, sem mencionar o 
que a partida de um daqueles meninos far  nossa me. E meus garotos? J pensou no que sofrero se houver uma separao? Depois de tudo que Marty e Kenny enfrentaram 
juntos... Primeiro perderam os pais, depois tiveram de procurar frutas e razes para no passarem fome, e sempre sozinhos e assustados... Acredita que vou permitir 
que uma estranha os separe, depois de quase terem morrido tentando salvar minha vida de um bando de renegados? Vou lhe dizer uma coisa, Conner. Se voc se atrever 
a levar...
   - No me ameace, Logan.
   - No me venha com esse ar de xerife autoritrio, porque aqui voc no  mais o chefe. No passa de um fantoche com uma estrela no peito, um traidor que no  
mais capaz dce lembrar quee a famlia deve estar sempre em primeiro lugar.
   - Est zangado com a pessoa errada. Pare de falar...
   - Vou dizer tudo que penso.
   - Logan, no diga mais nada, ou vai se arrepender depois, como eu j estou arrependido. E abaixe a voz, ou todo o rancho saber o que vim fazer aqui.
   - Tem medo de arruinar sua imagem de homem justo e perfeito? - Logan passou a mo pela boca e, com a ponta da lngua, examinou os dentes. A mandbula j comeava 
a inchar onde se chocara contra a madeira da parede.
   Conner esfregava as mos nas pernas num esforo para controlar-se, mas notar que Logan o encarava como se fosse um verme rasteiro no o ajudava em nada. Maldita 
Belinda Jarvis!
   - Logan, escute. Eu...
   - No!  voc quem vai escutar. Conversarei com os meninos e descobrirei se h alguma verdade nessa afirmao. E vou examinar as Bblias, tambm. Mas no quero 
voc perto deles.
   - No tem o direito...
   - Tenho todos os direitos, Conner. Sou o que esses meninos tm de mais prximo da figura de um pai. E no pode ter esquecido quem est hospedando a tal mulher. 
Antes de vir at aqui, pensou que Riverton pode ter planejado tudo isso?
   - Por qu? O que ele ganharia...?
   - Muito, Conner. Pode ser uma ttica para nos separar.
   Conner respirou fundo e deixou os braos carem ao longo do corpo. J que Logan estava disposto a raciocinar e refletir sobre a questo, tinha de fazer um esforo 
para pensar, tambm. Mas colocar-se do lado oposto estava dilacerando sua alma.
   Num tom mais calmo, respondeu:
   - Enquanto vinha para c, pensei na possibilidade de Riverton estar por trs disso. Posso no gostar do que Belinda Jarvis tem a dizer, mas sou forado a levar 
seus argumentos em considerao. Acredito nela. Voc no estava l quando revelei que ramos irmos. Como j expliquei, ela est de posse de um relatrio da Agncia 
Pinkerton, onde so mencionados uma viva e um fora-da-lei que deixaram Apache Junction com dois meninos que no eram deles.
   Conner viu a expresso furiosa que se formava no rosto do irmo e levantou uma das mos.
   - Deixe-me terminar. Por mais que goste da idia de embrulhar o problema numa trouxa e jog-lo na porta de Riverton, no posso. Por duas razes. Ele no podia 
ter certeza de que estaria nos separando. E mesmo que conhecesse uma maneira de usar a histria a seu favor, ainda haveria Belinda. Aquela mulher no pode ter fingido 
a reao espantada que teve quando soube que ramos irmos. Ela no sabia que eu era um Kincaid. Riverton no teria deixado de mencionar este detalhe.
   Logan retrocedeu um passo, os olhos fixos no rosto do irmo.
   -  isso? - perguntou. -  s o que tem a dizer? Est disposto a arruinar sua prpria famlia por conta da palavra de uma mulher que agiu como se no soubesse 
que voc  um Kincaid?
   - Trate de limpar as orelhas, meu irmo! Eu disse que enviaria telegramas e verificaria tudo que ela disse antes de deix-la aproximar-se desta famlia. Minha 
famlia, Logan. Tente entender que meu trabalho...
   Dane-se o seu trabalho, Conner! V para o inferno, e leve-o com voc!
   - Logan!
   Conner pensou em seguir o irmo, mas desistiu. Sabia que era intil tentar conversar quando os nimos estavam to exaltados.
   No entendia o que havia acontecido. Logan costumava ser sempre o mais calmo, o mediador, aquele que se mostrava sempre disposto a ouvir todas as partes. Dessa 
vez, em vez de ajud-lo a pensar numa soluo que reduzisse as possibilidades de danos e sofrimento, o irmo permitira que a ira se impusesse ao bom senso.
   Furioso, Conner virou-se e desferiu um soco contra a parede do estbulo. Uma nuvem de poeira desprendeu-se da madeira, cobrindo suas roupas. A raiva ainda fervia 
em seu peito, o problema no deixara de existir, e agora ainda tinha os dedos esfolados.
   Adoraria provar que Belinda Jarvis e Riverton estavam unidos numa tentativa de destruir a paz e a harmonia da famlia Kincaid.
   Adoraria, mas, no fundo, sabia que isso no era verdade.
   Uma ltima centelha de duvida forou caminho por entre seus pensamentos. Se ela no houvesse permitido aquele beijo, estaria tentando provar a veracidade de sua 
alegao?
   Conner olhou para o cho e o material de primeiros socorros espalhados em torno da caixa de madeira. Os velhos hbitos so difceis de morrer. Odiava coisas fora 
do lugar, como detestava assuntos pendentes. Enquanto recolhia os objetos e os guardava na caixa, pensou no encontro com Belinda.
   Havia se recusado a discutir a importncia da agncia Pinkerton, mas qualquer xerife digno de seus quarenta e oito dlares mensais conhecia a reputao da entidade. 
Mas, da mesma forma que procurara no revelar muito, sabia que Belinda tambm deixara de dizer muitas coisas.
   E se ela estivesse certa, ento Kenny havia mentido ao afirmar que ele e Marty eram primos.
   Havia procurado Logan como irmo. Agora no tinha escolha seno abord-lo como representante da lei.
   CAPTULO V
   
   Cansada e suada, Jessie lamentou no ter ficado em casa enquanto Santo e os garotos colhiam as primeiras amoras da estao.
   Havia estendido uma toalha de piquenique  sombra de uma parede da garganta rochosa, contente por poder permanecer ali enquanto Santo, Kenny e Marty seguiam as 
trilhas deixadas por animais que percorriam o caminho aberto entre as rochas.
   Desistira de encontrar as amoras depois da primeira meia hora de buscas infrutferas, mas a felicidade dos meninos significava tanto para ela, que no tinha coragem 
de rnanifestar o desejo de voltar ao rancho.
   Havia outro motivo pelo qual no se sentia ansiosa para voltar, um que no podia revelar a ningum. Nem mesmo ao marido. Logan no entenderia as dificuldades 
que havia enfrentado ao longo dos ltimos meses.
   Macria e Sofia a tratavam muito bem. Elas a receberam como se fosse da famlia, e cobriam os meninos de ateno e carinho. At mesmo Dixie, sua nova cunhada, 
oferecera amizade e apoio. Mas agora Dixie e o marido viviam um captulo muito especial de suas vidas, enquanto esperavam a chegada do primeiro filho. Rosanna, filha 
de Sofia, havia sido a nica a notar a inquietao que a atormentava e, atenciosa, abandonara as tarefas domsticas para ajud-la a ocupar o tempo.
   Atenciosa demais, talvez. Havia algo na jovem que a incomodava. Uma sensao que comeara quando ela a questionara sobre o esforo para limpar o nome de Logan. 
Jessie ficara to surpresa que no conseguira disfarar. E no haviam sido as perguntas que a aborreceram. Afinal, Rosanna crescera entre os Kincaid. O que a perturbara 
fora o fato da filha da governanta saber mais que ela.
   Tocando a aliana de ouro que usava na mo esquerda, Jessie tentou sufocar o desconforto. Talvez fosse proveniente do fato de ter perdido parte da independncia 
que conquistara com tanto esforo.
   Apaixonara-se pela famlia de Logan com a mesma facilidade com que se apaixonara por seu adorado fora-da-lei. Mas no podia deixar de sentir que todos os Kincaid 
ocupavam um lugar definido, enquanto ela ainda no encontrara o seu.
   Dixie teria o primeiro beb da nova gerao, e Macria estava ocupada com os preparativos para a chegada do neto.
   E Jessie tinha... No. No tinha mais os meninos. Quando Sofia no os estava mimando com guloseimas especiais, Santo ou outro empregado do rancho os chamava para 
uma lio sobre uma ou outra habilidade necessria a um rancheiro de sucesso.
   No podia nem mesmo cuidar de seu rebanho. Logan recusara-se a incorporar o gado aos animais do rancho Kincaid. Para evitar uma discusso infrutfera, Santo sugerira 
que Marty e Kenny fossem responsveis pelos cuidados com os bois que trouxera de Apache Junction. Perdoara Logan por ter recusado sua oferta quando, mais tarde, 
ele a tomara nos braos e explicara que preferia que preservasse algo de suas posses.
   No podia contestar um argumento to sensato, como no podia negar que a deciso de Santo havia sido a mais lgica. Kenny assumia suas novas responsabilidades 
com alegria e entusiasmo, e Marty comeava a dar sinais de amor ao trabalho. Seus pesadelos haviam diminudo desde que fora cercado pelo amor e a segurana proporcionados 
por uma famlia de verdade.
   Os dois haviam crescido e engordado, mas Jessie ainda surpreendia-se quando os via rir. Jamais esqueceria o pavor de ter estado perto de perd-los. E a Logan, 
tambm.
   Sacudida por um tremor provocado pela lembrana, Jessie voltou  realidade e ouviu a voz de Marty.
   -Jessie! Jessie, venha ver. Encontramos o acampamento dos ladres de gado!
   - Ladres - ela repetiu apavorada. - Marty, espere! - Mas, enquanto levantava-se para segui-lo, viu a cabea loura desaparecer atrs de uma rocha mais alta. - 
Santo esta com eles - sussurrou, tentando acalmar-se. - Ele no permitiria que nenhum perigo ameaasse os garotos e correu atrs do trio.
   
   Belinda inquietou-se ao ver os sentinelas armados no porto que levava  propriedade de Charles. A preocupao permancera, apesar da viso encantadora oferecida 
pela casa ampla e branca construda no alto de uma elevao.
   Apesar de tudo que seu tio e o prprio Charles haviam dito para tranqliz-la, temera no dispor de acomodaes confortveis no final da jornada.
   Com exceo dos sentinelas armados, as dvidas desapareceram.
   - Bem-vinda  minha casa, Belinda - Charles sorriu, oferecendo a mo para ajud-la a descer do veiculo. - Espero que pense nela como se fosse sua enquanto estiver 
me alegrando com o prazer de sua companhia.
   A intimidade da voz rouca obrigou-a a encar-lo. Os olhos escuros, quase negros, encontraram os dela com um calor que Belinda no retribuiu.
   Ao contrrio dos homens que vira desde sua chegada ao vilarejo, Charles no usava barba ou bigode. As costeletas eram cuidadosamente aparadas, revelando uma pele 
spera e coberta de sinais. Estivera to ocupada pensando no xerife, que no notara as bochechas carnudas e os lbios finos do anfitrio.
   Um velho ditado repetido com freqncia pela av surgiu em sua mente: lbios finos indicam um carter pobre. Ao ver que ele unia as sobrancelhas numa expresso 
intrigada, Belinda percebeu que o encarava como se quisesse ler algum segredo em seus olhos.
   - Obrigada pela acolhida generosa, Charles. Espero no abusar de sua hospitalidade por muito tempo.
   - Quem sabe? Talvez acabe se encantando com esta terra.
   Havia uma nota de insistncia em sua voz. Belinda foi tomada de assalto pela sensao de ter cometido um engano. Enquanto o anfitrio gritava ordens para os homens 
que os acompanharam na viagem, determinando quem levaria a bagagem e quem cuidaria da pequena carruagem, ela aproveitou para examinar a construo espaosa.
   Frescor em meio ao calor sufocante do deserto era o objeto de desejo de todos que construam suas casas naquela regio. Em seguida vinham preocupaes mais prticas, 
como proteo contra tempestades de areia, chuvas violentas e ataques indgenas.
   A casa ficava no alto de uma colina, de forma que, mesmo de onde estava, podia ver o terreno alm do porto, atravs dos currais cercados e dos pastos onde ele 
mantinha seu rebanho. Charles j havia apontado o enorme alojamento dos pees, construdo com pedras das montanhas para evitar que fosse incendiado, como j acontecera 
em tantos outros ranchos. Celeiros, depsitos, galpes de defumao e outros edifcios espalhavam-se pela propriedade.
   Virando-se para a casa, ela admirou as graciosas arcadas de tijolos caiados que convidavam a conhecer o interior protegido pelo telhado vermelho e pelas portas 
imponentes. Cadeiras de vime e vasos de cermica contendo palmeiras completavam a atmosfera fresca da varanda.
   Charles segurou-a pelo brao e a conduziu  escada de pedra. Alm dos degraus, a porta de madeira macia era flanqueada por batentes de bronze e lanternas de 
vidro. O bronze tambm podia ser visto na maaneta, nas dobradias e nos detalhes do entalhe artesanal.
   - Meu Deus! O artista que fez esse trabalho  um gnio! - Belinda elogiou com sinceridade.
   - Oh, refere-se  porta! - Charles sorriu orgulhoso. - Foi realmente um achado. Os negcios me obrigam a viajar ao Mxico com certa freqncia, e numa dessas 
ocasies fui abordado pelo padre de um pequeno vilarejo. Ele queria vender as portas da igreja para arrecadar o dinheiro necessrio a uma nova obra de caridade. 
Como a parada no me afastaria muito do caminho, concordei em ir examin-las. Sabe como so os religiosos - ele comentou com desdm. - Normalmente tm um senso de 
valor bastante exagerado quanto aos objetos que vendem. Mas, como pode ver, fui bastante favorecido pela barganha.
   Belinda murmurou um comentrio qualquer ditado pelas boas maneiras, mas a estimativa sobre o carter de Charles Riverton decresceu vrios, ,jontos. Fora criada 
aprendendo a dar valor  caridade, e acreditava que os mais afortunados deviam ajudar os menos favorecidos pela sorte, no tirar vantagem dos necessitados. Era evidente 
que Charles no compartilhava, de sua opunio.
   Mas era seu anfitrio, amigo de seu tio, e no tinha o direito de critic-lo. De qualquer maneira, o que acabara de ouvir contribua para o desconforto que no 
a deixava em paz.
   - Ah, sra. Dobbs. J estava estranhando a demora.
   Belinda virou-se para a mulher de aparncia severa que sussurrava alguma coisa para Charles. Os cabelos grisalhos presos num coque discreto na altura da nuca 
e o vestido escuro e sem adornos a fzeram lembrar as matronas que trabalhavam no orfanato em sua cidade natal. Sria, ela ouviu as instrues do patro sem dizer 
nada, e no ofereceu nem mesmo um sorriso de boas-vindas quando preparou-se para conduzir a hspede aos seus aposentos.
   - Espero que goste do quarto.
   - Tenho certeza de que vou apreci-lo, Charles - Belinda respondeu, ignorando; a mo que tocou seu brao num afago rpido antes de afastar-se. Na verdade, estava 
mais interessada na silhueta que parecia espreit-la da porta de um dos aposentos ao longo do corredor. Inclinou a cabea para enxergar melhor, mas, quem quer que 
houvesse estado ali, desaparecera. No podia nem dizer com certeza se era um homem ou uma mulher, porque um chapu de abas largas escondera o rosto.
   - Acompanhe a sra. Dobbs, minha querida. Ela desfar suas malas. Depois, espero que me faa companhia para uma refeio leve no ptio.
   Ansiosa por um bom banho e algumas horas de descanso, Belinda recordou que ele a distraira deliberadamente quando comeara a fazer perguntas sobre os Kincaid. 
Sorrindo, garantiu que iria juntar-se a ele para o lanche, dizendo a si mesma que Charles era sua nica fonte de informao. Precisava munir-se de todos os dados 
de que pudesse dispor antes de confrontar a famlia Kincaid e exigir que devolvessem seu sobrinho.
   Seguindo a silenciosa sra. Dobbs pelo corredor de teto alto, Belinda espiou atravs das portas entreabertas dos cmodos enfileirados. Teria imaginado a presena 
misteriosa? No havia ningum naqueles aposentos.
   A sra. Dobbs abriu uma porta no final do corredor e de repente estavam sob uma srie de arcadas reunidas em torno de um ptio circular.
   - Por aqui, senhorita - a criada instruiu, indicando uma passagem  esquerda - Os aposentos do sr. Riverton ficam naquela ala. Os seus encontram-se aqui, na ala 
dos hspedes.
   Belinda sentiu vontade de reprimir a mulher pelo tom impertinente, mas ficou quieta. Se Charles ou sua austera governanta acreditavam que tinha algum interesse 
na localizao de seu quarto, deviam ter passado tempo demais sob o sol.
   No preservara a prpria liberdade das restries do casamento durante tanto tempo sem tomar algumas precaues. No tinha a menor inteno de se deixar arrastar 
para uma posio comprometedora da qual s sairia casada.
   - Diga-me, sra. Dobbs, existem outros hspedes? Notei os outros quartos do outro lado da arcada.
   - Aqueles so os aposentos dos criados, a cozinha, a lavanderia e a despensa. Lugares que no vai precisar visitar enquanto estiver aqui.
   - Ento contam com outros empregados - Belinda deduziu sem deixar de segui-la. - Fiquei imaginando quem estaria espiando pela fresta da porta de um dos cmodos 
quando cheguei - comentou com falso desinteresse.
   -Est enganada, senhorita. No h mais ningum em casa.
   Belinda pensou em discutir, mas desistiu antes de dizer a primeira palavra. No cometera nenhum engano. Por que essa mulher mentia?
   Adoraria poder sentar-se  sombra de uma das rvores que se erguiam altivas no ptio. Um jato de gua brotava da fonte construda no centro do espao circular, 
em vasos de cermicas repletos de flores coloridas e exticas. Mesas e cadeiras formavam grupos informais em espaos regulares, convidando ao descanso e ao lazer. 
Os desenhos de flores e folhas das peas estofadas lembravam o trabalho intrincado dos portes e das balaustradas das casas de Nova Orleans.
   Belinda ouviu seu nome e notou que a sra. Dobbs estava parada sob uma das arcadas. O olhar impaciente a fez apressar-se. Estava to ansiosa para livrar-se da 
presena incmoda quanto a criada se mostrava aflita para deix-la.
   Tendo em mente o gosto pesado de Charles Riverton para mveis e decorao, ela surpreendeu-se ao entrar no quarto que havia sido preparado para receb-la.
   O tecido das cortinas que cobriam as janelas voltadas para o ptio era estampado em suaves tons de lils, azul e rosa sobre fundo bege. As cortinas haviam sido 
puxadas para revelar o forro em leve renda branca.
   As cores delicadas repetiam-se no forro de seda adamascada que cobria a madeira da cama e as poltronas em torno de uma pequena mesa de canto. A moblia era to 
feminina que parecia ter sido criada para uma mulher.
   Uma renda muito fina protegia a cama contra insetos comuns na regio. Almofadas pequenas e arredondadas convidavam ao descanso no sof encostado em uma das paredes. 
Diante das janelas, duas poltronas eram separadas por uma mesa sobre a qual trs cupidos sustentavam um relgio de prata entre eles.
   Belinda virou-se devagar, os olhos notando a combinao perfeita entre as cores e as peas de desenho leve, feminino.
   No podia conter o arrepio que percorria sua espinha. Era perfeito demais. E as cores...
   Sentindo que a sra. Dobbs a observava, Belinda forou um sorriso enquanto a criada, sem perder tempo, comeava a desfazer suas malas.
   A superfcie da cmoda logo foi coberta por uma coleo de escovas, pentes e outros objetos pessoais que trouxera no ba menor.
   Enquanto andava pelo quarto, Belinda sentia os saltos mergulharem no carpete espesso. O cheiro do cedro proveniente do armrio, cujas portas haviam sido abertas, 
pairava no ar. Admirando a beleza das lamparinas de porcelana e cristal sobre o criado-mudo, sentiu outro arrepio. Removeu as luvas e deixou-as sobre o aparador 
pintado com pequenas flores cor-de-rosa e contornado por um delicado trabalho em arame dourado. Sobre o mvel, havia ainda uma caixa para anis, uma espcie de lixeira 
para miudezas, como cabelos, por exemplo, e uma caixa maior para objetos variados.
   Belinda olhou para o prprio reflexo no espelho da parede. As sobrancelhas unidas refletiam a confuso que dominava seus pensamentos.
   Notou que a sra. Dobbs interrompera a tarefa para observ-la, mas preferiu ignor-la. Sem pressa, removeu os grampos que mantinham seu chapu preso  cabea. 
Ao alisar as abas antes de deix-lo sobre a cmoda, notou que os dedos estavam cobertos por uma fina poeira vermelha.
   Irritada com o olhar insolente e persistente da criada, finalmente virou-se para encar-la.
   - Algum problema, sra. Dobbs?
   - Sim, senhorita. No gostou do quarto?
   - Como?
   - O quarto, senhorita. O sr. Riverton gastou muito dinheiro para decor-lo com suas cores favoritas, mas ainda no disse uma nica palavra de aprovao.
   Belinda teve de engolir vrias vezes para esconder o desnimo e responder com voz firme.
   - O quarto  adorvel. Tenho certeza de que encontrarei tudo que for necessrio.
   Por qu? Preferia pensar que a decorao nos tons que mais apreciava era apenas uma coincidncia, mas a sra. Dobbs acabara de dizer o contrrio. Por que Charles 
havia se dado ao trabalho de descobrir quais as cores que mais a agradavam? E por que seu tio, o nico que podia ter colaborado, revelara detalhes to ntimos de 
sua personalidade?
   Belinda afastou-se para permitir que a sra. Dobbs enchesse as gavetas da cmoda com suas roupas ntimas. Queria ordenar que parasse de mexer em suas coisas, que 
devolvesse as meias e saiotes ao ba, mas conseguiu manter-se em silncio.
   Quando a criada balanou a cabea e fez um som de reprovao, ela se virou com expresso intrigada.
   - E agora, qual  o problema? - disparou exasperada.
   - Essas roupas tero de ser passadas, senhorita. Uma jovem elegante sempre viaja acompanhada por uma criada de confiana.
   -  o que voc pensa? Bem, como pode ver, prefiro a solido. - No sabia como reagir diante da audcia da mulher. No estava habituada a ter de explicar seus 
atos para uma simples criada.
   Ao ver que a pilha de roupas para passar crescia sobre a cama, Belinda compreendeu que as saias e blusas de tecido fino seriam mais uma tarefa alm da rotina 
diria da casa.
   - Sra. Dobbs, no precisa passar toda minha roupa. No ficarei aqui por muito tempo.
   - No se preocupe, senhorita. Eu mesma cuidarei de cada pea. E tambm no deve inquietar-se com a necessidade de uma dama de companhia, porque eu...
   Sra. Dobbs, no preciso de damas de companhia. No sou uma garotinha que acabou de sair do colgio.
   - Sim, senhorita.
   Aborrecida, Belinda virou-se. Tinha a sensao de que a mulher ia ignorar suas ordens. Mas precisava lembrar mais algum sobre sua condio de mulher adulta e 
independente. O xerife. O tal Kincaid que a fizera de tola.
   Ansiosa para livrar-se da governanta, Belinda cedeu ao impulso de ir investigar a alcova isolada por cortinas.
   - Para sua surpresa, o piso era de azulejos. Uma cortina muito fina escondia uma banheira de porcelana, e um armrio exibia uma ampla variedade de sabonetes franceses, 
leos perfumados e toalhas muito brancas. Ao lado da banheira havia um banco e uma mesa.
   Discretamente colocado no canto oposto, escondidos por outra cortina, ficavam o penico e o compartimento de dejetos. Como o conjunto de porcelana sobre a cmoda, 
as peas tambm exibiam desenhos de flores cor-de-rosa. Belinda encontrou mais objetos de porcelana sobre a ampla base de mrmore que cercava o lavatrio. Bacia 
e jarra, saboneteira e gancho para toalhas, porta-escovas e copo completavam o conjunto.
   Belinda aproveitou a gua morna deixada na jarra para lavar a poeira das mos e do rosto. A sra. Dobbs acertara ao dizer que Charles gastara muito dinheiro na 
decorao. Pensar nas possveis justificativas para tanto empenho era algo que a desagradava.
   Com o auxlio do espelho sobre o lavatrio, ajeitou os cabelos e prendeu algumas mechas rebeldes. Como no queria permanecer no quarto com a governanta e no 
podia esconder-se na alcova at a mulher concluir seu trabalho, Belinda retornou ao dormitrio e anunciou que estaria no ptio, recusando a sugesto da sra. Dobbs 
sobre a convenincia de que a acompanhasse.
   Ignorando o olhar de censura da empregada, fechou a porta e deixou escapar um suspiro aliviado. No havia ningum no ptio quando aproximou-se da fonte, pensando 
no comentrio da sra. Dobbs sobre ter viajado sem a companhia de uma serva.
   No explicaria seu desejo de manter a misso em segredo. Quando recebera a notcia sobre a morte de Robert e soubera que o filho dele sobrevivera, havia decidido 
encontrar a criana antes do primo Albert. Era a nica maneira de proteger o garoto e o fundo que sua famlia deixara. Albert estava determinado a arrancar de suas 
mos o controle dos negcios familiares. Sempre votara valendo-se das aes do irmo caula, mas agora as cotas pertenciam ao sobrinho.
   Se Albert ficasse com o garoto, certamente a obrigaria a compartilhar de seu esquema e, uma vez no controle, poria em risco a segurana dela e do menino. Phillip 
era o nico parente em quem confiava. Ele no diria a Albert onde estava, ou o que pretendia realizar.
   At mesmo seu homem de negcios fora informado de que ela havia ido visitar amigos que viviam distante.
   Mas Belinda no podia ignorar a preocupao. Albert ainda podia descobrir o que ela tramava e, nesse caso, tambm encontraria uma forma de det-la. Era um homem 
duro. J havia sido forada a demitir uma criada irlandesa depois de surpreender a jovem sentada sobre os joelhos do primo, cochichando sobre os planos da patroa 
para aquele dia. E o garoto do estbulo tambm fora dispensado pela mesma transgresso. E os acidentes...
   Bloqueando o curso dos pensamentos, lembrou o outro motivo que a levara a viajar sozinha. Amava a liberdade conferida pelo distanciamento das rgidas leis sociais 
que governavam sua vida. No havia ningum para franzir a testa, critic-la ou comentar seu comportamento inadequado.
   Como naquela manh, quando cedera ao impulso de beijar um estranho?
   Desejar voltar no tempo para apagar o beijo era tolice. Desejar esquecer o sabor dos lbios de Kincaid sobre os seus tambm era um exerccio intil.
   Pensar nele levou-a a lembrar que ainda estava insatisfeita com as respostas de Charles sobre a famlia Kincaid, especialmente com aquelas referentes ao xerife.
   Estava mais que curiosa a respeito dele. Estava intrigada. Deixara-se distrair pela natureza sensual do confronto, mas ele no teria uma nova oportunidade de 
engan-la. O homem era um desafio, e se tivesse tempo...
   Charles no estava no ptio e Belinda decidiu procur-lo.
   Olhou na direo das arcadas que levavam aos aposentos do anfitrio. Nem mesmo a necessidade crescente de question-lo a convenceria de ir at l. No esquecera 
o que a governanta dissera sobre Charles ter decorado o quarto com suas cores favoritas. Tio Phillip tambm teria de dar algumas explicaes.
   Belinda abriu a porta que levava ao corredor interno e sua ateno foi imediatamente atrada por uma voz masculina e alterada. A voz de Charles. Depois de alguns 
instantes de hesitao, caminhou pelo corredor at aproximar-se de uma porta entreaberta.
   - Eu disse que nunca devia vir at aqui durante o dia - Charles trovejava furioso. - No quero nem saber se a informao  importante. E se ela o visse? E fizesse 
algum comentrio inocente na presena de Kincaid?
   Belinda hesitou. O conselho da av ecoou em sua mente: pessoas que escutam atrs das portas acabam sempre ouvindo coisas desagradveis sobre si mesmas.
   No tinha a menor dvida de que ela era a mulher a quem Charles se referia. Qualquer coisa que a ligasse aos Kincaid era uma informao importante demais para 
ser ignorada. Pensaria na convenincia de suas maneiras mais tarde.
   Colada  parede e atenta  porta que levava ao ptio, certificou-se de que ningum a observava. O que podia haver de to interessante na famlia do xerife a ponto 
de despertar a curiosidade de Charles?
   Tinha de descobrir. Usaria todos os meios  sua disposio para vencer os Kincaid. Lanaria mo de todos os instrumentos necessrios para manter intacto o legado 
da famlia e deter os planos destrutivos de Albert.
   A porta estava entreaberta, mas a fresta no era grande o bastante para que pudesse ver o dono da casa ou quem quer que estivesse com ele. Depois da resposta 
sussurrada do visitante misterioso, Charles voltou a falar.
   - Agora que terminou de assinalar o mapa, vou buscar seu dinheiro. Como a informao que me trouxe  bastante valiosa, dobrarei o preo desta vez.
   O som de uma gaveta se abrindo fez Belinda arriscar um olhar mais direto atravs da abertura. Viu Charles parado atrs de uma imponente mesa de carvalho, de perfil 
para ela. Por alguns momentos ele aprecia estar olhando para a prpria mo. Depois ergueu a cabea e contornou a mesa. O movimento o ps novamente fora do alcance 
de sua viso.
   -Espere aqui at que a sra. Dobbs venha busc-lo. Quero ter certeza de que minha hspede no o ver.
   Sem saber que tipo de esquema era aquele, Belinda voltou pelo corredor at o ptio. Tinha de encontrar o tal mapa. Um velho truque que sempre funcionava quando 
precisava de uma desculpa para livrar-se de companhias indesejveis surgiu em sua mente. Decidida, soltou o gancho do brinco e deixou-o cair no cho.
   Sorrindo, chamou pelo anfitrio.
   - Charles? Charles, onde est voc? Pensei que... oh, finalmente o encontrei. Pensei que houvesse me esquecido.
   Charles saiu do aposento e fechou a porta, deixando as mos atrs dele sobre a maaneta.
   - Nunca, minha querida. Estava apenas tratando de um negcio que exigia ateno imediata. - Colocando-se ao lado dela, ofereceu o brao. - Nada me daria mais 
prazer do que desfrutar de sua companhia.
   - Fico feliz em saber disso. Tive a impresso de t-lo ouvido discutir... - e cravou os olhos no rosto perturbado. Seria raiva ou excitao que provocava o intenso 
rubor?
   - Bobagem, minha querida. No quero que se preocupe com coisas sem importncia. - Ele abriu a porta que dava para o ptio e, pousando a mo em suas costas, empurrou-a 
delicadamente para fora. Ah, a est William com nossa refeio. Tomei a liberdade de pedir  cozinheira uma pequena seleo de pratos nativos. Se no for de seu 
agrado, ela poder fazer outra coisa.
   -Tenho certeza de que gostarei de provar tudo que escolheu para mim, Charles. - Ao sentar-se de frente para a porta, notou que o dono da casa cochichava alguma 
coisa para o empregado.
   Sem olhar para a bandeja sobre a mesa, pediu a Charles que preparasse um prato diversificado. Ansiosa, notou que William dirigia-se aos seus aposentos para chamar 
a sra. Dobbs- Ele partiu imediatamente na direo da cozinha, enquanto a criada dirigia-se ao corredor interno.
   O momento havia chegado. Dez segundos depois da porta ter se fechado atrs da governanta. Belinda levantou-se e gritou:
   - Oh, meu Deus! Perdi meu brinco- Tocando a orelha nua, olhou em volta com expresso desesperada. - Por favor, ajude-rne a encontr-lo, Charles. Ajia foi de 
minha av. Tio Phillip vai ficar furioso se eu no puder recuper-la.
   Antes que Charies pudesse levantar-se, ela correu atravs do ptio e abriu a porta que dava para o corredor mordendo o lbio para conter um sorriso. O plano surtia 
efeito. A sra. Dobbs lanou um olhar assustado por cima do ombro e parou
   - Meu brinco - Belinda explicou ofegante. Era impossvel ver o rosto da pessoa que acompanhava a criada. A silhueta pequena estava envolta por uma capa escura 
com um capuz muito grande sob o chapu de abas largas, e s sabia que era um homem que a sra. Dobbs conduzia  porta de sada porque escutara a conversa. - Aqui 
est! - anunciou, ouvindo os passos de Charles e sentindo a aproximao da governanta.
   Antes que pudesse recuperar o brinco, Charles arrancou-o do alcance de seus dedos e examinou o arranjo de prolas e diamantes.
   -Que lugar mais estranho para perder um brinco, minha querida. No concorda comigo, sra. Dobbs?
   Belinda notou o olhar trocado pelos dois e sentiu que a euforia a abandonava.
   
   
   CAPTULO VI
   
   Conner no perdeu muito tempo perto da casa depois de decidir que no queria ver a me. Minutos depois de Logan t-lo deixado perto do estbulo, montou e partiu.
   Acenou para os homens que, sentados sobre a cerca do curral, observavam um peo tentando domar um cavalo selvagem.
   No precisava de muita imaginao para ver-se sendo atirado para cima e descendo sobre a sela enquanto o animal contorcia-se e pulava na tentativa de livrar-se 
do cavaleiro.
   O cavalo era esperto. Ao perceber que os movimentos bruscos no davam resultado, ele se atirou contra a cerca.
   Conner seguiu em frente, sorrindo ao ouvir os gritos dos empregados que gritavam suas apostas, encorajando o peo a domesticar a fera enlouquecida.
   Um sentimento de pesar o invadiu. Em alguns momentos dos ltimos meses sentira falta de estar no comando da rotina diria. Trabalho duro que o deixava cansado 
e suado e, em alguns casos, como quando era forado a sacrificar um animal com a pata quebrada, ou picado por uma cobra, triste.
   No era algo que pudesse admitir para a me ou os irmos. No depois de ter deixado claro que nunca desejara administrar o Rocking K sozinho, que ser um homem 
da lei era tudo que queria.
   Essa havia sido a verdade at aquela manh.
   Agora, com o problema que Belinda Jarvis depositara em suas mos como uma banana de dinamite com o pavio curto e aceso, no queria ser aquele que provocaria a 
exploso em sua famlia.
   Mas havia jurado garantir a lei e impor a justia a todos, independente do nome ou da classe social.
   Cavalgar em campo aberto, quando devia estar na cidade enviando os telegramas para confirmar a histria de Belinda, era uma ttica de retardamento. Um truque 
que no se orgulhava de admitir ter usado diversas vezes no passado. Depois da morte do pai, homens com o dobro de sua idade e o triplo de sua experincia acostumaram-se 
a esperar por sua deciso antes de agirem, e tudo porque soubera desempenhar seu papel.
   A terra queimada pelo sol, aparentemente desprovida de vida, o chamava como uma mulher apaixonada.
   Conner ouvia o chamado e agarrava a oportunidade, porque precisava desse tempo, no s para si mesmo, mas para que Logan tivesse uma oportunidade de conversar 
com os meninos e acalmar-se.
   Controlando o cavalo num trote lento, guiou o animal na direo norte. Os riachos e as gargantas cavadas nas rochas ofereciam dezenas de esconderijos para um 
homem em busca de solido.
   Minutos mais tarde, Conner desmontou e amarrou o cavalo a uma rocha sob uma encosta mais ngreme. Fez a escalada com facilidade, subindo por um caminho aberto 
ao longo dos anos que passara visitando aquele mesmo local.
   Uma grande plataforma rochosa oferecia assento e uma boa viso da terra que pertencia  sua famlia.
   Esse era um dos lugares do rancho que mais apreciava, para onde fugia sempre que se sentia pressionado por todas as solicitaes e responsabilidades. Especialmente 
nos anos que antecederam a deciso de Ty e Logan quanto a assumirem seus deveres como scios igualitrios na propriedade.
   Jogando o chapu para trs, enxugou as gotas de suor que brotavam em sua testa. Havia passado do meio-dia, mas o sol ainda castigava a terra sem piedade, absorvendo 
cada gota de umidade do solo, dos animais e dos homens.
   Um sopro de brisa o tocou, quente, morrendo instantes depois.
   Sentiu que estava sendo observado e, lentamente, virouse para a esquerda e para a direita. A lngua bifurcada de um gila monstruoso testava o ar a poucos metros 
de distncia. O lagarto tinha quase um metro de comprimento e pele escamosa. Seu nome originara-se dos conquistadores espanhis que o viram pela primeira vez perto 
do rio Gila.
   Conner manteve-se imvel. O lagarto era venenoso. No era comum encontrar um deles enquanto o sol ainda brilhava no cu, especialmente em espaos abertos. O animal 
devia ter sido perturbado por sua escalada pelas rochas e abandonara o refgio entre os arbustos para ir verificar o ambiente.
   Os ps de garras reduzidas sustentavam o corpo gordo e a cauda ainda mais espessa longe do calor das pedras. Com um movimento lento, quase preguioso, o lagarto 
girou sobre si mesmo e desceu a encosta de volta ao refgio.
   Conner deixou escapar o ar que nem percebera ter retido nos pulmes.
   Sentado sobre a rocha, examinou o terreno que estendia-se a seus ps. Ao longe podia ver as estreitas faixas brilhantes dos riachos e as manchas escuras do gado 
parado junto s margens, onde saciavam a sede.
   Viu o reflexo que o sol arrancava dos canos dos rifles dos guardas armados que colocara em pontos estratgicos alguns dias antes, depois de mais um episdio de 
roubo de gado. Quatro dos homens escolhidos por ele, Logan e Ty, eram dignos de sua completa confiana. O quinto, nico a ter visto o mapa onde a posio de cada 
sentinela era marcada, era Enrique, noivo de Rosanna, filha de Sofia e Santo. Ele era o homem de quem todos suspeitavam. O que provavelmente passava informaes 
para Riverton.
   Mas ningum o pegara em flagrante. Por amor e respeito a Santo e Sofia, pessoas que os Kincaid consideravam da famlia, nenhuma acusao verbal fora feita contra 
Enrique.
   Conner queria dispor de provas irrefutveis ligando o rapaz a Charles Riverton antes de tomar qualquer atitude.
   Por enquanto tinham apenas desconfianas, apesar de Logan ter se infiltrado no bando que estivera roubando as minas de ouro e prata. Seu irmo quase perdera a 
vida, mas o grupo fora desmantelado. Ainda no podiam provar que Riverton estava por trs de tudo, mas ou,roubos cessaram.
   Ou ele ganhara dinheiro suficiente para abandonar a vida criminosa, ou estava tentando criar um falso sentimento de segurana na regio.
   Mas os furtos haviam recomeado. Logan fora o primeiro a perceber a facilidade com que um animal do Rocking K podia ser transformado em propriedade do Circle 
R. Conner tivera de tomar providncias para evitar comentrios. Paciente, explicara aos pees que saber que algum estava mudando a marca do gado e provar o fato 
eram duas coisas muito diferentes. A lei precisava de provas.
   Quando tomara posse do cargo de xerife, a primeira coisa que fizera havia sido enviar recados a todos os empregados do Circle R, deixando claro que as conseqncias 
seriam terrveis para aqueles que fossem pegos alterando a marca de qualquer animal.
   Depois ordenara que cada novilho ou vaca encontrado em terras do Rocking K tivesse a orelha direita entalhada como um meio adicional de identificar os animais 
de propriedade do rancho. A identificao adicional no era  prova de alteraes, mas havia sido o melhor que pudera criar. Isso, e uma carta que enviara como xerife 
de Sweetwater a todos os compradores de gado do territrio, prevenindo-os sobre a necessidade de serem cautelosos ao adquirirem lotes cujo destino eram as cidades 
do leste.
   Mais uma vez, Conner soubera que o mtodo no oferecia garantias.
   No podia culpar os compradores. Com a mesma rapidez com que haviam corrido para adquirir terra a vinte e cinco centavos o acre nas fronteiras do deserto, os 
desbravadores estavam sendo substitudos por imigrantes europeus.  medida que cresciam as demandas dos habitantes e a necessidade de possurem bens originrios 
de vrios territrios, novas fbricas eram construdas e mais estradas de ferro se faziam necessrias para o transporte dos bens de consumo para o oeste e, em troca, 
eles atendiam  demanda de carne enviando animais para o leste.
   Que homem com uma gaveta cheia de pedidos e a possibilidade de ganhar muito dinheiro perderia tempo examinando as marcas dos animais que comprava? Poucos. Muito 
poucos.
   Sentia-se mais calmo por ter usado o bom senso para organizar os fatos e idias, mas sabia que o problema relativo ao roubo do gado ficaria em segundo plano at 
que conclusse a questo envolvendo Belinda Jarvis e sua famlia.
   Apesar do que Logan havia dito, sentia-se dividido entre o dever conferido pela estrela que levava no peito e os laos de sangue que o uniam ao irmo. Era o mais 
velho, o que sempre zelara pela segurana, pelo bem-estar...
   E ficar ali sentado, lamentando o que o destino havia deixado em sua porta, no o ajudaria em nada.
   Antes de se levantar, Conner lanou um ltimo olhar para a terra Kincaid. Os olhos passaram pelas sombras proporcionadas pelas paredes rochosas e subiram pela 
encosta, certificando-se de que no havia ningum por perto. Dois falces solitrios flutuavam no cu quase sem nuvens, desfrutando do impulso proporcionado por 
uma corrente de ar alta demais para benefici-lo.
   Um som cadenciado invadiu seus pensamentos. Conner olhou para baixo, atento a cada pedra ou arbusto. O som continuava, cada vez mais perto, e ele desejou ter 
trazido o binculo, em vez de t-lo deixado no alforje pendurado  sela do cavalo. No estava alarmado, mas uma estranha tenso o invadia  medida em que o som se 
aproximava.
   - Vamos agrup-los.
   A voz rouca e masculina vinha de algum ponto diretamente abaixo de onde estava.
   As nicas coisas que costumavam ser agrupadas naquela regio eram bois e cavalos.
   No havia gado naquela parte do rancho, e os bandos de cavalos selvagens raramente apareciam por aquelas redondezas. No havia gua, nem pasto para atra-los.
   O fato de no haver gado por ali eliminava a possibilidade dos homens serem empregados do Rocking K. A ordem havia sido dada a algum, o que significava que eram 
dois ou mais contra ele.
   Rpido, deitou-se sobre a rocha para no ser visto.
   Seu corpo absorveu o calor da superfcie dura e ele comeou a suar. A calma substituiu a tenso. Havia pensado em adiar a resoluo do problema com os roubos 
de gado, e agora o destino oferecia homens que poderia seguir. Tinha certeza de que suas suspeitas se confirmariam.
   Conner identificou o som abafado. Eram os cascos dos cavalos envoltos em tiras de pano. Quando eram crianas, Santo ensinara a ele e aos irmos o velho truque 
indgena para evitar pegadas.
   Se os homens continuassem seguindo as sombras oferecidas pelas paredes rochosas, os sentinelas jamais os veriam.
   Conner estava sozinho.
   
   - Volte com os garotos - Santo insistiu quando Jessie terminou de examinar seu tornozelo inchado. Recusara-se a tirar a bota, porque sabia que no poderia cal-la 
novamente. Ao descobrir as evidncias de um acampamento no fundo da garganta cavada entre as montanhas, abandonara a cautela e o bom senso para seguir as pistas.
   Jessie balanou a cabea.
   - No posso deix-lo aqui, e nem mandarei os meninos de volta sozinhos. E se os invasores os encontrarem?  evidente que so ladres de gado. No, Santo. Assim 
que Kenny trouxer os cavalos, ns o ajudaremos a montar e voltaremos juntos.
   - Ser que no escuta ningum?
   Ela sorriu.
   - Logan est sempre perguntando a mesma coisa.
   Pensando na dor que sentiria quando tentasse apoiar o peso sobre o tornozelo, Santo fechou os olhos. Sabia, e desconfiava de que Jessie tambm havia notado, que 
no se tratava de uma simples toro, mas de uma fratura. Teimosa, ela rebatera todos os argumentos sobre cavalgar de volta ao estbulo e contar a Logan tudo que 
haviam descoberto.
   - Santo? - Jessie o chamou em voz baixa, alarmada com o suor que banhava sua testa. -  mais que uma toro, no ?
   - Sou um velho descuidado.
   - No diga tolices! Voc  Santo, a Rocha. No  assim que o chamam? Macria no se cansa de elogiar sua fora, sua tenacidade. Ela no saberia o que fazer sem 
voc. E Logan...
   - Jessie, voc fala como um pica-pau.
   Ela desviou os olhos por alguns instantes, tentando esconder o que sentia. Uma estranha tenso oprimia seu peito, como se algo estivesse prestes a acontecer. 
Tentou ignorar os sinais do corpo, mas o sentimento persistia.
   - Est com medo? - Santo perguntou. - O que houve...? - Ele parou e olhou para a entrada da garganta. Marty vinha na frente puxando o pnei, e Kenny o seguia 
de perto conduzindo os trs cavalos.
   Jessie j caminhava na direo dos meninos, controlando-se para no correr ao ver as lgrimas nos olhos de Marty. 
   - Jessie, ele...?
   - Santo vai ficar bom. Vamos ajud-lo a chegar em casa e Sofia cuidar do ferimento. Tem idia do que ela vai falar? - perguntou sorrindo, tentando distrair os 
garotos. Por cima da cabea loura de Marty, encontrou os olhos de Kenny e assustou-se ao ver o olhar de um homem. s vezes era difcil lembrar que ele ainda era 
um menino. Havia enfrentado tantas provaes que, como Santo, tambm se tornara uma rocha.
   Marty ainda tinha pesadelos, mas eles diminuam com o passar das semanas. Em todos os episdios, era Kenny quem chegava primeiro ao quarto do mais novo.
   - Jessie, acho que minha gua ser melhor para Santo. Posso faz-la deitar-se para que ele monte. Foi o prprio Santo quem me ensinou a domin-la.
   - Espero que possa mesmo ajud-lo de alguma forma, porque Santo sente dores horrveis. S no deixe ele perceber que contei a voc.
   - Est bem. Podemos ir? Tenho um mau pressentimento neste lugar.
   A honestidade de Kenny a encorajou a abrir o corao. 
   - Eu tambm, filho. Eu tambm.
   
   A menos de dois quilmetros, Conner tambm era assaltado por maus pressentimentos. Encaixou a mo entre o ventre e a rocha para cobrir a fivela do cinturo, enquanto 
a outra segurava o cano da pistola e a mantinha levantada, impedindo que o contato entre o metal e a pedra produzisse rudos que chamariam a ateno dos homens l 
embaixo.
   J havia desistido da idia de disparar para chamar a ateno dos sentinelas. Tiros atrairiam os guardas e os pees, mas tambm espantariam os invasores, que 
iriam se esconder entre as centenas de rochas e desfiladeiros que marcavam a regio, escapando antes que algum pudesse chegar para ajud-lo.
   Estava sozinho.
   Descendo cauteloso pelo caminho conhecido, esperou que o cavalo no houvesse reagido  presena de outros animais na rea. Precisava de um plano de ao. Alm 
de seguir os sujeitos, no sabia mais o que fazer.
   Ao aproximar-se do cavalo, pousou a mo sobre o focinho frio para garantir o silncio. Traando um mapa mental, pensou num caminho que poderia seguir para ultrapassar 
o bando de invasores e surpreend-los mais  frente. S precisava ser rpido.
   Uma inclinao suave oferecia uma rota de escape  esquerda e, temendo ser alvo de algum disparo, Conner desceu devagar. Uma vez l embaixo, montou e colou o 
corpo ao do animal, reduzindo ao mximo a rea de exposio. Num galope alucinado, tomou a direo de Clove Bush, uma garganta onde cresciam frutas rasteiras cujo 
odor perfumava o ar. De l chegaria a uma plancie acima das rochas onde ficaria esperando pelos bandidos.
   Frutas? Conner balanou a cabea, tentando livrar-se da sensao de que estava esquecendo algo importante. No entendia por que pensava em frutas num momento 
to importante. Tinha de planejar uma armadilha, mas a mente recusava-se a cooperar.
   Com habilidade, conduziu o cavalo at a parte mais funda da garganta. Nos ltimos anos, haviam vasculhado a rea em busca de possveis esconderijos, mas as buscas 
sempre foram inteis, especialmente depois de tempestades violentas que faziam desmoronar as rochas e construam barreiras de pedras que dividiam a garganta ao meio.
   Conner diminuiu o ritmo, deixando o animal escolher o melhor caminho pelo solo acidentado. O murmrio de vozes acima dele o fez mudar de idia. gil, soltou os 
ps dos estribos e escorregou pelo corpo do animal, levando consigo as rdeas. Sem fazer barulho, foi refugiar-se junto  parede rochosa.
   Estava encurralado. A nica possibilidade de fuga era para cima.
   Conner abandonou as rdeas e agarrou o rifle, inclinando-se para a frente. Tenso, esperou alguns instantes at que o primeiro cavaleiro surgiu numa abertura entre 
as pedras, surpreendendo-o.
   - Kenny? O que est fazendo aqui?
   - Santo est ferido - o menino respondeu, aliviado por encontrar Conner. - Jessie e eu conseguimos coloc-lo sobre a gua, mas as dores so fortes.
   - Ei, eu tambm ajudei - Marty protestou, acelerando o trote do pnei para alcanar o companheiro de aventuras.
   Conner olhou para trs, para a abertura da garganta, e ordenou:
   - Voltem!
   - Voltar? No podemos. Santo...
   - No discuta comigo, Kenny. Vamos ter problemas srios por aqui.
   - So os ladres?
   - Como pode saber sobre...? Ah, no importa! Faa o que estou dizendo, est bem?
   Conner j havia comeado a virar-se quando ouviu a voz de Jessie.
   - Conner? O que houve? Aconteceu alguma coisa em casa? - No. Eu s estava...
   - No sabe como  bom v-lo - ela o interrompeu. - Santo foi...
   - Ferido. Sim, Kenny j me deu todas as notcias. Agora virem os cavalos e voltem pelo mesmo caminho, por favor. Jessie, encontre um esconderijo para voc e os 
garotos.
   - Acho que no entendeu. Santo...
   - Jessie! No sou Logan, ouviu bem? Faa o que estou mandando!
   Por alguns momentos ela se mostrou chocada. Conner nunca havia erguido a voz nem dado ordens como um dspota descontrolado, nem a tratara com aquele brilho furioso 
nos olhos.
   - Faa o que ele disse - Santo aconselhou-a antes de virar-se para Conner. - Encontramos o lugar onde os bandidos acamparam. Deviam ser quatro ou seis homens, 
e passaram alguns dias no rancho. - E parou, amaldioando a dor que lhe roubava o ar.
   - Estamos perdendo tempo. Quero preparar uma cilada para eles.
   - Quer dizer que esto vindo para c? - Jessie perguntou apavorada, olhando para os meninos como se quisesse proteg-los com a prpria vida. Sentia-se culpada. 
Se houvesse escutado os conselhos de Santo, as crianas estariam seguras bem longe dali.
   - No sei quantos so - Conner contou. - Eles esto tocando nosso gado. Envolveram os cascos dos cavalos com panos, por isso no pudemos seguir as pistas. Quero 
que fiquem fora do caminho, Jessie. Voc e os meninos. Logan me mataria se... - e parou ao ver Santo oscilar sobre a sela. - Amigo, o ferimento  to srio assim?
   - Meu tornozelo est fraturado. No serei de nenhuma utilidade para...
   - No se preocupe, Santo - Kenny interrompeu. - Conner pode contar com minha ajuda. Voc mesmo disse que sou um excelente atirador, lembra-se?
   - Tambm quero ajudar - Marty avisou.
   - Sim, ns dois podemos ajud-lo a pegar os bandidos.
   - Ento, tratem de me obedecer. Voltem para o outro lado da garganta. - Conner aproximou-se de Jessie e baixou o tom de voz. - Conto com voc para mant-los fora 
do caminho. No sei o que vou enfrentar. Se os riscos forem muitos, prefiro deix-los escapar com o gado a arriscar a vida de algum.
   - Temos de peg-los! Logan...
   - Logan no est aqui. - Encerrando a discusso com autoridade, ele conduziu o grupo de volta  entrada da garganta e encontrou a abertura que levava  plataforma 
acima das paredes rochosas.
   Kenny foi o primeiro a subir. Depois foram Jessie e Marty. Todos receberam as mesmas instrues: deviam desmontar e usar os animais como proteo. E manter o 
mais absoluto silncio.
   Conner examinou a abertura estreita. Santo teria dificuldade para escal-la. A trilha era sinuosa, e se uma pedra tocasse seu tornozelo ele poderia gritar de 
dor.
   Como se ouvisse os pensamentos de Conner, Santo avisou:
   - Vou com eles. Ficar seria expor vocs todos a riscos desnecessrios.
   Conner no podia discutir. No havia mais tempo. Ouviu o mugido de uma vaca e, entregando as rdeas nas mos do amigo, deu um tapa no flanco do animal e os viu 
desaparecer. Contava com um rifle, um revlver e o fator surpresa. Teria de ser suficiente.
   
   
   CAPTULO VII
   
   Belinda quase pulou da cadeira que ocupava no ptio quando o som de uma comoo penetrou a incmoda tenso entre ela e Charles. Qualquer que fosse a causa da 
interrupo, certamente a recebia com alvio.
   Charles ficara com o brinco, afirmando que mandaria reparar o fecho, mas no a deixara mais longe do alcance de seus olhos desde ento. Para amenizar as suspeitas, 
Belinda oferecera uma explicao sobre os motivos que a levaram ao oeste, excluindo da histria as ameaas do primo Albert. No gostara do interesse vido do rancheiro 
quando falara sobre o envolvimento dos Kincaid.
   Charles levantou-se.
   - No imagino quem pode estar causando...
   - No pode entrar? - A sra. Dobbs gritou, usando o corpo para bloquear a passagem para o ptio.
   - Riverton!
   Belinda no precisou olhar para saber que o dono da voz imperiosa era Kincaid.
   - Sra. Dobbs - Charles instruiu -, por favor, acompanhe o xerife at aqui.
   Se no estivesse atenta a cada movimento do anfitrio, Belinda no teria visto o sbito enrijecimento dos msculos faciais. Era evidente que a visita inesperada 
no o deixava satisfeito. Quando notou que dois homens amarrados por cordas e mantidos sob a mira de um rifle completavam o grupo, ela entendeu o porqu.
   - Seus homens, Riverton - Conner anunciou, empurrando-os para a frente com o cano da arma. 
   - Desta vez no h duvida. Eu os peguei roubando o gado do Rocking K.
   - Mentira! - Ned Askins abriu um olho inchado para fitar o cmplice, Packy Hanchett. - Conte ao chefe o que aconteceu.
   - Ele nos pegou numa armadilha. No havia nenhum gado.
   - Dois contra um, xerife. Creio que meus advogados conseguiro encerrar o caso mais uma vez antes do julgamento.
   Conner adoraria esmurrar o rosto de Riverton at apagar aquele sorriso arrogante. Olhou para Belinda. Os raios do sol arrancavam reflexos luminosos dos cabelos 
louros e bem penteados. Por um momento os olhos encontraram-se, e foi surpreendente descobrir que ela no o fitava com desgosto. Sabia que sua aparncia era ainda 
pior que a dos prisioneiros.
   - Por que no nos poupa tempo e trabalho, Kincaid, e os deixa em paz? Voc no tem...
   - No desta vez, Riverton. Agora tenho testemunhas. Seus homens foram longe demais, ouviu bem? Puseram em risco as vidas de minha cunhada e de dois garotos.
   - Meu Deus!
   - Chocante, no? - Conner perguntou a Belinda. - Eu avisei que estava lidando com gente perigosa, docinho.
   - Saia de minha casa! No vou tolerar suas mentiras e seus insultos, Kincaid! Desta vez foi voc quem passou dos limites. Vou arrancar essa estrela do seu peito!
   -  a segunda pessoa a fazer a mesma ameaa desde que o sol nasceu, e ainda conservo a estrela em meu peito. Procure seus advogados de fala mansa e bolsos recheados. 
Estes dois vo para a cadeia.
   - Charles. - Belinda pousou a mo em seu brao, sentindo a tenso atingir patamares alarmantes. - O que ele diz  verdade? No devia interrogar esses homens sobre...?
   - No se meta! - ele gritou, interrompendo o contato com um movimento brusco.
   - Est falando com uma dama, Riverton!
   - No preciso de gente como voc para me ensinar boas maneiras. E agora saia da minha casa, Kincaid. Irei encontr-lo na cidade.
   - Caso esteja pensando em armar uma cilada, no perca seu tempo. J espalhei a notcia de que vinha para c trazendo dois de seus homens. Na verdade, conto com 
uma escolta composta por pees do Rocking K. Neste momento eles esperam por mim no porto.
   Mais uma vez, Belinda acompanhou com ateno a reao de Charles. O sangue tornava seu rosto vermelho. A viso era to assustadora, que nem a sra. Dobbs ousava 
aproximar-se. As mos dele estavam cerradas ao lado do corpo, e ento, to subitamente quanto surgira, a raiva desapareceu. Sem dizer uma nica palavra, ele virou-se 
e seguiu na direo de seus aposentos, seguido de perto pela fiel governanta.
   - Tambm vai fugir?
   - No, eu... - Belinda perdeu a fala ao olhar para o xerife. Sombrio, perigoso e ameaador eram as palavras que passavam por sua mente para descrev-lo. Por que 
se sentia to atrada por ele? Viu o hematoma que escurecia parte do rosto e o local onde o sangue secara em seu queixo. 
   - Tambm est ferido.
   Conner brindou-a com um olhar gelado.
   - Para sua informao, um dos meninos que os homens de Riverton puseram em perigo pode ser seu sobrinho.
   - Eu percebi imediatamente. E...
   - Tome cuidado com Riverton, srta. Jarvis.
   Antes que tivesse uma chance de responder, ele j havia desaparecido com os dois prisioneiros.
   Belinda correu por entre as mesas e cadeiras.
   - Por favor, espere. Espere!
   Ele parou no corredor fresco e escuro.
   - A mulher e os garotos... Esto bem?
   Conner examinou o rosto delicado em busca de sinais que o ajudassem a desvendar os mistrios daquela mulher, mas s viu sinceridade nos grandes olhos castanhos.
   - Sim, eles esto bem. Deus zela pelos tolos e pelas crianas.
   - No sou tola ou criana, xerife. Francamente, sou capaz de cuidar de mim mesma. - De repente a voz tornou-se mais suave. - Sei que  um Kincaid, mas nunca me 
disse seu primeiro nome. - Belinda controlou o desejo de levar a mo ao peito para sentir as batidas aceleradas do corao. Sentia-se sem flego, como se houvesse 
corrido uma longa distncia. E desta vez no podia culpar o calor, porque o sol j comeara a descida rumo ao horizonte.
   - Meu nome  Conner.
   - Conner.
   Havia algo na voz repetindo seu nome que o fez arrepiar-se. Ela o levava a pensar em convites, como o que lera em seus olhos naquela manh, antes de beij-la. 
No gostava do calor que o invadia, nem das sensaes que ela provocava. Sentia-se... inquieto, ansioso.
   - Vai me deixar ver o garoto? - Belinda perguntou, apesar de saber que ele recusaria seu pedido. Pensou no que ouvira, no mapa que Charles possua e em como podia 
us-lo. Em seguida, pensou na acusao que ele lanara sobre os dois homens.
   - Ainda no tive uma chance de enviar os telegramas - Conner respondeu pesaroso.
   - Mas no vai me impedir, no ? 
   - Impedi-la... de que?
   - De ver os garotos. Se eu for ao rancho Kincaid, no me proibir de v-los, certo?
   - No cabe a mim decidir. Meus irmos, Logan e Ty, esto no comando do rancho. Seria melhor se esperasse at que eu pudesse lev-la.
   - Quando? Amanh? Sei que Charles no se negaria a me emprestar um cavalo.
   No queria ser forado a assumir compromissos, mas, olhando para a expresso ansiosa, descobriu-se relutante em negar o pedido. E em privar-se da companhia dessa 
mulher, uma voz interna debochou.
   - Charles sabe sobre seu sobrinho?
   - Sim, disse a ele que o menino  o motivo de minha presena em Sweetwater.
   Conner no gostava da tenso que oprimia seu peito, mas ignorou-a, dizendo a si mesmo que a reao era conseqncia dos momentos de medo e perigo que enfrentara 
ao desmascarar os homens de Riverton. Se Kenny no houvesse tido a presena de esprito de atirar para distra-los, a essa altura estaria morto. S lamentava no 
ter podido impedir a fuga de um dos bandidos.
   - Kincaid?
   Conner virou-se depressa, colocando-se entre Belinda e o homem que atravessava o corredor em sua direo. Joe Dacus era o brao direito de Riverton, um sujeito 
duro e destemido que andara espalhando pela cidade sua inteno de destruir o novo xerife.
   Arrogante, Joe parou e encaixou os polegares no cinturo com a cartucheira.
   - Soube que est afirmando ter pego meus rapazes com a mo na massa.
   - Ele est mentindo - Ned protestou novamente.
   - Cale a boca, Askins. Ainda no falei com voc.
   - No tenho tempo para perder com sujeitos grosseiros como voc, Dacus. Preciso levar os prisioneiros para a cadeia - Conner respondeu, empurrando os dois para 
a frente. - Comecem a andar, vermes.
   - Espere um minuto, Kincaid. Ainda no terminei de falar.
   - Talvez eu deva ir buscar Charles - Belinda murmurou de onde estava, atrs de Conner.
   - No se preocupe. Dacus vai sair da minha frente, ou tambm o levarei preso por obstruir a justia. S temos uma cela, Joe, e ela no tem espao para trs homens. 
Temo pelo conforto de vocs...
   O capataz afastou-se com ar contrariado.
   - Este assunto ainda no acabou, Kincaid - disse.
   - Pode apostar que no. Na verdade, estamos apenas comeando. - Sem se virar, ele despediu-se. - Foi um prazer rev-la, srta. Jarvis. Lembre-se do que lhe disse.
   Um empurro fez Askins e Hanchett andarem pelo corredor. Conner os seguiu com o rifle a postos. Podia sentir os olhos de Dacus em suas costas, mas no o deixaria 
intimid-lo. Ao menor sinal de medo, Joe pularia sobre ele como um lobo faminto. No descuidaria da prpria segurana enquanto no ultrapassasse os limites da propriedade 
de Riverton.
   - O filho da...
   - Dacus! - Charles o interrompeu ao entrar no corredor pela porta do ptio. - H uma dama entre ns. Modere sua linguagem, por favor. Alm do mais, Macria no 
 problema seu. Preocupe-se apenas com o filho mais velho daquela adorvel mulher. Quero que... - e parou, lembrando-se da presena de Belinda. - Minha querida, 
espero que me desculpe por esses momentos de tenso. Com licena, sim? Preciso discutir alguns problemas com meu capataz.
   -  claro.
   Belinda os deixou com um forte sentimento de alvio. O episdio distrara Charles das suspeitas a seu respeito, um ponto a seu favor, mas o mapa e as acusaes 
que Conner fizera a intrigavam. Gostaria de saber o que Charles estava tramando.
   Quando alcanou a privacidade de seus aposentos, estava tentando compreender por que se importava tanto com assuntos que no eram de sua conta. O fato de Conner 
provocar aquela estranha e potente excitao no podia interferir no que tinha a fazer.
   Acendendo as lamparinas sobre a cmoda, examinou-se no espelho. Estava mentindo. Por mais absurdo que fosse, importava-se com o que acontecia a Conner Kincaid.
   
   No momento em que Joe entrou no escritrio e fechou a porta, Charles comeou a disparar ordens furiosas.
   - No quero que Hanchett e Askins falem demais. Livre-se deles imediatamente. Se Kincaid convenc-los a falar...
   - Chefe, seja claro. Quer os rapazes livres, ou mortos?
   Charles abriu a caixa de prata sobre sua mesa e extraiu um charuto de dentro dela. Devagar, removeu o rtulo cubano e cortou uma das pontas antes de acend-lo, 
os olhos acompanhando a fumaa que impregnava a sala.
   - Mortos, Joe. Eu os quero mortos. Se Kincaid acompanh-los na viagem sem volta, serei o primeiro a fazer uma visita de condolncias  famlia. Acha que pode 
desempenhar a tarefa? Lembro-me de termos falado sobre um bnus... Vamos dobrar o valor da recompensa.
   - Dois mil dlares. Uma quantia e tanto, alm do prazer que terei ao matar aquele bastardo.
   - O dinheiro ser seu. Os mtodos e o momento ficam por sua conta.
   - Considere o servio feito.
   Joe j estava saindo quando Charles o chamou.
   - Mais uma coisa, Dacus. Descubra se um daqueles rfos que vivem no Rocking K  Marston Jarvis. Preciso da informao.
   - Quer que eu o mate, tambm?
   - No. S quero saber se ele est l, Tenho outros planos para o garoto. - E para a tia dele, Charles acrescentou mentalmente, amaldioando Conner Kincaid por 
ter arruinado o que havia planejado para Belinda.
   O brinco ainda estava em seu bolso. A lembrana do rosto culpado quando o descobrira o fez sentar-se atrs da mesa. A gaveta central estava trancada. Era tolice 
pensar que ela havia escutado alguma coisa.
   E se escutara demais... bem, poderia acabar envolvida num acidente. Acontecia com freqncia.
   Como uma serpente, a idia foi tomando forma em sua mente. Sabia que o menino era mais importante do que ela havia revelado. Se alguma coisa acontecesse a Belinda, 
o tio dela seria o herdeiro direto de todos os bens da famlia Jarvis. E Phillip era um homem fcil de manipular.
   Charles saiu do escritrio apressado. Tinha de deter Joe. No queria Kincaid morto. Ainda no.
   
   
   
   CAPTULO VIII
   
   O amanhecer ainda era uma promessa quando Conner acordou de repente. Tenso, ficou parado sobre a cama estreita da cela, todos os sentidos alertando-o para o perigo.
   No era mais do que havia esperado.
   Escoltado por quatro empregados do Rocking K, entrara na cidade pouco depois do anoitecer levando os dois prisioneiros, mas no ltimo instante decidira trocar 
a cela pelo edifcio de Gladden. L, num dos depsitos vazios, trancara os bandidos. Riverton faria, qualquer coisa para impedi-los de falar. Ou os libertaria, ou 
os mataria.
   Havia cochilado por volta da meia-noite e sonhara com uma mulher de grandes olhos castanhos. Agora estava acordado.
   A cama dura e incmoda ficava bem embaixo da janela protegida por grades. Conner no se dera ao trabalho de fechar as venezianas porque, alta, a abertura no 
permitia que ningum visse o que se passava dentro da cela, a menos que a pessoa subisse em alguma coisa.
   Ou estivesse montada num cavalo.
   Ouviu o estalar do couro, um som que anunciava movimentos sutis de um corpo sobre uma sela. Alm das batidas do prprio corao, nenhum outro rudo chegava aos 
seus ouvidos. Mas sentia a presena de algum. Podia senti-la to nitidamente que tinha de usar toda a fora de vontade para conter o mpeto de levantar-se e interpelar 
o indivduo.
   Um baque abafado o fez imaginar que algum havia derrubado um dos barris vazios onde armazenava a gua da chuva. No ouvia nenhum rudo que pudesse sugerir que 
o barril estivesse sendo arrastado para perto da janela. Se algum decidira us-lo como escada, era forte o bastante para carreg-lo.
   Conner mantinha o rifle sobre o abdome, o dedo em cima do gatilho.
   Suando, esperou e tentou manter a respirao constante e suave, como se estivesse dormindo.
   No queria que nada alarmasse o invasor. O assassino.
   A escurido e o ar quente o envolviam como um cobertor, causando uma estranha sensao de opresso. Conner mantinha os olhos no nico ponto mais claro em toda 
a cela: o tecido impermevel que servia de cortina.
   O pano permanecia imvel.
   Nenhum sussurro, nada para alertar os supostos prisioneiros de que o resgate chegara.
   Atento, frustrado por no poder enxergar o que estava acontecendo, evitou se mover.
   Que barulho havia sido aquele? Um chiado? O clinque das esporas contra a madeira ecoou como um sino ao amanhecer, seguindo por um sibilar.
   Que diabos o bastardo estava fazendo?
   Um rudo irreconhecvel. Um palavro murmurado.
   Conner encolheu-se na beirada da cama.
   No podia desviar os olhos da janela.
   A ponta de uma faca brilhou ao luar, empurrando a cortina para longe das barras. Os ouvidos ecoavam com o pulsar do sangue em suas veias, quente, mas incapaz 
de aquecer o corpo gelado. De repente suava frio, e arrepios incmodos percorriam sua espinha.
   Uma forma arredondada estava sendo forada por entre as grades.
   O instinto obrigou-o a rolar para fora da cama. Conner atingiu o cho encolhido e, apoiado sobre os joelhos, foi encolher-se no canto mais afastado da janela.
   Silhuetas escuras e esguias caam da janela.
   Ouvia os chocalhos. Mal teve tempo de registrar a gargalhada rouca de um homem.
   O tempo parou. Estava preso num pesadelo. Novamente um menino. Recusava-se a ouvir o aviso de Santo. Enfiava a mo na fresta entre duas pedras. A picada ardida. 
A dor aguda, seguida por uma sensao de ardor que partia da base do polegar e espalhava-se por todo o brao.
   Lembrava-se da dor provocada pela lmina da faca de Santo. Dos dentes afiados enterrados em sua pele enquanto ele sugava e cuspia o veneno. Santo havia sido rpido, 
mas a febre o mantivera na cama por muitos dias.
   Odiava cobras. E morria de medo delas.
   Isso foi h muito tempo. Voc no  mais um garoto. Agora  um homem adulto.
   Tem um rifle. Atire nelas. Atire antes que...
   Conner permaneceu encolhido no canto, pressionado contra a parede, gelado demais para mover-se o som seco e irritante foi crescendo em volume at se tornar a 
nica coisa que ouvia. Queria cobrir os ouvidos, deter o som, mas no podia mover-se.
    assim que vai acabar? Riverton sair vitorioso? No!
   Ento mexa-se!
   No conseguia ver onde estavam as serpentes. O medo era como uma segunda pele em seu corpo. Um recanto equilibrado da mente o impelia a mover-se, a afastar-se 
do perigo.
   Pensou ter visto as cobras. Contorcendo-se e rastejando umas sobre as outras. Encolhendo-se em anis apertados e balanando os chocalhos antes do bote. Lnguas 
bifurcadas testando o ar, sentindo o calor do sangue humano, buscando a presa. Metros de pele escamosa e brilhante num bal mortal que o mantinha paralisado.
   Procurando a vtima. E encontrando-o.
   Quantas eram?
   Deus! Quantas serpentes haviam sido jogadas na cela?
   O suor encharcava suas roupas. O corpo era uma massa trmula e descontrolada negando-se a obedecer as ordens do crebro.
   O dedo acariciava o gatilho do rifle. Aos poucos, a proteo slida oferecida pela arma penetrou a muralha construda pelo terror. Conseguiu levantar o rifle. 
Forou a mo esquerda contra a parede. Dedos abertos, palmas contra a madeira, esse era seu nico guia na viagem at a porta.
   At a segurana. At a liberdade.
   Tinha de lembrar que o rifle estava carregado. No se encontrava indefeso. No como Hanchett e Askins teriam estado.
   A raiva comeou a crescer dentro dele, forte o bastante para superar o pavor.
   Se o pnico o dominasse, perderia a vida.
   Riverton era um animal. S uma besta teria ordenado a morte de dois homens de maneira to cruel.
   Se um deles estivesse deitado na cama no momento em que as serpentes foram jogadas pela janela, as picadas repetidas teriam provocado sua morte antes que algum 
pudesse ouvir o primeiro grito.
   Conner no deixaria Riverton vencer.
   D um passo.
   O primeiro passo rumo a liberdade seria o mais difcil.
   Caminhe!
   Os saltos das botas pareciam colados ao piso de tbuas rsticas.
   Conner no conseguia raciocinar.
   Queria luz. Precisava enxergar. Sentia falta de ar.
   Havia uma caixa de fsforos em seu bolso. Palitos longos que produziriam chama aps chama de pequenos pontos de luz. No ousava toc-la. A demora significaria 
a morte.
   A parede da cela parecia esticar-se enquanto deixava o canto onde estivera encolhido. No alcanaria a porta antes de ser atacado.
   O medo havia arrancado at a ltima gota de umidade de sua boca. No conseguia gritar. No podia engolir.
   O suor ardia em seus olhos. No afastaria a mo da parede para limp-los.
   Onde esto elas?
   A questo explodia em sua mente.
   As serpentes pareciam mais prximas. Perto dele. To perto, que o som enchia seus ouvidos, sua mente.
   Conner acionou o gatilho do rifle de repetio, atirando s cegas. O estrondo dos tiros o ensurdeceu e, livre do efeito hipntico do rudo das serpentes, conseguiu 
correr para fora da cela.
   Tinha de encontrar a lamparina. Precisava de luz para enxergar. O cano do rifle chocou-se contra a madeira. Um rudo estridente indicou que a cadeia havia sido 
jogada no cho.
   A respirao arfante alimentava os pulmes famintos por ar.
   Com uma das mos estendidas  frente do corpo, Conner cambaleou at a lateral do escritrio. O quadril chocou-se contra o armrio. Deus guiava seus passos, porque 
havia perdido o senso de direo.
   Tateando a superfcie do armrio, tentou encontrar o lampio. Segundos mais tarde removia o globo de vidro, que tambm foi parar no cho e se quebrou.
   Caixa de fsforos na mo, arrancou a tampa com os dentes. O primeiro palito se partiu quando tentou risc-lo. O pulsar do sangue em suas veias era como um terremoto. 
Mas ouvira a serpente...
   O som partira de algum ponto s suas costas.
   O rifle caiu. A pistola encheu sua mo com o cumprimento de um velho e querido amigo. Desistiu de acender a lamparina. Algum gritou seu nome.
   Conner virou-se. A porta foi aberta repentinamente e a luz inundou a sala, proveniente das lamparinas que brilhavam nas mos dos homens que entravam assustados.
   Conner no tinha olhos para ningum. S conseguia ver o anel mortal pronto para atac-lo. Disparou. Outras balas cravaram-se no cho, no corpo da serpente.
   Rob Long, o primeiro a entrar e a disparar, estava ao lado de Conner.
   - Que diabos est acontecendo, aqui?
   Conner apoiou-se na parede. Fraco, apontou com o revlver para a cela.
   - L dentro.
   Doug Shelden chutou a cobra morta para o lado. 
   - Quase quatro metros - comentou admirado. - Como ela entrou aqui?
   - Pelo amor de Deus! - Tom Sweet gritou. - H mais quatro aqui!
   Rob teve a presena de esprito de levar Conner para fora. Mark Dryer, o editor do jornal, providenciou uma xcara de caf frio.
   - Foi tudo que pude encontrar. Aposto que uma dose de usque seria melhor.
   - No. - A resposta rouca e sussurrada provocou uma troca de olhares entre Mark e Rob. Conner segurou a xcara com as duas mos, bebendo o lquido amargo e frio. 
No acreditava que algum dia pudesse livrar-se da sensao de ter a boca completamente seca.
   Carl Gladden subiu a rua correndo.
   - Onde est o xerife?
   - Aqui, Carl - Rob respondeu.
   - Ouvi tiros e corri ao depsito. Os prisioneiros ainda esto l, mas...
   - Algum jogou um saco cheio de cobras na cela da cadeira.
   Todos se viraram quando Doug Shelden aproximou-se.
   - Meus meninos esto limpando toda aquela sujeira. Conner as matou sem piedade. Explodiu aquelas...
   - Conner? - Mark acenou diante dos olhos do xerife. - Voc foi picado? Responda, homem!
   - No.
   Outro tiro ecoou no interior da cadeia. Todos se sobressaltaram.
   - Steven! - Doug gritou para o filho mais velho. - O que foi isso?
   Com a camisa do uniforme aberta sobre o peito, o rapaz surgiu na porta.
   - Encontrei outra cobra em baixo da cama, encolhida num canto. Viu o tamanho delas? Duas tinham quase quatro metros! Quem quer que as tenha jogado l dentro, 
no queria correr riscos. Ningum teria sobrevivido.
   - Bom trabalho, Conner - Walt Waterman deu uma palmada em suas costas. -  preciso ter muita coragem para atirar num ninho de serpentes. No conheo muitos homens 
com a mesma bravura. No me envergonho de confessar que teria corrido, em vez de enfrent-las. Deus tenha piedade, mas...
   - Walter, cale a boca - Rob o interrompeu irritado. - Conner no precisa do seu discurso para saber que  um homem corajoso. No teramos eleito um xerife covarde. 
- Vendo a irm Deana no meio do grupo de mulheres e crianas que deixavam suas casas, acenou e elevou o tom de voz. - Deana, traga um cobertor para o xerife e caf 
quente.
   - Quem estava trancafiado, Conner? - Walter quis saber.
   - Hanchett e Askins, do Circle R - Carl respondeu antes que Conner pudesse levantar a cabea. - Foram pegos roubando gado dentro dos limites do rancho dos Kincaid. 
Algum tentou silenci-los, e no  preciso dispor de muita inteligncia para deduzir quem est por trs do atentado. Os dois no teriam tido nenhuma chance de sobreviver.
   - Est bem, agora acabou. Conner no foi picado. Os prisioneiros esto seguros no depsito e eu vou servir caf para todo mundo no bar. - Rob apanhou o cobertor 
que a irm trouxera e jogou-o sobre os ombros de Conner. Sem rodeios, ajudou-o a levantar-se. Mark colocou-se do outro lado e os dois o ampararam at o bar.
   - Choque - Mark sussurrou. - Vi vrios casos durante a guerra. Vamos lev-lo para cima, Rob. Diga aos outros que ele vai lavar as mos, ou qualquer outra tolice.
   Enquanto Mark cuidava de Conner, Rob impedia que os outros os seguissem pela escada.
   - Esperem aqui. Mark vai ver se ele no foi picado. Walt, acalme os rapazes, est bem?
   - Conner  corajoso, Rob. Muito corajoso.
   No alto da escada, Conner ouviu o comentrio. No sentia-se o mais corajoso dos homens. A promessa de Mark de que em breve teria privacidade para desmoronar, 
se quisesse, parecia tima. S no sabia o que queria fazer primeiro.
   Assim que Mark fechou a porta do quarto, Conner levantou a cabea e notou a completa escurido que dominava o ambiente.
   - Acenda a luz.
   Apoiado contra o batente, esperou que o brilho da lamparina iluminasse o dormitrio.
   - Mark, certifique-se de que dois homens ficaro guardando o depsito. Homens armados. O autor do atentado deve estar por perto, observando. No enfrentei aquele 
inferno para perder os dois prisioneiros para uma bala.
   - No quero deix-lo sozinho.
   - Faa o que estou dizendo!
   Conner jogou o cobertor longe. Aproximando-se da janela, colocou-se ao lado dela e, com um dedo, afastou as cortinas.
   Podia ver alguns homens na rua. As lanternas que seguravam os transformavam em alvos. A luz fraca no alcanava as sombras dos edifcios e alamedas laterais.
   Mas Conner sentia algum observando. Esperando.
   Riverton no suportaria o fracasso. Logo saberia que o matador que havia contratado quase acabara com Conner.
   Sua mente sufocou a lembrana do que acabara de viver. No podia mais perder tempo com o pavor.
   Um rudo o fez virar-se com a arma na mo.
   - Meu Deus! Conner, sou eu, Deana! No ouviu as batidas na porta? Trouxe gua quente - e deixou a jarra sobre a cmoda antes de correr de volta  porta. - Vou 
dizer a Rob para vir at aqui.
   - Deana, espere, eu...
   Tarde demais. Ela j havia sado e fechado a porta, deixando-o sozinho. E quando pensava bem, sempre havia sido exatamente assim. Sozinho.
   Ficou ali parado, um homem solitrio, vendo o cu escuro abrir espao para o amanhecer.
   
   
   CAPTULO IX
   
   Belinda chegou  cidade naquela tarde. Conner a viu entrar cavalgando, sentada de lado sobre a sela da gua castanha, a postura ereta sugerindo orgulho e altivez. 
Admirava a elegncia com que ela montava, os ombros erguidos, a cabea firme e os olhos fixos  frente, as mos protegidas por luvas pousadas levemente sobre o pescoo 
do animal, segurando as rdeas. Ela no usava um chicote. Sinal de que sentia-se capaz de comandar sem valer-se de meios violentos.
   Estava vestida de azul. Um leno da mesma cor envolvia a copa do chapu de abas largas. Nem uma flor  vista. O traje era de um tom mais escuro, como o do cu 
ao entardecer, nem um trao de renda ou babado aliviava o corte reto da saia longa e da blusa discreta. Entretanto, era possvel pressentir a essncia delicada e 
feminina daquela mulher.
   Uma dama. E mesmo assim, independente e segura.
   Ela mantinha a gua no meio da rua. Conner a observou e reconheceu o jovem empregado do Circle R que a acompanhava, preservando a discreta distncia de cerca 
de oito metros. Rich Dillion era pouco mais que um garoto, mas exibia confiana e astcia atpicas para sua idade. Ele o fazia pensar em seu irmo, Ty.
   Apesar de vrias pessoas terem passado a noite limpando a cela e o escritrio no interior da cadeia, Conner no conseguira entrar. Recostado em sua cadeira, as 
mos paradas sobre o abdome e as pernas estendidas para a frente, ele havia jogado o chapu sobre os olhos a fim de proteger-se contra o sol.
   Belinda parou na calada oposta, mas no fez meno de desmontar.
   Conner notou que Dillion descia do cavalo na frente do armazm, amarrava as rdeas em torno do poste e apoiava-se na balaustrada com aparente descaso, os olhos 
atentos a qualquer movimento na rua.
   Uma visita de negcios, sem dvida.
   - Boa tarde, xerife.
   - Boa tarde, madame.
   O cumprimento exibia todo o entusiasmo de um grupo de homens interrompido por uma mulher durante os charutos e o conhaque depois do jantar. Belinda sabia, porque 
j interrompera vrias dessas reunies.
   - Tive o prazer de conhecer sua me ontem  noite.
   O comentrio atraiu sua ateno, mas Conner procurou disfarar o interesse. Enquanto no soubesse onde e como ela conhecera sua me, se limitaria a ouvi-la.
   -  mesmo? - ofereceu com falso descaso.
   - Sim, ela tomou o caf da manh comigo e com Charles.
   - Deve ter sido muito agradvel. Voc, Riverton e minha me.
   - Ela  uma mulher adorvel, e parece muito jovem.
   - Jovem demais para ter um bastardo como eu como filho.
   - Foi voc quem disse. No eu.
   - Irnica, no? - Conner inclinou a cabea para observ-la por baixo do chapu. - Docinho, voc tem uma pssima memria. J esqueceu que me chamou de bastardo 
ontem? Duas vezes, se no estou enganado.
   Teria sido no dia anterior? Depois dos eventos da ltima noite, tinha a impresso de ter vivido um sculo,
   - Est interessado em saber sobre o que conversamos? 
   - Voc vai acabar me contando quando julgar conveniente, docinho.
   - J pedi para no me chamar de docinho, sr. Kincaid. -  verdade.
   No era o pedido de desculpas que gostaria de ouvir, mas sabia que no arrancaria mais nada dele. Os olhos recaram sobre as pernas longas e fortes sob a cala 
jeans e, temendo que ele a surpreendesse apreciando sua excelente forma fsica, abaixou a cabea.
   - Suponho que tenha dito  minha me o que veio fazer aqui.
   - Charles contou.
   - Ah, sim, Charles.
   O nome passou por seus lbios como o sibilar de uma serpente, atraindo o olhar atento de Belinda. Agora que pensava a respeito do assunto, todas as palavras de 
Conner haviam sido pronunciadas da mesma maneira.
   - Esteve bebendo, xerife?
   -  claro que no!
   - Um simples no teria sido suficiente. S perguntei porque parece estranho, indisposto... azedo. No me convidou para sentar, nem se mostrou interessado em me 
ouvir. E depois de ter conhecido sua me, estou certa de que ela o educou de acordo com todas as regras de boas maneiras.
   - Salmoura, voc parece ser uma mulher independente e determinada que descer do cavalo quando julgar conveniente.
   - No posso descer daqui sem ajuda, seu idiota. 
   - Realmente?
   - Realmente!
   Alguns momentos se passaram e, furiosa, Belinda constatou que ele permanecia sentado, como se no tivesse a menor inteno de ajud-la.
   Olhando em volta, no viu nenhum lugar onde pudesse apoiar os ps para desmontar. A nica possibilidade era voltar ao estbulo, e sabia que Conner desapareceria, 
se tivesse uma oportunidade. Os olhos encontraram o rapaz que Charles insistira em mandar como seu acompanhante. Acompanhante? Ele estava ali para espion-la. No 
queria o sujeito perto dela. E, principalmente, no queria que ele descobrisse e contasse a Charles o verdadeiro motivo de sua viagem  cidade.
   Uma conversa com o xerife no seria motivo de alarme para ningum. Mas estava sem pacincia para jogos naquela tarde, e tinha pressa.
   - Conner.
   A voz suave aqueceu a tarde com mais fora e rapidez que o sol escaldante.
   - No vai acrescentar um por favor ao nome?
   - Est abusando da sorte, xerife.
   - Eu no, madame. Estou apenas sentado aqui, pensando na vida. Foi voc quem chegou e parou para conversar.
   O sorriso debochado e preguioso penetrou em sua conscincia, doce e potente como um bombom de licor. Conner Kincaid a irritava. Ele a desafiava. Provocava sentimentos 
novos e excitantes que a obrigavam a refletir sua condio de mulher. E tinha de admitir que estava ansiosa para repetir a experincia do primeiro encontro.
   Por mais que se sentisse pronta para apreciar uma boa batalha verbal, tinha conscincia do tempo passando e do jovem que a observava. Demorar mais que o necessrio 
despertaria as suspeitas de Charles. Ele acabaria deduzindo que no fora insistir no pedido que havia feito ao xerife, nem enviar uma mensagem. E no podia partir 
sem realizar o verdadeiro propsito de sua ida ao vilarejo.
   - Por favor, xerife - disse com esforo. - Ajude-me a desmontar.
   Conner jogou o chapu para trs. A exclamao abafada no era nada mais do que esperava ouvir. Provocara a mesma reao em Deana quando ela servira seu caf naquela 
manh.
   Parecia ter sido vtima de um ataque de bfalos, e no pediria desculpas por isso. Sabia que tinha os olhos vermelhos como se houvesse bebido durante uma semana, 
e as sensaes que experimentava eram tpicas de uma monstruosa ressaca. Gostaria de dormir, e gostaria ainda mais de livrar-se do ardor que instalara-se em seus 
olhos, mas no se atrevia a fech-los por medo de rever o pesadelo da noite anterior, quando julgara-se um homem morto.
   O olhar de Belinda no era firme. Parecia flutuar sobre seus traos, detendo-se num ou noutro ponto eventualmente. Conner coou o queixo coberto pela barba por 
fazer. Havia comeado a barbear-se no incio da manh, mas abandonara a navalha afiada quando a palidez da pele comeara a surgir sob a sombra escura.
   Longe de mostrar-se ofendida por sua aparncia, ela o observava com preocupao.
   Afagando o pescoo do cavalo para justificar a inclinao do corpo para a frente, ela perguntou:
   - O que aconteceu com voc? - A voz tornara-se mais suave, como uma splica feminina por algum importante e ferido. Belinda ouviu a mudana, mas era tarde demais 
para retirar as palavras ou mudar de atitude.
   Conner parecia um zumbi. Era como se algo terrvel houvesse assombrado sua noite, impedindo-o de dormir. Ele afirmara no ter bebido e acreditava em suas palavras. 
Mas o que podia ter causado a sombra que escurecia seus olhos?
   - Conner?
   - Ento no sabe? - Irritado, ele disparou a pergunta como se quisesse atingi-la com as palavras. Levantando-se de um salto, atravessou a rua e segurou as rdeas 
da montaria enquanto observava sua reao.
   - No, xerife. Como eu poderia saber? Estive no rancho de Charles desde que cheguei  cidade ontem.
   - Imaginei que seu anfitrio houvesse aproveitado a histria para entret-la. Durante o caf, talvez.
   - Est fazendo suposies ofensivas. Fiz apenas uma pergunta civilizada, Conner, mas parece que  incapaz de responder da mesma maneira. Para sua informao, 
xerife, a nica vez que falei sobre voc foi com sua me.
   Ela tentou arrancar as rdeas da mo dele, mas Conner a impediu.
   - Espere! Eu precisava saber. 
   - Ento pergunte, xerife.
   - J perguntei.  sempre to ferina?
   Belinda sorriu com amargura.
   - No. Perto de voc, parece acontecer naturalmente? 
   - E o que mais acontece naturalmente... - ele sorriu, os olhos fixos nos lbios dela. 
   - Quando estamos juntos, quero dizer?
   Sentindo a boca seca, ela deslizou a lngua pelos lbios. Conner aproximou-se e, fitando aqueles olhos cinzentos, ela identificou um brilho de desejo que ele 
no fazia nenhuma questo de esconder.
   Ela soltou as rdeas e fechou os olhos por alguns momentos, sentindo as mos em torno de sua cintura. As camadas de roupa que impediam o contato direto entre 
peles no era barreira para o calor que penetrava em seu corpo como um lquido poderoso e inebriante.
   - Belinda?
   - O que ? - Assustada, abriu os olhos e encarou-o.
   - Se no puser as mos nos meus ombros, docinho, pode escorregar e cair quando eu a tirar da sela.
   Como ele conseguia esse efeito potente e imediato? Conner fazia o mundo resumir-se aos dois. No conseguia pensar em nada alm do calor dos seus lbios sobre 
os dela. E quando havia dado a ele permisso para trat-la pelo primeiro nome?
   - Pare com isso, Kincaid.
   - Kincaid? - Ele removeu as mos da cintura delgada.
   - O que pensa estar fazendo? No vai me ajudar a descer?
   - Voc me mandou parar. Eu parei.
   - No era a isso que me referia, e voc est cansado de saber. Por favor, no tenho muito tempo.
   Conner a ergueu da sela. As mos delicadas tocaram seus ombros. Pensou em desc-la lentamente junto a seu corpo numa carcia longa e quente, porque de repente 
se dava conta de que, desde a chegada de Belinda, no voltara a pensar na noite anterior. Mas colocou-a no cho com um movimento apressado, como se temesse prolongar 
o contato.
   - No creio que tenha vindo para uma visita social. O que deseja?
   - Podemos ir ao seu escritrio?
   - No.
   - No? - ela repetiu confusa. Pela expresso de seu rosto, sabia que no receberia uma explicao. Olhou para o rapaz do outro lado da rua e notou que ele no 
havia movido um nico msculo desde que chegaram.
   - Por que minha me foi visitar Riverton esta manh?
   Belinda no respondeu de imediato. Fingindo estar muito ocupada com as camadas de tecido que formavam a saia longa e discreta, ofereceu:
   - Darei todas as explicaes que quiser, se responder a uma nica pergunta.
   - Vai insistir na tentativa de suborno? - ele riu.
   - No. Trata-se apenas de uma simples troca.
   Ele ofereceu o brao. Por um momento Belinda limitou-se a fitar os olhos cinzentos e indecifrveis.
   - No seja to desconfiada. S quero lev-la ao caf, onde poderemos conversar com mais privacidade.
   Belinda aceitou o brao estendido e comeou a caminhar pela calada de madeira.
   - Haviam dado alguns passos quando ela parou. e olhou para baixo.
   - Vejo que no est usando suas esporas.
   - Eu as tirei. Caminhar em silncio ajuda a manter um homem vivo - ele respondeu, incentivando-a a seguir em frente. 
   - Sua me ficou muito perturbada com o tiroteio de ontem  noite. Por isso ela foi procurar Charles esta manh.
   Admiro suas maneiras diretas. Sem perder tempo, ela perguntou se Charles sabia que aqueles homens haviam posto sua famlia em perigo.        
   Conner parou antes de abrir a porta do caf.
   - Deve estar se preparando para fazer uma pergunta tanto, ou no estaria oferecendo informaes. 
   - Voc  muito desconfiado, xerife. Preciso de um favor, alm de uma resposta. Pense nisso como um gesto f de minha parte.
   - Voc sabe como manipular as pessoas, Belinda Jarvis. 
   Ela o encarou. Havia um brilho divertido em seus olhos, e nenhuma censura na voz. Rindo, tratou de agradecer com uma cortesia exagerada.
   Conner a convidou a entrar no caf. Uma vez l dentro, tomou seu brao novamente para gui-la at a mesa mais afastada, no canto do salo.
   Belinda ameaou sentar-se na cadeira de frente para a porta, mas ele a impediu.        
   - Por favor, sente-se aqui - disse, apontando para o lado oposto. - Prefiro ficar a onde est.
   Para ela no fazia a menor diferena. O hbito de evitar dar as costas para a porta era uma dessas tolices do oeste sobre as quais ouvira falar antes de partir.
   Os dois acomodaram-se e Deana aproximou-se.
   - Como vai, Conner?
   - Bem, obrigado. Srta. Belinda Jarvis, esta  a srta. Deana Long. Ela e o irmo so os proprietrios deste caf, e tambm alugam quartos para viajantes solitrios.
   Deana cumprimentou-a com um movimento de cabea enquanto limpava as mos no avental.
   - Est hospedada no Circle R, no?
   - Sim, Charles Riverton  amigo de meu tio. - Belinda no sabia por que oferecia explicaes. No tinha o hbito de justificar-se, mas havia algo no olhar daquela 
mulher que a fazia sentir-se perturbada.
   Conner olhou de uma para a outra, contendo o mpeto de sair em defesa de Belinda. As duas estavam quase mostrando os dentes como lobos prontos para a luta. No 
entendia por que sentia aquela estranha necessidade de proteger Belinda. Ela j havia se mostrado perfeitamente capaz de defender-se sozinha.
   - Por favor, Deana, traga caf para mim e limonada para Belinda - pediu, tentando pr um ponto final no momento de tenso.
   Deana ergueu as sobrancelhas ao ouvir o tratamento informal. Conner era sempre to polido, to cauteloso ao dirigir-se a uma mulher! Meses haviam se passado antes 
que ele parasse de cham-la de srta. Long. Certamente havia mudado de tom desde o dia anterior, quando aconselhara seu irmo a usar luvas para proteger-se contra 
os espinhos da dama do leste.
   - Deana? O caf?
   - Sim,  claro. No quer comer nada? Mal tocou no seu caf. Fiz aqueles bolinhos de ma com canela de que tanto gosta.
   - timo. E traga alguns biscoitos de melao, tambm. - Ele tirou o chapu e deixou-o sobre a cadeira vazia a seu lado.
   Belinda brincava com o boto da luva. Sem encar-lo, disse:
   - A srta. Long no gosta de mim.
   - E isso  importante?
   - Normalmente no seria, mas ela baseia seu julgamento no fato de eu estar hospedada no...
   - Riverton no  muito apreciado por aqui. Por associao, a antipatia se estende a voc. - Segurando a mo dela, abriu o boto da luva e comeou a remov-la. 
- Peo desculpas por Deana. Sei que ele a incomodou.
   - Isso tem alguma coisa a ver com o que aconteceu ontem  noite?
   Conner ficou tenso por alguns instantes, depois voltou a acariciar o dorso da mo dela com a ponta de um dedo. 
   - Isso  uma pergunta?
   Deana aproximou-se com a bandeja. Ela serviu o caf de Conner, puro e forte como ele apreciava, e deixou o bule e um prato cheio de bolinhos e biscoitos ainda 
mornos do forno. Em outro prato, uma poro de manteiga fora esculpida no formato perfeito de um abacaxi. -
    No trouxe gelia? - ele perguntou. 
   - Voc nunca come gelia.
   - Mas minha convidada pode apreciar...
   - Conner, por favor, no se preocupe. No quero comer nada - e provou a limonada doce enquanto esperava que Deana se afastasse. No momento em que ficaram sozinhos 
novamente, ela perguntou: 
   - Por que se recusa a me dizer o que aconteceu ontem  noite?
   - No quero falar sobre isso. Na verdade, estou mais interessado em saber mais sobre a conversa entre minha me e Riverton. - Belinda tentou interromper o contato 
entre as mos, mas ele a reteve. 
   - Por favor, deixe-a. Gosto de toc-la.
   - Algum j disse que tem uma habilidade espantosa de enfurecer as pessoas?
   - E isso que fao? Pensei estar recomeando de onde paramos ontem. Voc havia prometido falar mais sobre sua visita, e chegou a mencionar uma interessante troca 
de informaes.
   Belinda tentou ignorar os pequenos crculos que ele desenhava com o dedo no dorso de sua mo. Conner parecia estar fascinado com o movimento, porque mantinha 
os olhos fixos nas mos unidas. Tentou no ler significados muito profundos na ateno concentrada. Afinal, ele queria algo dela. Mas uma pequena parte de seu ser 
imaginava como seria se Conner simplesmente a desejasse.
   Determinada, afastou-se do territrio perigoso para onde os pensamentos a conduziam.
   - Est bem, Conner, voc venceu. Sua me estava zangada com Charles. Ela disse que no poderia mais defend-lo das acusaes lanadas pelos filhos. Pelo que observei, 
sua me no acreditou quando ele afirmou ignorar a presena dos empregados em suas terras.
   - Finalmente Deus teve piedade de ns. J havia desistido de tentar convenc-la da culpa daquele sujeito nos casos de roubo de gado.
   - Por qu?
   - Riverton e meu pai cortejaram minha me na mesma poca. Acho que ele no gostou de perder. Mame no mantinha nenhum contato com Charles, mas ento os roubos 
comearam. Tivemos problemas com ladres nas nossas minas. Logan infiltrou-se numa gangue a fim de descobrir quem dava as ordens. Eles sabiam tudo sobre o que fazamos, 
nossa rotina diria, os horrios do rancho e da mina, enfim, detalhes operacionais que no deviam interessar a ningum. Ento alguns rancheiros comearam a vender 
suas propriedades e Riverton as comprou. Os episdios de roubo de gado se tornaram mais freqentes e ele ficou mais rico.
   - No faz sentido. Charles sempre teve muito dinheiro. Sei sobre as transaes comerciais que ele mantm com meu tio. Por que ele precisaria roubar seu gado e 
suas minas?
   Conner estudou seu rosto e s viu sinceridade nos grandes olhos castanhos. Ponderou sobre os riscos a que estaria se expondo e sobre o que podia revelar. Metade 
da mente insistia em conjurar doces prazeres que podia partilhar com Belinda, a outra metade o prevenia sobre o perigo de confiar nela.
   Era como estar entre o mar e a rocha.
   - Riverton  ambicioso. Ele est apoiando um determinado candidato ao governo do territrio, mas creio que est pessoalmente interessado no posto. Existem outros 
bens e servios pelos quais ele tem demonstrado grande interesse. Estradas de ferro, por exemplo. E destruir minha famlia  uma forma de eliminar qualquer possibilidade 
de oposio. Como voc, minha me no foi capaz de enxergar a verdade, porque seu raciocnio estava prejudicado pelas lembranas. Saber que Jessie e os meninos quase 
foram mortos por aquele homem deve t-la ajudado a compreender como Riverton realmente .
   Conner olhou para as mos unidas sobre a mesa e ela o imitou. Sentia uma enorme simpatia por esse homem. Tambm enfrentara momentos difceis tentando convencer 
tio Phillip sobre os planos de seu adorvel sobrinho Albert para assumir os negcios da famlia. Phillip ainda tinha dvidas.
   - Acha que Charles  inescrupuloso?
   - Tenho certeza disso. - No podia dizer que sabia que Riverton tambm era responsvel pela morte do pai de Dixie.
   - Sua me contou que voc brigou com um irmo por minha causa. Lamento ter causado problemas.
   - Logan vai acabar compreendendo meu ponto de vista. Ele est passando por uma fase difcil com todo aquele trabalho do rancho. Assim que Ty terminar de construir 
sua casa e o beb nascer, Logan voltar a ser aquele rapaz calmo, equilibrado e agradvel que sempre foi. Mas... no consigo acreditar que minha me tenha revelado 
coisas to ntimas a uma desconhecida. Ela nunca discute questes familiares com pessoas alheias ao grupo.
   - Mas uma parte de sua famlia  a razo que me trouxe at aqui, lembra-se?
   - O menino.
   - O menino tem nome. Marston...
   - Por que no defendeu Riverton? - ele a interrompeu. - Lembro-me de que reagiu rapidamente na ltima vez em que o acusei.
   Belinda no sabia como responder. No podia esquecer que Conner ainda era um oponente, apesar do instinto incentiv-la a confiar nele. De onde vinham sentimentos 
to estranhos? No. Sabia que Charles havia dado dinheiro a algum em troca de um mapa marcado.
   Conner inclinou-se sobre a mesa e agarrou sua outra mo.
   - No veio at aqui para falar sobre a visita de minha me, Belinda. O que quer de mim?
   - Eu... - e parou, sem saber se devia ou no pedir o favor.
   - Vamos l, fale de uma vez. O mximo que posso fazer  me opor  sua vontade. Mas existem boas possibilidades de chegarmos a um acordo, tambm.
   Sem cinismo. Sem riso. Esse era o Conner sobre o qual Macria havia falado. O homem ntegro, capaz de solidariedade e compaixo. Da maneira delicada como segurava 
suas mos  firmeza com que a encarava, Conner a afetava com uma intensidade que no podia mais negar.
   O sentimento a assustava. Arrancando as mos da concha formada pelas dele, encontrou no caminho o prato de manteiga e irritou-se.
   - Veja o que me fez fazer!
   - Tem toda razo de me culpar - Conner sorriu, segurando suas mos novamente e levando os dedos engordurados aos lbios. 
   - Se sou responsvel por seu desconforto, fao questo de ameniz-lo.
   - Conner, pelo amor de Deus, o que vai...? - As palavras morreram em sua garganta. Mal podia respirar enquanto um calor intenso brotava dos dedos, que ele lambia 
lentamente, e espalhava-se por todo seu corpo.
   Nenhum homem jamais atrevera-se a trat-la daquela maneira, e Belinda era incapaz de imaginar um cavalheiro de seu crculo social sentado num caf a seduzi-la 
com tamanha tranqilidade O mais surpreendente era que permitia a ousadia.
   - Conner, eu... Diga-me, Conner, est flertando comigo?
   - Docinho, se ainda precisa perguntar, ento no devo estar. Lembra-se do que disse ontem? Quando estiver flertando, voc saber.
   - Ser? Nunca conheci ningum como voc. Num minuto me deixa furiosa, e no instante seguinte...
   - Sim? - ele a incentivou, concentrando-se na parte mais polpuda sob o polegar.
   - Voc me confunde. Provoca sentimentos que no sou capaz de compreender.
   - Ento estamos empatados. Est comeando a me apavorar, madame.
   - Conner, eu...
   - Odeio interromp-la, docinho, mas seu co de guarda est entrando.  melhor falar o que quer de mim, e depressa.
   - Envie este telegrama - ela disparou, abrindo a bolsa para extrair dela um pequeno pedao de papel que empurrou na direo dele sobre a mesa. O tilintar de esporas 
atrs dela anunciou a aproximao do empregado de Riverton, e Conner abriu a mo sobre o papel para ocult-lo. - Por favor, faa isto por mim - ela sussurrou antes 
de erguer a voz. - J que sua me me convidou para visitar o rancho e conhecer o menino Marty, eu aceitei. Sei que tinha outras idias, xerife - prosseguiu, empurrando 
a cadeira para levantar-se -, mas estou certa de que o garoto  meu sobrinho. Irei ao Rocking K no sbado para v-lo.
   - Com licena - o rapaz interferiu temeroso. - Desculpe-me, senhorita, mas temos de ir embora. Logo vai anoitecer, e no  seguro cavalgar por esta regio depois 
do pr-do-sol.
   Belinda no respondeu, mas notou o olhar que Dillion lanou para Conner.
   - Dillion, certifique-se de que a srta. Jarvis chegue s e salva  casa de Riverton. Se souber que um fio do cabelo dela foi levantado por um susto, irei procur-lo 
e o farei pagar caro por isso.
   Havia um brilho ameaador nos olhos do xerife, e era evidente que o rapaz fora atingido pela atitude desafiante e firme do representante da lei, porque seu rosto 
era uma mscara de fria e ressentimento.
   - Vamos embora - ela disse. - No podemos deixar o sr. Riverton esperando para o jantar.
   Conner os viu partir mas no fez nenhum movimento indicando que pretendia levantar-se. Sentado, abriu o papel que Belinda deixara e leu a mensagem.
   Tio Philip, imperativo que se junte-se a mim. Complicaes. Problemas srios. Sua sobrinha.
   - Problemas? - resmungou para si mesmo. - A quem ela se refere? A mim, ou a Riverton?
   Notando que ela esquecera a luva sobre a mesa, prendeu-a no cinto ao levantar-se.
   Enquanto dirigia-se  porta, Conner ia pensando se a conversa com sua me convencera Belinda a confiar nele a ponto de solicitar sua ajuda.
   No sabia se devia sentir-se grato ou furioso.
   
   
   CAPTULO X
   
   Cavalgando ao lado do silencioso Dillion, Belinda olhou para trs uma nica vez quando ultrapassavam os limites da cidade. Conner continuava parado na porta do 
caf, mas no deu sinal de t-la visto.
   Precisava acreditar que ele enviaria o telegrama para seu tio. Charles tornara-se uma complicao com suas insinuaes sobre consider-la atraente o bastante 
para pensar em casamento. A chegada de Macria Kincaid naquela manh o impedira de pintar uma cena convidativa do imprio que teriam juntos.
   Belinda estremeceu.
   - No precisa ter medo, senhorita. Iremos devagar. No quero que nada acontea conosco ou com os cavalos.
   Ela no corrigiu a suposio de Dillion sobre temer a cavalgada aps o anoitecer.
   O ar no se movia. Belinda ouvia o canto estridente das cigarras. O barulho misturava-se ao som contnuo dos picapaus nas rvores e dos animais rasteiros entre 
as pedras. Ser capaz de identificar e separar os sons j no a surpreendia. Aprendera a ouvir com ateno em cada viagem que fizera.
   Mas com a chegada dos sons noturnos, podia sentir uma pequena mudana. Um sentimento de tenso e expectativa que no conseguia definir. O calor ainda no diminura 
e a luz atrs das montanhas extinguia-se  medida que o cu ia se tornando vermelho, depois escuro. A terra toda era envolta por tons de dourado.
   Gostaria que Conner fosse o homem cavalgando a seu lado. No fundo, sabia que ele compartilharia de seu encanto pelo quadro de rara beleza que descortinava-se 
diante de seus olhos.
   Aquela era a terra de Conner. Dura e misteriosa, um crculo constante de vida e morte. Uma regio que ajudara a transform-lo num homem forte e gentil, terno 
e duro.
   Conner. O olhar perdido vagava em sua mente, enquanto as coisas que Macria dissera sobre ele ecoavam em seus ouvidos. A lealdade e o amor pela famlia, o desejo 
postergado de representar a lei, o fato de ter assumido responsabilidades de um adulto antes de ter tido tempo de ser criana. Todas essas coisas tambm formavam 
a personalidade de um indivduo. Um homem que comeava a consumir seus pensamentos.
   Balanando a cabea, tentou livrar-se das imagens que povoavam sua mente. O sorriso irritante, o olhar firme e penetrante, a voz preguiosa. O Conner furioso 
que ela havia provocado no primeiro dia com a exigncia de que prendesse o prprio irmo.
   Entendia como ele estivera dividido entre seguir o amor pela famlia ou cumprir seu dever de representante da lei.
   - Senhorita, seguiremos por um atalho para o rancho a partir da prxima colina.
   A interferncia de Dillion ps fim nos devaneios de Belinda.
   - Acha que essa  uma deciso sensata? Quero dizer, est escurecendo. No devamos nos manter...?
   - Conheo esta terra como a palma de minha mo. No se preocupe, senhorita. Apenas me siga.
   Belinda no sabia de onde provinha sua relutncia. Guardou silncio, mas o sentimento persistia com fora espantosa.
   Lembrou-se do que pensara anteriormente sobre a tenso brotar da prpria terra com a chegada da noite e, censurando-se, baniu a reao exagerada para o fundo 
da mente. Dillion fora mandado para observ-la, mas mostrara-se polido. A relutncia em segui-lo era pura tolice.
   Confiante na prpria habilidade, Belinda cavalgava relaxada, as rdeas soltas enquanto o animal escolhia o melhor caminho a seguir entre as pedras do solo. Dillion 
comeou a vencer a encosta antes dela, e pouco depois sua silhueta altiva recortava-se contra o cu vermelho.
   Belinda parou ao lado dele. Segurando a rdea com uma das mos, usou a outra para prender algumas mechas rebeldes sob o chapu. S ento percebeu que deixara 
para trs uma das luvas. No era a perda do objeto que a incomodava, pois trouxera mais dois pares prprios para a equitao, e sim o fato de ter estado to distrada 
com as lembranas de Conner. E s agora se dava conta do fato.
   O que Conner fazia com ela era vergonhoso. Ele a levava a esquecer.
   Um estrondo cortou seu pensamento. A gua relinchou de dor e ergueu as patas dianteiras. Belinda agarrou-se  crina sedosa com a mo livre para no ser derrubada 
da sela.
   Mais um estrondo cortou o ar quente, dessa vez mais prximo.
   Belinda olhou para Dillion com expresso amedrontada. 
   - O que...?
   A arrancada da gua a impediu de concluir a pergunta. Tentou acalmar o animal, mas, enlouquecida, ela desceu a encosta como se fugisse de demnios medonhos.
   No havia tempo para pensar em Dillion. Tinha de tentar equilibrar-se sobre a sela enquanto a montaria descia pela colina. Virando a cabea de um lado para o 
outro, ela partiu num galope desesperado assim que chegaram  plancie, cavalgando num galope que fez o chapu voar da cabea de Belinda.
   Havia praticado equitao e chegara a participar de algumas competies de saltos quando criana, mas nunca tivera de manter-se sobre um animal assustado em terreno 
acidentado e irregular.
   Ofegante, tentou acalmar a gua. O vento roubava cada gota de umidade que conseguia reunir na boca, impedindo-a de pronunciar as palavras. A garganta trabalhava 
duro para sufocar os gritos apavorados que brotavam de seu peito.
   Os msculos das pernas, apertadas contra a sela, queimavam tanto quanto os braos em funo do esforo que fazia para equilibrar-se. Se pudesse fazer a montaria 
diminuir a velocidade, sabia que reencontraria o domnio.
   O corao batia descompassado, acompanhando o som dos cascos contra o solo. A gua no dava sinais de cansao, apesar da louca corrida. Belinda puxava as rdeas, 
sabendo que o metal acabaria por ferir a boca do animal. Era o nico movimento que podia fazer. O medo crescia em seu peito, esperando por uma brecha em sua formidvel 
fora de vontade. Recusava-se a ceder.
   No sabia ao certo quando tomou conscincia de Dillion cavalgando a seu lado. Sabia que ele estava gritando, porque podia ver os lbios se movendo, mas o vento 
carregava as palavras para longe antes que pudesse ouvi-Ias.
   O fato de no estar sozinha ajudou-a a recuperar parte da calma. Mais uma vez, usou a fora fsica para puxar as rdeas, apesar da luta da gua para libertar-se 
do comando. Dillion inclinou-se para a frente e esticou o brao para agarrar os estribos.
   Mesmo depois dele ter as tiras de couro na mo, alguns minutos se passaram antes que os animais diminussem o ritmo. Guiando a gua, Dillion descreveu crculos 
amplos cuja circunferncia ia reduzindo a cada volta, at finalmente pararem.
   Belinda no conseguia mover-se. Um tremor comeou em suas pernas e espalhou-se por todo o corpo. Sentia-se gelada, para em seguida ter a impresso de que ardia 
num fogo incontrolvel. O organismo reagia ao impacto dos momentos que acabara de viver. O medo encontrava a brecha que estivera procurando e atacava.
   Erguendo a mo trmula, empurrou os cabelos para trs a fim de enxergar melhor. No sentira os grampos se soltarem. Como o animal que a sustentava, respirava 
com dificuldade, aspirando grandes quantidades de ar, como se temesse sufocar a qualquer instante. Engolindo vrias vezes, tentava aliviar a opresso que fazia doer 
a garganta.
   - Aqui, senhorita. Beba um pouco de gua do meu cantil - Dillion ofereceu. - Est ferida?
   Belinda negou com a cabea, os olhos fixos no cantil. Queria gua, precisava dela para lavar o gosto do medo, mas temia soltar as rdeas para se servir.
   Dillion percebeu o que estava acontecendo e desmontou.
   Parado ao lado da cabea da gua, segurou o estribo e manteve a voz baixa, murmurando palavras de conforto enquanto afagava a crina macia. Depois de alguns minutos 
o animal comeou a dar sinais de tranqilidade e ele pode aproximar-se de Belinda para segurar as rdeas.
   - Deixe-as comigo, senhorita. Est tudo bem agora. Pode solt-las. No deixarei que nada de mal lhe acontea. - A voz permanecia baixa e firme, como quando ele 
acalmara o animal. - Beba um pouco de gua. Ficarei aqui e impedirei que a gua se mova.
   Belinda sorveu pequenos goles. A gua estava quente, mas aos poucos saciou sua sede. Devolveu o cantil fechado para Dillion, que o pendurou no pescoo.
   - O que aconteceu? - ela finalmente conseguiu perguntar. - Aqueles estrondos.
   - Algum decidiu brincar de tiro ao alvo, e ns fomos os alvos.
   - Est sugerindo que tentaram nos alvejar?
   - Sugerindo? No, senhorita. Estou afirmando. O chefe vai pedir a cabea de Kincaid por isso.
   - Kincaid? Pensa que o xerife...?
   - No penso, senhorita. Eu sei. Ele est disposto a pendurar o chefe na ponta de uma corda. Todos sabem que o xerife faria qualquer coisa para provar que o sr. 
Riverton est por trs dos problemas de sua famlia.
   Conner havia atirado neles? Belinda recusava-se a acreditar nessa hiptese. O homem no era um covarde, e atingir algum no escuro era o mais desprezvel ato 
de covardia que podia imaginar.
   - Veja se a gua est ferida. Ela relinchou de dor, e temo que tenha sido atingida.
   - Talvez seja melhor desmontar.
   - Estou tremendo tanto que, se descer daqui, no conseguirem montar novamente. Ouvi dizer que caminhar no  o esporte preferido dos caubis.
   - E verdade. Certa vez conheci um sujeito que cavalgava do alojamento at a casa dos patres, e a distncia no era maior que oito, talvez dez metros.
   Belinda riu, como ele pretendera, mas o riso cessou quando ela viu o ferimento vermelho na lateral do corpo da gua.
   - Ela poder lev-la de volta ao rancho, mas iremos bem devagar. - Dillion montou e guardou o cantil no alforje. - Sei que no gostou de ouvir o que eu disse 
sobre o xerife, mas vai ouvir coisas ainda piores do sr. Riverton.
   - Foi um ato covarde. No posso crer...
   - Sem ofensa, senhorita, no tem noo do que est dizendo. - Ele comeou a cavalgar.
   Belinda o seguiu.
   - Depois do que aconteceu a Kincaid ontem  noite, ele far qualquer coisa para se vingar - o caubi opinou.
   Era horrvel ouvir algum acusando Conner de covardia. Queria defend-lo. Um ato que no fazia sentido. Ele era um homem adulto e perfeitamente capaz de cuidar 
da prpria defesa.
   Se demonstrasse um pouco de interesse, talvez conseguisse descobrir o que havia ocorrido na cidade na noite anterior. No conseguia esquecer aquele brilho assombrado 
nos olhos de Conner.
   - Estou confusa, Dillion. Por que o xerife pensaria em vingana?
   - Por causa das cobras, senhorita. Em vez de trancafiar na cela os dois homens que ele surpreendeu no Rocking K, Kincaid tomou o lugar deles. Algum jogou um 
saco cheio de serpentes por entre as grades.
   - Meu Deus!
   - Bem, ele devia estar atento, pelo que ouvi dizer. Kincaid no sofreu uma nica picada. Matou as cobras e saiu ileso.
   Est enganado! ela queria gritar. Conner no escapara ileso. Uma onda de compaixo a inundou. A gua tropeou e ela foi forada a prestar mais ateno s rdeas.
   - Est dizendo que o xerife culpa Ch... o sr. Riverton pelo acontecido?
   - Certamente. Kincaid est atrs do chefe desde que ele comprou as terras e montou o Circle R. A famlia dele dominava a criao de gado nesta regio e mantinha 
contratos valiosos com as reservas indgenas e o exrcito. O sr. Riverton ofereceu preos melhores e arruinou os negcios dos Kincaid.
   A caminho da cidade pensara na possibilidade de contar a Conner o que sabia. Em parte, o encontro com Macria provocara a reflexo. A mulher havia garantido que, 
por mais doloroso que fosse aceitar a deciso, se o menino que conhecessem por Marty fosse mesmo o filho de seu irmo, ningum a impediria de lev-lo. Saber que 
a criana ainda tinha pesadelos envolvendo a morte dos pais a ajudara a superar a impacincia e esperar uma oportunidade melhor para ir v-lo.
   Com Macria como aliada, j no precisava usar a informao como instrumento de barganha. E, no entanto, no dissera nada a Conner.
   A culpa era dele. O homem a reduzia a um punhado de sensaes quentes com um simples olhar! Era uma experincia totalmente nova, e no sabia como lidar com ela. 
Ou com Conner. Mas conhecia-se o suficiente para compreender que estava atrada por ele como jamais estivera por nenhum outro homem.
   Belinda estava to distrada, que se assustou quando Dillion apontou o rancho.
   - Vai contar ao sr. Riverton sobre o que houve? - No tenho escolha, senhorita. Ele tem de saber.
   - Preferia que no dissesse nada. Se o que afirma  verdade, isso s alimentaria...
   - Desculpe-me, mas ouviu quando Kincaid me ameaou. Ele a fez pensar que no poderia ser culpado pelo atentado, porque tomou o cuidado de prevenir-me. Mas os 
homens do Rocking K no passam de um bando de trapaceiros ardilosos. A primeira coisa que me disseram quando vim trabalhar aqui foi para tomar cuidado com eles.
   - Nenhum de ns foi ferido, e voc disse que a gua vai ficar bem. - Mas o argumento era fraco. Belinda ouvira Conner ameaar o peo, quase como se soubesse... 
No! Recusava-se a admitir essa hiptese. Massageando as tmporas enquanto Dillion trocava algumas palavras em voz baixa com o homem que guardava o porto, soube 
que no seria capaz de solucionar o complexo enigma.
   No momento em que passaram pelo sentinela, decidiu insistir no apelo.
   - Deixe-me dizer ao sr. Riverton o que aconteceu.
   - Pode dizer o que quiser, mas no far diferena. Kincaid foi longe demais. Agora ter de pagar pelo que fez.
   Belinda desistiu de discutir. Melhor poupar o flego para o confronto com Charles.
   Mas, quando desmontaram diante da porta, a sra. Dobbs os recebeu e informou que o dono da casa havia sado.
   - Ele foi chamado para resolver alguns negcios pendentes esta tarde - explicou.
   - Sabe a que horas estar de volta? - Dillion perguntou. - Preciso falar com ele.
   - O sr. Riverton disse que passaria alguns dias fora.
   - O assunto pode esperar at que ele volte. - Belinda o segurou pelo brao e puxou-o para longe do campo de audio da governanta. - Quero que guarde segredo 
sobre o episdio at o sr. Riverton voltar. Reconheo que suas suspeitas repousam sobre bases slidas, mas no tem certeza de que foi o xerife quem tentou nos atingir. 
Sem provas, no pode fazer acusaes que causariam derramamento de sangue.
   Estava tremendo por dentro, mas demonstrou firmeza ao encarar o rapaz.
   - No gosto nada disso, mas vou esperar pelo retorno do chefe.
   - Obrigada, Dillion. No esquecerei que atendeu a um pedido meu. Por favor, cuide da gua. No quero que mais ningum trate daquele ferimento.
   Ele se despediu tocando o chapu e partiu.
   - Vai querer jantar, senhorita?
   Depois de tudo que acabara de enfrentar, Belinda no tinha apetite.
   - No, obrigada. Uma xcara de ch ser suficiente. A propsito, o sr. Riverton deixou alguma mensagem para mim?
   - No diretamente. Ele mencionou que esperava voltar de Tucson a fim de acompanh-la  casa dos Kincaid.
   Belinda conteve o impulso de gritar. No quarto, rezou para que a viagem de negcios mantivesse Charles Riverton afastado do rancho por muitos dias. No queria 
sua companhia na visita que faria ao Rocking K, porque sua presena s causaria problemas.
   A ausncia de Charles foi recebida como uma bno. Finalmente teria oportunidade de descobrir por que ele dera dinheiro a algum em troca de um mapa marcado 
da propriedade dos Kincaid. No sabia mais por que era to importante descobrir a verdade. Uma voz interna dizia que era necessrio. S precisava esquivar-se dos 
olhos atentos da sra. Dobbs.
   Muito tempo depois da governanta ter levado o ch e desejado boa noite, Belinda ainda andava de um lado para o outro no quarto, contando os minutos at ter certeza 
de que seria seguro ir ao escritrio de Charles.
   Enquanto esperava, pensou no que Dillion dissera sobre Conner. Seria ele capaz de usar alguma desculpa para vingar-se do inimigo? Tentaria assassinato? A palavra 
era forte demais para descrever o incidente daquela noite, mas no podia mentir para si mesma. Se houvesse sido atingida ou jogada longe pela gua ferida, certamente 
estaria morta.
   Teria um nico beijo bloqueado a razo? Ou era apenas uma pea no jogo de vida e morte que Charles e Conner disputavam?
   No tinha respostas. E estava assustada por no saber em quem devia confiar.
   
   
   CAPTULO XI
   
   Para Belinda, a manh de sbado chegou trazendo ansiedade e medo. Estava excitada e preocupada com aquele primeiro e importante encontro com o sobrinho.
   No queria intimidar uma criana que jamais a vira. Lembranas de anos passados, quando fora chamada  sala de estar da casa da av para encarar a grande dama 
imponente a fizeram decidir que o filho de Robert no devia tem-la. Macria havia garantido que ia preparar o terreno para o encontro.
   Passara menos tempo cuidando das roupas e da aparncia para comparecer a importantssimos eventos sociais. Conforto no calor crescente era um fator a ser considerado. 
Por isso escolhera o vestido de tecido leve, apesar das aplicaes de renda e da gola aberta to diferentes de seu estilo habitual. Os cabelos estavam presos num 
coque simples na altura da nuca, e um ba de couro repleto de presentes esperava ao lado da porta.
   Contara com a ajuda de amigos casados para escolher os presentes. O jogo de soldados de ao pintado vinha completo com um pequeno canho de bronze. A carroa 
de madeira possua quatro cavalos para pux-la, um rolo de corda e ganchos para resgate, e a caixa de jogos era composta por pescaria, xadrez e domin, com seus 
tabuleiros correspondentes.
   Belinda dirigiu-se  porta que levava ao ptio. O cu estava coberto por nuvens escuras e carregadas. J estava ajeitando o chapu na cabea quando a sra. Dobbs 
aproximou-se para anunciar a chegada da carruagem enviada pela sra. Kincaid.
   - Estou indo, obrigada.
   - Por nada, senhorita.
   Ouvindo o tom de desaprovao da governanta, Belinda fez uma careta para o espelho enquanto encaixava os grampos que manteriam fixo o chapu sobre sua cabea. 
Era um gesto tolo e infantil, mas sentia-se muito melhor depois dele.
   Umas gotas de perfume atrs das orelhas, outras nos pulsos, e estava pronta para as luvas negras que complementariam o traje. Os brincos, delicados camafeus, 
combinavam com o broche que mantinha presa a gola do vestido. Prolas minsculas e ouro formavam a moldura.
   - Bolsa e sombrinha - murmurou, apanhando os objetos e lembrando o desconforto que experimentara depois da cavalgada at a cidade, de onde retornara com a pele 
rosada e ardida.
   A sra. Dobbs no estava em parte alguma quando ela atravessou o longo corredor. Melhor assim. A mulher tivera muito pouco a dizer desde que Charles partira, embora 
no pudesse reclamar de suas habilidades domsticas. Alm dos dotes culinrios, a sra. Dobbs tambm tinha um sono de pedra, e por isso Belinda conseguira realizar 
seu objetivo. Mas havia disposto de duas noites de sono antes de finalmente abrir a gaveta da mesa de Charles. Ainda no decidira o que fazer com o mapa que copiara.
   L fora, Belinda franziu a testa ao ver o velho condutor mexicano. Dillion esperava ao lado da carroa.
   - O que est fazendo aqui? - perguntou aborrecida ao ver o peo.
   - Vou acompanh-la ao rancho dos Kincaid, senhorita. 
   - No  necessrio. Como pode ver, a sra. Kincaid j enviou um acompanhante.
   O veculo parecia slido, mas no podia dizer o mesmo sobre o motorista, cujos ombros inclinavam-se como se estivesse bbado ou dormindo. O homem usava um enorme 
sombrero e um poncho simples. No a cumprimentara nem se dera ao trabalho de levantar a cabea enquanto ela discutia com Dillion.
   - Ponha o ba na carruagem, e depois volte aos seus afazeres, sejam eles quais forem. No permitirei que me acompanhe. Vou fazer uma visita social, e me recuso 
a criar problemas com os Kincaid por causa de sua presena.
   - O chefe disse que eu devia acompanh-la a todos os lugares, senhorita. No quero desrespeit-la, mas  ele quem paga meu salrio. Portanto, so as ordens dele 
que devo seguir.
   - Dillion, sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma, e no estou interessada nas ordens que recebe de seu patro.
   -  um direito seu, senhorita. Mesmo assim, terei de acompanh-la.
   Belinda estava to exasperada, que sentia vontade de gritar. No queria que ele a acompanhasse por uma srie de razes, e a que temia admitir at para si mesma 
era a chance de encontrar Conner. No esquecera as acusaes de Dillion contra ele. At ter uma oportunidade de conversar com Conner sobre o que havia acontecido, 
no queria problemas.
   - Voc  um homem razovel. Vamos fazer um acordo, est bem? Pode cavalgar comigo at a fronteira entre os ranchos. Isto , supondo que exista uma fronteira delimitada.
   -  claro que existe, senhorita. Mas no sei se sua sugesto  adequada.
   Notando que ele vacilava, Belinda aproximou-se e baixou o tom de voz.
   - Por favor, entenda. Vou visitar uma criana que no me conhece. Se os Kincaid ficarem aborrecidos ou zangados,  possvel que no me permitam ver se o garoto 
 meu sobrinho. Pode satisfazer meu desejo e as ordens de seu chefe esperando por minha volta.
   O jovem coou a nuca e olhou em volta.
   - Acho que assim no haver nenhum problema - decidiu. - Mas no deve dizer nada a ningum. Meu emprego est em jogo, senhorita.
   - Ningum alm de ns dois saber sobre o trato. Prometo.
   
   Uma risada abafada que transformou-se rapidamente num ataque de tosse fez Belinda lanar um olhar duro na direo do condutor da carroa.
   Assim que a ajudou a acomodar-se no banco de madeira e abrir a sombrinha, Dillion contornou o veculo para ir falar com o homem.
   - Velho, trate de conduzir a srta. Jarvis com cuidado, ou vai ter de acertar contas comigo. Entendeu, cholo? Mais um ataque de tosse sacudiu o corpo encurvado. 
Talvez Macria no soubesse sobre a doena do empregado, ou no o teria mandado busc-la.
   Preocupada com o velho, Belinda partiu em sua defesa. 
   - Deixe-o em paz, Dillion.  evidente que o homem ser cuidadoso.
   - Est bem, podemos ir. Lembre-se de que estou bem atrs de voc, hombre.
   Segurando a sombrinha com uma das mos, Belinda agarrou-se ao banco de madeira e examinou as mos fortes e bronzeadas que seguravam as rdeas.
   Sorrindo, manteve as suspeitas s para si.
   Olhou para trs e viu que Dillion montava para segui-los. Quando partiram, agradeceu  sorte por ele manter alguma distncia, o suficiente para no poder ouvir 
a conversa entre ela e o condutor.
   Belinda esperou com pacincia at atravessarem o porto. Dillion parou para falar com os dois guardas e ela tirou vantagem da oportunidade.
   - Adoraria saber por que Macria o mandou no lugar do condutor, xerife. - Olhava para a frente, mas podia sentir a tenso no corpo a seu lado. 
   - O disfarce no funcionou.
   - Como descobriu? - Conner perguntou resignado.
   - Pelas Mos. Comecei a suspeitar quando voc transformou uma gargalhada num ataque de tosse. O que eu disse de to engraado?
   - No estava rindo do que voc disse, mas da maneira natural com que manipula as pessoas. 
   - Eu no manipulo ningum.
   - Est enganada, docinho. No que eu...
   - Havamos combinado que voc no me trataria mais dessa forma.
   - Tem razo. Como ia dizendo, no que eu me incomode com isso. Admiro uma mulher que sabe o que quer e como alcanar seus objetivos.
   Belinda estava boquiaberta.
   Conner teve de inclinar a cabea para enxerg-la.
   - Vai acabar engolindo uma mosca.
   - Voc me surpreende. Mal posso acreditar no que ouvi. Esperava que um homem como voc....
   - No devia fazer suposies sobre um homem como eu.
   - Est bem, no farei. Mas acabou de admitir que me admira!
   - Deixe-me adivinhar. Ningum jamais admitiu que  digna de admirao?
   - Voc faz muitas perguntas pessoais.
   - Ajudaria a passar o tempo se voc respondesse - ele a incentivou, apesar de saber a resposta. 
   - Vamos, fale.
   - Meu tio fez um comentrio similar certa vez.
   - E quanto aos pretendentes?
   As rodas passaram sobre uma pedra e ela foi jogada contra o corpo musculoso. Conner moveu o brao para impedi-la de cair, e a rapidez do movimento traiu o verdadeiro 
grau de preocupao com sua segurana. Por um momento viu um brilho de pesar nos olhos dela, mas em seguida Belinda retomou a posio inicial e abaixou a cabea.
   No sabia o que motivara o pesar: um pretendente perdido, ou algum que deixara de cortej-la por sentir-se ameaado por sua natureza forte e obstinada. Seria 
capaz de apostar na ltima alternativa, mas no voltaria a perguntar.
   Conner no era capaz de entender um homem que preferia mulheres dceis e submissas. A vida era dura e incerta no territrio. Um homem sempre deixava o lar por 
vrios dias, e precisava estar certo de que a mulher era capaz de defender-se e tomar decises que, em muitos casos, podiam significar a diferena entre a vida e 
a morte.
   Crescer com uma mulher determinada como a me o ensinara a apreciar as vantagens que um homem podia obter ao lado de uma mulher independente. As cunhadas tambm 
no eram flores de estufa indefesas e frgeis, e Ty e Logan no as teriam escolhido se fossem diferentes.
   Mas no podia deixar de desejar que Belinda abandonasse um pouco a postura contida em sua companhia. Gostava mais quando ela o provocava.
   - Ainda no explicou por que veio me buscar, Conner. 
   - Mandei o telegrama endereado ao seu tio. Naturalmente, tomei o cuidado de ler a mensagem.
   - Naturalmente - ela repetiu com sarcasmo.
   - Precisava saber o que tinha em mente. A propsito, recebi as respostas dos outros telegramas.
   - E descobriu que eu estava dizendo a verdade? 
   - Sim, mas eu j havia percebido antes. 
   - Ento por que...?
   - Tinha de ganhar tempo enquanto Jessie e Logan conversavam com os meninos. Os ltimos meses foram felizes para eles. Os pesadelos diminuram, e as crianas so 
amadas como se houvessem nascido em nossa famlia. Por isso resisti tanto quando me procurou pela primeira vez.
   - Entendo.
   - Espero que sim. Isto no vai ser fcil para ningum. Minha me falou com os meninos, como Logan e Jessie. Kenny mentiu para proteger o pequeno. Por isso disse 
que eram primos.
   - Kenny  o outro garoto?
   - Ele  um garoto, mas fala e pensa como um homem. Mal posso esperar para que o conhea.
   O entusiasmo na voz dele levou-a a encar-lo. Encolhido como estava, conduzindo os animais atravs de um riacho estreito, no podia ver seu rosto.
   - Conner, tenho a sensao de que h mais alguma coisa por trs do fato de ter vindo me buscar. Algo que ainda no disse.
   - Mulher esperta. - Pensou em dizer que queria ser o primeiro a lev-la para conhecer a terra dos Kincaid, mas no quando era forado a sussurrar para no ser 
ouvido pelo empregado de Riverton. Era muito orgulhoso, como a mulher que o acompanhava.
   Havia lugares que queria mostrar a Belinda, locais especiais que nunca havia dividido com ningum. A certeza de que ela saberia apreci-los, de que gostaria de 
estar em sua companhia, havia criado razes profundas em sua mente, e nenhuma quantidade de bom senso ou perseverana seria capaz de remov-la. Era uma atitude atpica, 
sabia disso, mas nunca perdera o sono por nenhuma outra mulher antes de conhec-la. Belinda era especial, e por isso provocava reaes to inusitadas.
   - H uma colina alguns metros  frente. Diga ao seu acompanhante que espere antes da subida. Assim que comearmos a descida estaremos em territrio Kincaid, e 
no quero que meus empregados o crivem de balas depois de ter sido to cordato.
   - Ele foi mais que cordato, Conner. Dillion salvou minha vida.
   Belinda inclinou a sombrinha de forma que o movimento de inclinar-se para a frente a fim de fit-lo no fosse percebido.
   - Sabe de uma coisa, xerife? Vai acabar engolindo moscas se no fechar a boca.
   Conner fechou a boca e o encontro dos dentes provocou um rudo caracterstico. Ela riu, e o som melodioso o invadiu como uma onda doce.
   - No sei o que h de to engraado - ele disparou por entre os dentes. - Como o sujeito pode ter salvo sua vida? Prendeu o salto do sapato num...?
   - No. Algum atirou em ns ontem  noite.
   - Algum... atirou?
   - Mal posso esperar at tirar esse chapu ridculo da cabea. Talvez ento me escute.
   - No precisa ficar irritada. Diga a Dillion para esperar aqui, e depois poder me contar tudo que houve ontem  noite.
   - Pensei que j soubesse, xerife.
   - O que est insinuando?
   - Dillion - Belinda gritou. - No deve passar deste ponto. Se eu demorar, mandarei algum avis-lo.
   - Estarei esperando aqui at o pr-do-sol. Se no voltar, irei busc-la.
   Belinda suspirou. No ia discutir com o rapaz. A julgar pela fora com que Conner agarrava as rdeas, teria momentos difceis pela frente. Melhor poupar o flego 
para enfrent-los.
   Tentou preparar-se enquanto os minutos passavam. Sabia que Conner esperaria at que estivessem bem longe de Dillion. No tivera a inteno de revelar as suspeitas 
momentneas que tivera quanto ao envolvimento do xerife no episdio, mas o comentrio escapara num momento de descuido. Agora teria de pagar pela falta de cautela.
   
   
   CAPTULO XII
   
   Conner decidiu esperar enquanto conduzia os cavalos por uma parte plana do terreno. Distante, o cu prometia chuva antes do final do dia.
   Chegara a lamentar a resoluo de seguir por um desvio, retardando assim a chegada ao rancho, mas em vista do que Belinda tinha a revelar, estava feliz por ainda 
terem boa parte da viagem pela frente.
   Por que algum atiraria nela? Como uma mulher adorvel e bem educada como Belinda havia conquistado inimizades fortes o bastante para porem em risco sua vida?
   A acusao velada o atingira. Nunca ferira uma mulher em toda a vida, e no admitiria que fizessem insinuaes a respeito de seu carter. Queria tempo para question-la.
   Por isso guiava os cavalos na direo do bosque de algodoeiros perto do arroio Ouajaia.
   Belinda segurava a sombrinha com fora. A mudana de direo indicava que Conner no pretendia esperar. Por que a perspectiva de estar sozinha com ele fazia seu 
corao bater mais depressa?
   O ar era quente. gua cristalina corria pelo leito de pedras. Algodoeiros em flor exibiam orgulhosos a nova e exuberante folhagem trazida pela primavera.
   Conner levou o veculo at a relva alta e macia e parou. A carroa dispunha de um breque que impedia que os animais a arrastassem para longe, e ele o ativou. 
Moscas reuniram-se em torno dos cavalos, perturbando-os com o som insistente que podia ser ouvido de onde estavam, apesar do rudo do riacho. Ele tirou o sombrero 
e o poncho e jogou-os na parte de trs da carroa. Enquanto ajeitava os cabelos com os dedos, levantou a cabea e viu que os galhos encontravam-se formando um tnel, 
tornando o lugar to privado quanto um homem podia querer.
   Mas no estava ali para cortejar Belinda. Tinha de manter em mente o propsito da parada.
   Ela fechou a sombrinha, deixou-a sobre o banco, entre eles, e manteve-se em silncio, numa postura rgida e ansiosa.
   Conner recostou-se e apoiou um brao sobre o encosto do banco, bem perto dela. Alguns milmetros separavam os dedos das costas eretas. Por um momento sentiu-se 
tentado a deslizar a mo por sua coluna at tocar o coque severo sob o chapu.
   O que aconteceu com a inteno de manter em mente o propsito da parada?
   - Notei que no est gritando comigo - ela apontou. - Esperava ao menos uma exploso temperamental. 
   - No quero gritar com voc.
   - Quer discutir?
   - Tambm no. S quero saber por que me acusou de estar informado sobre o atentado que sofreu.
   - Dillion pensou que fosse voc. Ele me contou o que aconteceu na cadeia na noite anterior, e disse que voc faria qualquer coisa para colocar Charles atrs das 
grades. Inclusive me matar.
   Conner no se moveu. Os dedos agarraram a madeira do encosto como se ali estivesse a nica possibilidade de controle. 
   - E voc acreditou nele? - A ira fazia tremer sua voz. 
   - No foi isso que eu disse.
   - Mas teve dvidas, no? Por favor, no minta para mim.
   - No tenho a menor inteno de mentir para voc, Conner. Nem sobre este assunto, nem sobre nenhum outro.
   A absoluta convico na voz dela acalmou-o.
   - No poderia ter atirado em voc. Deixei a cidade logo depois de sua partida, e segui em direo oposta para conduzir meus prisioneiros at Estralla. O xerife 
de l  meu amigo e tambm odeia ladres de gado. Ele perdeu a esposa e os dois filhos tentando impedir que levassem animais de seu rancho.
   - Sinto muito.
   - Por qu? Voc nem o conhece!
   Ela olhou para as mos cruzadas sobre as pernas.
   -  o que se deve dizer em tais circunstncias. Alm de correto,  educado.
   - Sempre to contida, fazendo apenas o que  correto e educado... Diga-me, Belinda, o que  correto para voc?
   - L vem voc com suas perguntas pessoais.
   -  a nica maneira de faz-la abrandar o controle que mantm sobre si mesma.
   - Est enganado, xerife. - Ela o encarou. O brilho nos olhos dele era sensual e provocante, alm de especulativo. Foi ela quem desviou o olhar. - Se deixou a 
cidade logo depois de minha partida, quando enviou o telegrama?
   Havia uma nota aguda em sua voz, um sinal de que tentava no revelar a verdadeira importncia da mensagem.
   - Antes de partir - ele respondeu. - No  necessrio dispor de muito tempo para percorrer a distncia entre o caf e o posto telegrfico. So apenas duas portas. 
No estamos na cidade grande, Belinda. Aqui ningum faz fila para mandar telegramas.
   - Est sempre comentando as diferenas.
   - Talvez seja uma forma de refrescar a minha memria - ele admitiu depois de alguns instantes de tenso.
   Belinda olhou para as pernas musculosas sob a cala preta.
   Conner cedeu ao impulso de toc-la. A mo abandonou o encosto do banco para tocar o tecido delicado do vestido. O material fino permitia que sentisse o calor 
da pele macia e o tremor provocado por seu toque.
   - Olhe para mim.
   - Sua me deve estar imaginando onde me encontro, xerife.
   - Ela sabe que est comigo. Segura como um beb nos braos da me. To segura quanto desejar.
   Segurana? Essa era a ltima palavra que usaria para descrever seus sentimentos. Estar com Conner numa situao de intimidade era como caminhar sobre areia movedia. 
Perigoso. Muito perigoso. Um passo em falso... E voc no quer saber?
   Belinda tentou calar a voz da tentao. Segurana era a ltima coisa que queria de Conner, mas no podia dizer isso a ele. Seria como dar permisso para que tomasse 
todo o tipo de liberdades. Proibidas. Deliciosas?
   O movimento da mo dele em suas costas a impedia de manter-se fiel s boas intenes.
   - Se no quer me encarar, Belinda, ao menos fale. Onde comeou o tiroteio?
   Esse era um assunto seguro.
   Sem hesitar, contou a ele sobre o episdio que a enchera de terror e aflio, tentando manter a calma enquanto fazia o relato com voz trmula.
   Conner resistiu ao impulso de tom-la nos braos, acalm-la e jurar que nunca mais teria de enfrentar qualquer outro perigo. Mas tinha de deix-la concluir sua 
verso dos fatos. Alarmado, comeou a tirar concluses a respeito das causas do atentado, enquanto tentava compreender de onde vinha a forte necessidade de proteg-la.
   Sabia que os irmos o chamavam de Conner, o protetor. Nunca negara a prpria natureza. No havia uma nica lembrana em toda sua vida de um momento em que houvesse 
dado as costas para um ser humano ou animal em necessidade.
   E Belinda era uma mulher necessitada, mais do que ela mesma percebia.
   Tinha de ser duro e deixar de lado os sentimentos. Algum havia atirado nela. Recusava-se a considerar que Dillion fosse o alvo. E mesmo assim, nada fazia sentido, 
a menos que...
   - O que Riverton disse quando voc voltou ao rancho?
   - Charles no estava l. Ele foi chamado para resolver uma questo de negcios em Tucson.
   - Muito conveniente.
   - Sarcasmo no combina com voc, Conner. Por que ele poderia desejar minha morte?
   - Sim, por qu? Por que algum tentaria mat-la? -
   Observava o rosto dela to atentamente, que notou o rpido e delator tremor em seus lbios. 
   - Suspeita de algum, no ?
   - Ningum que saiba sobre minha presena em Sweetwater.
   - Ainda no respondeu  minha pergunta.
   Belinda fechou os olhos e o rosto de Albert surgiu em sua mente. Estaria ele to desesperado para det-la, que chegara ao ponto de mandar algum mat-la?
   Conner decidiu deix-la com seus segredos, mas ainda estava incomodado por ela ter suspeitado de que participara do ataque.
   - Por que desconfiou de mim? No creio que tenha se deixado influenciar pelas palavras de Dillion.
   - No. Foi por causa do menino, da intensidade com que se ops a mim quando cheguei  cidade. No queria que eu o encontrasse.
   Conner sentiu vontade de gritar, de destruir aquela aparncia calma e contida, mas de repente notou o tremor nos lbios dela e permaneceu em silncio, sentindo 
a tenso crescer rapidamente entre eles. Fazia um grande esforo para concentrar-se no que ela havia dito, para no pensar na suavidade da pele plida ou em como 
os lbios haviam se encaixado nos seus quando os provara.
   Ainda no deixara de toc-la. O movimento o atormentava, mas no conseguia interromp-lo. Belinda no protestava, e podia sentir os tremores cada vez que movia 
os dedos acariciando suas costas.
   - C... Conner?
   Em vez de responder, olhou para as mos delicadas e viu que ela apertava os dedos cruzados sobre as pernas num gesto nervoso. Com a mo esquerda, segurou a dela 
e levou-a aos lbios.
   - O que est fazendo? - O calor da boca alcanava a pele atravs do tecido fino da luva. Todos os sentidos despertavam com uma intensidade que a excitava e assustava. 
   - Conner, devamos...
   - Livre-se dessas malditas luvas e faa aquilo que deseja fazer. O que eu quero que faa - complementou com voz rouca. Sorriu ao ver que os olhos castanhos pareciam 
maiores, mas no num sinal de alarme. Depois de tirar a luva, guardou a pea no bolso da cala. - Vou acabar fazendo uma coleo delas, se continuarmos...
   - Pretendo partir assim que meu tio chegar.
   - Eu sei. - Fitou-a mais uma vez, ouvindo apenas o pesar na voz dela, no as palavras de aviso.
   - Se sabe, por que... - Ela parou, sentindo que j no desejava ouvir a resposta.
   - Por que comear alguma coisa que no nos levar a lugar algum? - Conner concluiu. Enquanto beijava seus dedos, mantinha os olhos fixos nos dela e via a chama 
de curiosidade sexual que mesclava-se  inocncia at ento despercebida. 
   - Se soubesse, Belinda, juro que me deteria.
   - Acha que  capaz?
   - No, porque no quero parar.
   Conner estudou o formato das sobrancelhas e a curva dos clios, notando mais uma vez o contraste que formavam com os cabelos louros. Cedeu ao impulso de deslizar 
os dedos pelo nariz reto e pequeno e descer, traando o contorno da boca.
   - Talvez esteja curioso - disse. - Mas tambm pode ser algo mais.
   A incerteza estampou-se no rosto dela. A pose de dama elegante desapareceu. O brilho sensual nos olhos de Conner a desafiava e excitava. Belinda nunca tivera 
conscincia de si mesma como mulher, uma mulher desejvel, se considerasse a expresso do homem que a tocava. A tentao era como uma rede muito fina a envolv-la, 
mantendo-a cativa' sem imobiliz-la. Sob seu efeito, perdia a vontade de lutar. A muralha de proteo que levara anos para construir desmoronava, como havia acontecido 
no primeiro encontro com Conner Kincaid.
   Os dedos acariciavam seu rosto, provocando um calor que ameaava incendi-la. Prendendo o flego, esperou enquanto ele a tocava lentamente, to devagar que poderia 
det-lo quando quisesse. Mas, sentindo que Conner segurava sua nuca e a puxava para mais perto, teve certeza de que no queria det-lo.
   Belinda conseguiu erguer a mo. Hesitante, pousou-a sobre o peito amplo e forte. O tecido azul e macio sobre os msculos rgidos convidavam ao toque. As batidas 
rpidas do corao asseguravam que Conner no era imune ao calor que os envolvia.
   - No pode... sair por a satisfazendo todo o tipo de curiosidade. Tanta indulgncia  considerada... - Ele a puxou para mais perto. - E... - Respiravam juntos 
numa cadncia alucinante.
   - Pecaminosa? - Conner ofereceu com um sorriso malicioso. - H algo de engraado sobre a curiosidade. Nunca aprendi a deixar de satisfazer a minha. E voc, Belinda. 
No  curiosa? Aposto que sim. S um pouco, talvez. - Enterrando os dedos no coque sedoso e dourado, murmurou: 
   - Vamos explorar essa necessidade de conhecimento. Vamos descobrir se  pecado ou bno.
   Ao ser puxada contra o corpo msculo, Belinda sentiu um objeto rgido entre seu quadril e a coxa de Conner.
   - A arma... - murmurou. - Nunca fica sem ela, xerife?
   - S quando fao amor. Por isso, se perceber que estou tirando o cinturo, corra como se o diabo a perseguisse.
   Correr? No acreditava que as pernas pudessem sustent-la, muito menos numa corrida. Sentiu os lbios roando seu rosto. Ele ia beij-la e jamais desejara... 
Mentira! Sim, ela reconheceu encabulada, estava mentindo. Os lbios tocaram sua testa. Uma onda de calor percorreu todo o corpo, fazendo tremer os joelhos. Imvel, 
esperou que o prximo beijo fosse depositado sobre a plpebra cerrada. A boca entreaberta esperava pelo beijo com ansiedade.
   A espera era alucinante. Um espao minsculo separava os lbios dos dele. Conner estava to perto, abraando-a... E no entanto, no fazia meno de pr fim ao 
tormento. Respiravam ofegantes, e ela sentia-se rasgar por dentro.
   Com a mo, media a velocidade das batidas do corao dele, comparando-as ao que acontecia em seu peito. Devagar, levou os dedos ao ombro e sentiu o calor e poder 
dos msculos firmes. Queria abra-lo, acariciar os cabelos escuros e faz-lo inclinar a cabea para o encontro entre as bocas.
   Os beijos provocantes prosseguiram. Esse homem no era um representante da lei, mas um fora-da-lei indecente disposto a roubar sua razo. No se tratava de um 
cavalheiro iniciado nas artes sociais, mas de um homem habilidoso na arte da seduo. Sem sequer beij-la, Conner a excitara a ponto de estar derretendo por dentro.
   Ento ele moveu-se e roou os lbios nos dela num toque muito suave. No era um beijo atrevido, mas uma doce e delicada provocao, uma forma de expandir a necessidade 
que crescia entre eles.
   - Sua boca sempre treme quando um homem a beija?
   - No sei. Nenhum homem jamais...
   - E nenhum outro o far - ele a interrompeu. Conner sentiu as mos agarrarem sua camisa e beijou-a. Belinda fizera o impossvel. Tocara um recanto ntimo de seu 
ser, abalando a pacincia que passara anos reunindo, e isso o enfurecia.
   A ira tornou o beijo mais ardente, exigente e ntimo. Conner mordiscava o lbio de Belinda, sugando-o para o interior de sua boca. Ela colava o corpo ao dele, 
os seios apertados contra seu peito, o quadril pressionando a carne excitada e a coxa que ele moveu para acomod-la.
   Usando uma das mos, ele removeu os grampos que prendiam seu chapu  cabea e soltou os cabelos louros e encaracolados, segurando-os para for-la a erguer o 
rosto e oferecer-se para os beijos mais atrevidos. Agora podia sentir o sabor do rosto e do pescoo cuja delicadeza havia admirado. A gola do vestido o impedia de 
prosseguir em sua explorao.
   Voltou a beij-la com uma paixo que beirava o desespero. Belinda tentava separar as sensaes, mas era impossvel pensar enquanto era submetida quele doce tormento. 
Suspirando, ofereceu a boca sem restries. A entrega a tornou mais ousada. Traou o contorno dos ombros com as pontas dos dedos, sentindo o poder dos msculos que 
a faziam sentir-se fraca e indefesa. O gemido de Conner misturou-se ao seu suspiro.
   Belinda estava assustada com a intensidade da paixo que sentia por ele. Ento era sobre isso que as mulheres sussurravam, o desejo que superava a razo.
   Queria saber mais, sentir o calor fluido que a percorria enquanto ele invadia os recantos mais secretos de sua boca. Podia sentir os movimentos rpidos de seu 
peito; o corpo correspondia com um pulsar abaixo do ventre, e de repente temeu no ser capaz de respirar.
   As mos encontraram os cabelos espessos na nuca de Conner e acariciaram as mechas rebeldes. Sentiu os dedos dele em seu pescoo, acariciando, explorando, provocando. 
Ele se moveu e a fez apoiar a cabea em seu ombro. O beijo tornou-se mais profundo, e prosseguiu at que, prestes a desmaiar, Belinda sentiu os lbios afastando-se 
dos dela.
   Conner fitou os olhos luminosos cheios de desejo. Os tremores sutis que haviam sacudido seu corpo quando comeara a beij-la agora eram mais intensos, reveladores. 
Sentira cada movimento, porque eles haviam sido como carcias sobre o corpo sensvel e excitado.
   Os lbios, naturalmente rosados, agora eram de um vermelho intenso e cintilante. Beijou-os com delicadeza, como se quisesse amenizar a reao provocada por sua 
paixo. Pelo menos descobrira que no tinha nos braos uma virgem tmida. Ela no protestara quando a fizera abrir a boca para um beijo mais ntimo, mas mostrara-se 
envergonhada ao retribuir a carcia.
   Como havia ensinado aos irmos, um homem s podia obter algum prazer depois de dar  mulher com quem estava um prazer ainda maior.
   Mesmo assim, a dvida persistia. Belinda no o detivera, mas parecera insegura. De olhos fechados, como se nunca mais quisesse abandonar o ninho que havia encontrado 
em seu ombro, ignorava a realidade dos fatos. Ou melhor, a realidade de seu corpo, Conner corrigiu-se, praguejando contra a cala que no escondia sua excitao. 
Belinda sorriu, um sorriso lento e preguioso. O sorriso de uma mulher que sabe exatamente o que quer. Conner sabia que estava mais que pronto para satisfazer o 
anseio. Estava to pronto que j comeava a sentir dores. No se recordava de outra mulher capaz de despertar desejo to poderoso como o que experimentava por Belinda.
   Mas Conner aprendera a sempre ouvir a voz da razo antes de agir. Nesse momento no tinha escolha.
   A razo dizia que Belinda no sabia o que estava convidando com aquele sorriso. Certamente sairia correndo, chocada e ofendida, se o visse estender o poncho sobre 
a relva. Ou no?
   A dvida era insuportvel. Diabos! Por que tinha de ser um homem to consciente? Seria muito mais fcil deixar a natureza seguir seu curso.
   - Conner? Fiz algo errado? Eu...
   - Errado? O que pode estar errado? - A frustrao tornou sua voz rspida. Podia senti-la se retraindo, apesar do corpo permanecer imvel.
   - Eu perguntei primeiro. Num minuto estava me beijando como se quisesse chegar ao cu, e de repente...
   Conner beijou-a. Era a maneira mais fcil e rpida de faz-la silenciar. Mas quando tentou afastar-se, Belinda o segurou.
   - Beije-me, Conner. Minha curiosidade ainda no foi satisfeita, como a sua parece ter sido.
   Suaves e sedutoras, as palavras foram sussurradas contra seus lbios. Conner no era um santo. Nunca tivera a pretenso de ser.
   - No tem idia do que est provocando, Belinda - disse, deslizando as mos at tocar a curva dos seios rgidos. - Sou um homem, no um garoto. No vou me contentar 
com meia dzia de beijos. No serei capaz de parar enquanto no estiver satisfeito.
   - Est muito excitado, Conner.
   - Sim, acho que isso descreve meu estado. - Fechou os olhos por alguns instantes, incapaz de acreditar no dilogo inslito.
   Belinda tocou a ponta de sua orelha e acompanhou o contorno com um dedo. Ele resmungou alguma coisa incompreensvel, algo que parecia um som sem sentido, uma 
maldio ou um gemido de prazer. Ela sorriu e chegou mais perto.
   - Conner, se eu sou a causa do seu... bem... desconforto, deixe-me ser a origem de seu alvio.
   Sua primeira reao foi empurr-la para o outro lado do banco da carroa. Que tipo de criatura havia libertado?
   - Belinda, est flertando comigo?
   - Se precisa perguntar, ento devo estar fazendo algo errado - ela respondeu pesarosa. - Tinha esperanas...
   - Esquea. Voc vai indo muito bem. Na verdade, se fizer melhor, acabarei sofrendo um ataque cardaco.
   O sorriso pecaminoso voltou a iluminar o rosto dela. Conner cedeu ao impulso de beij-la. Virgem ou no, j no importava.
   Conteria o mpeto de buscar alvio imediato para a paixo que o incendiava e daria a ele todo o prazer que quisesse, ou pudesse suportar.
   O prazer devia ser dado  mulher em primeiro lugar.
   Mas Conner teve um ltimo pensamento sensato antes de perder-se nos sons erticos que Belinda comeou a emitir. A mulher o confundia.
   
   
   CAPTULO XIII
   
   - Por que esto demorando tanto?
   Nenhum membro da famlia reunida no jardim respondeu  pergunta de Macria. Ela a repetira tantas vezes na ltima hora, que nem se ofendeu por no obter respostas.
   Kenny e Marty estavam brincando com uma toupeira de estimao, PeeWee, E Jessie sorriu quando os meninos acenaram. O marido permanecia junto do porto. Desde 
que Macria os prevenira sobre a visita de Belinda Jarvis, Logan afastara-se dela. Devia saber que sofria tanto quanto ele com toda essa situao. Afinal, tambm 
amava Marty!
   - Por que no vem sentar-se conosco, Jessie? - Dixie convidou.
   - Estou inquieta demais para ficar sentada. - Jessie amenizou a recusa complementando-a com um sorriso.
   Dixie estava sentada  sombra de um limoeiro, as mos cruzadas sobre o ventre distendido. Era a imagem do contentamento com Ty parado trs dela, massageando seus 
ombros.
   Logan ultrapassou o limite do porto e Jessie seguiu ao impulso de falar com ele a ss. As coisas no podiam continuar como estavam. Ty no permitiu que os meninos 
a seguissem.
   Logan seguia para o lago, onde os galhos baixos do salgueiro ofereciam privacidade.
   - Logan?
   - Volte para casa, Jessie. No sou exatamente uma boa companhia neste momento.
   - Acha que eu no percebi? - Ela parou atrs do marido e tocou seus cabelos castanhos. -  doloroso para mim, tambm. No quero perder Marty. E no quero perder 
voc.
   Ele virou-se, a incredulidade estampada nos olhos azuis.
   - Perder-me? De onde tirou essa idia? - disparou, tomando-a nos braos. - Nunca, Jess! Est me ouvindo?
   - Sim, eu ouo o que diz. Mas est to distante de mim... No conversa mais comigo, no me fala sobre os problemas do rancho. Quero saber o que o est incomodando 
alm do risco de perdermos nosso menino.
   Logan passou a mo pelos cabelos dela e apertou-a contra o peito. Adorava ver os longos cabelos soltos, e haviam combinado que, para content-los, ela os usaria 
numa nica trana, em vez de prend-los num coque severo como era costume na regio.
   - Fale comigo - ela implorou.
   - Meu bem,  voc quem est me perturbando. Acha que no sei que  infeliz aqui?
   - Mas...
   - Deixe-me terminar. Queria saber o que est me incomodando, e agora vai me ouvir. Vejo como volta da casa que Dixie e Ty esto construindo. Sei que quer um lugar 
s para ns, mas as coisas se complicaram e no tive tempo para pensar no nosso lar. S quero que seja feliz, meu amor. E agora este problema com Marty...
   Ela o empurrou com delicadeza e fitou-o nos olhos.
   - Logan Kincaid, eu amo voc. No vou negar que tem sido difcil dividir a casa com sua me, apesar de Sofia e ela sempre terem me tratado com muito carinho. 
O fato  que no tenho nada para fazer. Ty e Dixie esto vivendo num casulo de sonhos, e voc vive muito ocupado com o trabalho no rancho. Ningum precisa de mim. 
Nem mesmo os garotos.
   - Jess, como pode dizer que no preciso de voc? - Para provar seu ponto de vista, Logan beijou-a sem pressa, demonstrando a paixo que sentia. Quando levantou 
a cabea, fitou-a nos olhos e murmurou: - Nunca mais repita isso, meu amor. Se no a tivesse comigo, no teria sido capaz de enfrentar tudo o que aconteceu nos ltimos 
meses. - S peo que tenha um pouco mais de pacincia, at Ty poder assumir sua parte de responsabilidade na rotina do Rocking K. Ento, minha querida, juro que 
vamos recuperar o tempo perdido.
   Abraaram-se em silncio por alguns instantes, reunindo foras para enfrentar a perda que logo abalaria suas vidas.
   - Jess, daria tudo que tenho para v-la feliz. No posso impedir que Marty nos deixe, mas... vamos fazer um beb. Diga que sim, Jessie. Diga que tambm quer um 
filho.
   - Como posso dizer outra coisa?  claro que quero seu filho, Logan. Vamos construir nossa famlia.
   -  uma pena que no possamos comear agora.
   Jessie riu.
   - Ora, quem me ensinou a usar a espera como um instrumento para aguar os sentidos? 
   - Eu. Como fui idiota!
   Mais uma vez, ela pousou a cabea no peito musculoso. 
   - Onde acha que Conner e aquela mulher podem estar? 
   - Gostaria de pensar que meu irmo lembrou-se de que  um Kincaid, no apenas o xerife, e a esqueceu em algum lugar por a.
   - Logan! Devia ter piedade de Conner, meu amor. Ele j fez muito pela famlia, e agora ainda  forado a fazer uma escolha honrada, apesar da dor que vai causar. 
Conner sempre faz o que  certo. No pode ter ressentimentos contra seu irmo por isso. E ele est sozinho, Logan. No h ningum com quem possa dividir a carga.
   - Voc  uma mulher generosa. Mais, muito mais generosa do que eu mereo. Conner sempre trilhou a estrada mais dura e dolorosa. Mas foi terrvel ouvi-lo dizer 
que ficaria contra mim.
   - No seja tolo. Conner no est contra voc, mas a favor da justia. Ele fez um juramento. Representar a lei sempre foi o sonho de seu irmo, e voc e Ty o ajudaram 
a realiz-lo. No pode conden-lo agora.
   - No fique zangada comigo. J admiti que a escolha que ele deve fazer  difcil.
   Jessie girou entre os braos do marido para fitar o lago.
   Logan prosseguiu:
   - No devemos esquecer que Marty tambm ter de fazer uma escolha difcil. Admito que foi duro perdoar Kenny por ter mentido para ns, mas entendo que ele s 
quis proteger o amigo, e por isso disse que eram primos. Acho que Marty j tomou sua deciso. Ele no quer nos deixar. Ouvi o garoto cham-la de me por duas vezes 
nos ltimos dias.
   - Sei que ele nos ama, mas temo que essa mulher o obrigue a segui-la. Gostaria que Conner chegasse e encerrasse de uma vez por todas este tormento.
   - Conner vir, Jess. S espero que Riverton no tenha causado problemas para ele. - A voz dele era contida, e no sentia-se culpado por manter em segredo as notcias 
que Hazer trouxera da cidade com os suprimentos. Era intil preocupar Jessie e sua me, e Dixie estava num estgio da gravidez em que precisava de muita calma e 
repouso. Mas sabia o que havia custado ao irmo escapar de uma cela cheia de serpentes. Era o nico que conhecia o pavor e o dio que Conner sentia pelos rpteis.
   Lembrar do segredo partilhado com o irmo aplacou o ressentimento.
   - Ele vir - repetiu. - Conheo meu irmo, e sei que s uma bala ou uma tempestade o deteriam.
   
   Foi realmente uma tempestade que impediu Conner de seguir em frente. Uma tempestade de paixo. Haviam abandonado a carroa. Belinda estava excitada demais para 
ficar chocada com o poncho estendido sobre a relva, e j havia tirado os sapatos, as meias e o vestido, que fora pendurado num gancho da carroa junto com o cinturo 
de Conner. Ela nem tentara correr ao v-lo tir-lo.
   Ele a fitava com ateno, notando os desenhos que os raios de sol formavam sobre sua pele plida ao ultrapassarem a barreira formada pelos galhos das rvores. 
Estudava o nariz reto, os lbios carnudos generosos, os cabelos louros e encaracolados que desciam como um manto at o meio de suas costas. Sua expresso era um 
misto de ansiedade e alegria.
   Conner recusava-se a ter pressa. De joelhos ao lado dela, perguntou:
   - Tem certeza de que  isto mesmo que quer, minha doce dama? - Sabia que era tolice perguntar, mas no queria ouvir recriminaes mais tarde.
   - Como ainda pode ter dvidas de que o quero? - Estava hipnotizada pelo desejo que via naqueles olhos, pelo toque daquelas mos, pelos sentimentos intensos despertados 
por sua presena.
   - Vamos nos atrasar - ele indicou, enquanto as mos comeavam a vencer a batalha contra os botes da camisa que ela usava sobre a combinao. Durante todo o tempo, 
mantinha-se atento a qualquer sinal de hesitao ou insegurana por parte dela.
   - Atrasar? - ela repetiu num sussurro entorpecido, quieta sob as mos dele.
   Conner sorriu. O fato dela ter esquecido o propsito do encontro devia deix-lo envaidecido, mas tinha dvidas sobre a rapidez com que se submetera s suas carcias.
   De qualquer maneira, continuou explorando o corpo tentador e perfumado. Estava sendo presenteado por uma mulher que desejava intensamente, e seria um tolo caso 
recusasse o presente, se no proporcionasse  dama todo o prazer que seus suspiros aflitos pediam.
   Com um dedo, traou a curva suave de um seio. A camisa fina com seu acabamento feminino de laos e renda contrastava com a pele calejada e escura de sua mo, 
e no representava nenhum obstculo  necessidade de tocar sua pele.
   Conner deslizou um brao sob suas costas e levantou-a, puxando-a lentamente para perto de seus lbios. Com a cabea cada para trs e a boca entreaberta, Belinda 
era a imagem da rendio. O polegar e o indicador fisgaram um mamilo sob a camisa. Pensou em beij-la, mas contentou-se em apreciar o rubor sensual que tingia seu 
rosto. Devagar, paciente e com infinita gentileza, manipulou cada mamilo numa carcia atrevida e provocante.
   Belinda o recompensou com gemidos doces que ameaavam enlouquec-lo; as costas arqueadas pediam mais.
   Os olhos estavam semicerrados, a respirao arfante enquanto ele terminava de abrir a camisa. Sentia-se frgil sob suas mos. Quando ele removeu o tecido de sobre 
seu corpo, Belinda levantou-se e ameaou cobrir os seios com as mos.
   Conner segurou-as e levou-as aos lbios. Uma fragrncia floral desprendia-se dos pulsos delicados, to suave e inebriante quanto a mulher que a usava.
   - No se esconda de mim. - Ele beijou a palma, deslizando os lbios abertos pela poro mais carnuda abaixo do polegar. Mordeu-a com gentileza, sorrindo ao ouvir 
mais um delicioso gemido. 
   - Deixe-me v-la. Quero toc-la - sussurrou com voz ntima que a fez tremer em seus braos. Devagar, conduziu as mos dela at o cho, ao lado da cabea.
   Compelida por um desejo poderoso provocado pelas palavras de Conner, olhou nos olhos dele e sentiu-se impotente contra a paixo que os iluminava.
   - Sabia que seria assim. - Havia algo de sensual em sua voz, e a maneira como o fitava era quase pecaminosa.
   - Assim? - Conner repetiu de maneira a encoraj-la.
   - Sim.
   Sua vaidade de homem havia sido atingida. Teria ela conhecido tantos homens que podia compar-lo aos outros? Imaginava que havia sido sua curiosidade que abrira 
caminho para a intimidade de que desfrutavam.
   - Explique-se melhor - pediu. - Assim como? Lento? Terno? - Era impossvel ignorar os movimentos rpidos dos seios arfantes.
   Belinda lembrou aquela primeira manh. Lento como derreter melao numa manh de inverno. Desejara deixar de pensar nele e na idia de um prazer prolongado. Desejara? 
No. Estava mentindo, ou no estaria seminua, mais que disposta a entregar-se.
   - Experiente - confessou.
   Os olhos castanhos eram inocentes e francos. Ele abaixou a cabea com lentido deliberada para beij-la.
   - Experiente - repetiu, roando os lbios nos dela. - Admito que ningum nunca chamou minha ateno para este aspecto, mas aprecio a confidncia.
   - Disse algo errado?
   - No, minha querida. Diga o que quiser. Pretendo fazer o mesmo.
   - Pensei que honestidade fosse algo que apreciasse, Conner.
   - E acertou. Experincia e honestidade. E isto que a encantadora dama do leste est procurando? Deitar-se com um caubi no meio de um bosque de algodoeiros seria 
assunto interessante para uma conversa ao longo de um ch. No  verdade? - No havia deixado de tocar os lbios dela com os seus, provocante.
   - No. Sim. Voc me confunde, Conner. No menti quando disse que o queria. Nunca disse as mesmas palavras para outro homem.
   Conner sentiu-se paralisado. Conseguira despi-la da pose e do controle. E, no entanto, a voz sombria da razo ainda o atormentava.
   - Por que nunca desejou diz-las, ou por no ter tido uma oportunidade? - perguntou.
   O sorriso indulgente e cheio de expectativas induzia  verdade. Novamente. Esse homem no a deixaria preservar nenhum segredo? Dominada pelo desejo e pela impacincia, 
soube que ele se deteria e iria embora se no respondesse. E a urgncia dolorosa que havia despertado permaneceria sendo apenas isso: uma urgncia insatisfeita. 
A incerteza ainda a fez hesitar por mais um momento.
   - Conner?
   - Sem mentiras. Sem farsas. Voc aprecia a honestidade. Eu a exijo.
   - Nunca disse as palavras para outro homem porque nunca quis diz-las, e porque nunca permiti que ningum se aproximasse o suficiente para me fazer sentir vontade 
de pronunci-las.
   O beijo foi terno, porm sedutor e ntimo, possessivo, e desta vez ela entreabriu os lbios para receb-lo.
   Mas Conner queria mais que resignao ao provar a doura de sua boca. Queria paixo, fogo e entrega total.
   As mos moviam-se sob o corpo dela, erguendo-a, pressionando suas costas para pux-la para mais perto.
   Sabia que deixava uma trilha de fogo em seu pescoo, os dentes mordiscando a pele sensvel e alva dos ombros: Ela tremia a cada nova carcia, e os braos ergueram-se 
para pousar sobre seus ombros fortes. Conner afastou o tecido que o impedia de senti-la diretamente, jogando a. camisa no cho.
   - Voc  linda.
   O tom de aprovao deixou-a mais confiante. Ele a fazia sentir-se bela e desejvel. E Belinda, que jamais aceitara qualquer tipo de dominao, deu a Conner a 
liberdade de provocar e atormentar, agradar e saciar com sua lentido alucinante.
   Ele removeu o brao de suas costas e a fez deitar-se para livr-la da combinao, ltima pea de roupa a cobri-la.
   - Conner.., precisa mesmo tir-la? - ela gaguejou, movendo as pernas com um misto de antecipao, desejo e timidez.
   - O desejo  uma amante exigente, Instvel como o vento. Vamos esquecer as regras da moda para satisfaz-la, est bem? E por voc. Principalmente por voc, por 
sua satisfao. Pelo seu prazer - e deslizou o tecido por sobre os seios arredondados. - A est - sussurrou com voz rouca diante da viso encantadora.
   Belinda tinha a impresso de que desfaleceria. Os cabelos de Conner danavam sobre sua pele sensvel, tocando regies que nem a luz do sol nem os olhos humanos 
jamais haviam visto, muito menos tocado. Sentia-se oscilando  beira de um abismo desconhecido, guiada pelos toques daquelas mos, prestes a entregar o que sempre 
preservara.
   Era pura insanidade.
   Esse foi seu ltimo pensamento antes de Conner comear a saborear um de seus seios como quem prova uma fruta madura e suculenta, provocando sensaes to intensas 
que, dessa vez, teve certeza de que perderia os sentidos.
   O ar quente perfumado pela vegetao e o cheiro do corpo masculino formavam uma combinao que a inebriava. Estava pressionada contra o poncho pelo peso de Conner. 
Os quadris estreitos moviam-se num ritmo constante e lento sobre seu ventre, numa dana de persuaso.
   Podia sentir sua masculinidade excitada contra a juno das coxas, e tinha a sensao de que o absorvia por todos os poros, todos os nervos, at que s existisse 
ele. Beijos cada vez mais exigentes alimentavam a paixo. As mos deslizaram pelos braos dele para irem pousar no pescoo, onde os dedos se cruzaram como se temesse 
v-lo desaparecer.
   Queria toc-lo como ele a tocava. Os dedos pressionavam os msculos poderosos com uma mistura de necessidade e receio. Temia fazer o movimento errado e lev-lo 
a interromper o prazer que ela jamais imaginara ser possvel.
   Seu corpo tremia sob o dele. Conner moveu o pescoo ao perceber que os toques, antes hesitantes, tornavam-se mais firmes. J no se perguntava mais por qu; tudo 
em que pensava era sentir as adorveis pernas de Belinda em torno de sua cintura.
   Ela era quente. Intensificava seu prazer enquanto permitia que seguisse um ritmo prprio, contendo os prprios mpetos para prolongar os momentos de ardor. A 
roupa ntima no era barreira capaz de impedir o calor provocado por seus beijos ousados. Os lbios viajavam pelo ventre plano, pela cintura delgada e pelos seios, 
enquanto as mos sobre os quadris interrompiam os movimentos frenticos para que ele pudesse livr-la do saiote. Os beijos encontraram o tecido mido. Alguns puxes 
mais firmes e a pea de algodo e renda foi juntar-se s outras na relva. A boca tocou uma regio quente cuja umidade era como um convite ao prazer, e uma fina camada 
de suor cobriu seu corpo.
   Belinda deixava-se contagiar pela paixo avassaladora que o dominava, e era como ser arrastada por uma correnteza invencvel. Respondia a cada toque com gritos 
abafados e movimentos aflitos, e descobria que as prprias necessidades alcanavam um patamar assustador e desconhecido.
   Os sussurros roucos eram como um lquido quente sobre a pele, mas a delicadeza das mos era uma splica para que esperasse um pouco mais.
   Com o corao batendo de forma selvagem, Belinda abriu mo da cautela e do bom senso. Inserindo a mo entre os dois corpos, comeou a puxar a camisa que ele ainda 
mantinha. Conner decidiu ajud-la. Depois de um beijo mais profundo que a fez inclinar as costas e jogar a cabea para trs, iniciou a viagem de volta at que os 
lbios pousaram sobre os dela.
   Enlouquecida, ela puxava o tecido e tentava deslizar as mos sobre a pele quente. As costas dele estavam molhadas, mas podia sentir as marcas deixadas por pequenos 
ferimentos.
   O calor que ele emanava a invadia como uma onda gigantesca. Conner despertava dvidas e provocava sensaes surpreendentes. Cada vez que os lbios a tocavam, 
tinha a impresso de ter encontrado o ponto mais vulnervel de seu corpo de mulher, at ele provar o sabor de outro ponto, outro...
   Erguendo o corpo, Conner fitou-a. Os olhos dela brilhavam iluminados pela ansiedade, uma resposta to clara que podia quase toc-la. Ajoelhado, despiu a camisa. 
Se ainda tivesse dvidas sobre o desejo de Belinda, elas teriam sido dizimadas pela maneira encantada como o observava. Jamais sonhara encontrar uma mulher to ardente, 
to destemida ao demonstrar seus sentimentos.
   Mais segura, Belinda sentou-se sobre o poncho e acariciou o peito nu, seguindo as carcias com beijos delicados e insinuantes.
   A cabea virava de um lado para o outro enquanto ela explorava a textura e o gosto de sua pele, os longos cabelos louros tocando-o como a mais fina seda. Conner 
estremeceu e sentiu o sorriso que distendia os lbios dela. Fechando os olhos, entregou-se ao doce tormento e deixou-a desvendar todos os segredos de seu corpo.
   Cada movimento das mos era um passo na direo do clmax, e  certa altura sentiu que no poderia mais conter-se.
   - Para satisfazer sua imensa curiosidade - disse, deitando-a sobre o poncho -, vamos tratar de uma questo urgente que exige ateno imediata.
   Sorrindo, Conner tocou o centro de sua feminilidade e sentiu-se invadido por um fogo intenso ao ouvi-la gemer. Era como acariciar uma ptala de rosa mida depois 
de uma noite de sereno. De repente Belinda gritou o nome dele e foi sacudida por uma seqncia de espasmos violentos.
   Sabendo que tinha de aproveitar o momento, Conner acomodou-se sobre ela e penetrou-a devagar, parando em intervalos regulares para permitir que ela o acomodasse, 
apesar da dor.
   Belinda sentia a dor, como esperava, mas o prazer era maior, muito mais intenso. E a doura com que ele a possua era tanta, que seria capaz de enfrentar o mesmo 
desconforto mil vezes para t-lo novamente em seus braos.
   E ento, mesclando a medida exata de determinao e gentileza, Conner venceu a delicada barreira e abraou-a.
   - Acabou, meu bem - disse, sentindo que a dor mais aguda a surpreendera. - Agora ser apenas o prazer.
   E ele cumpriu a promessa. Movendo-se num ritmo cadenciado que bania de sua mente a lembrana do desconforto, Conner a levou ao xtase mais uma vez, um clmax 
ainda mais completo pelo fato de, dessa vez, ele acompanh-la na viagem alucinante.
   Durante alguns momentos o mundo parou. Depois, devagar como se temesse no ser capaz de sustentar o prprio peso, ele apoiou-se sobre os cotovelos e beijou o 
rosto de Belinda.
   - Curiosidade... - ela sussurrou com um sorriso sonhador, as mos tocando seu rosto com um misto de admirao e carinho.
   - A minha foi satisfeita. E a sua? - Conner devolveu com o mesmo sorriso encantado.
   - Tambm. Voc  um homem especial, xerife. 
   - Eu tento.
   - De minha parte, pode estar certo de que a tentativa foi bem sucedida.
   
   
   CAPTULO XIV
   
   - Grampos para a minha dama. Tantos quantos pude recuperar. - A voz de Conner era indulgente enquanto ele deixava os grampos na depresso formada pela saia entre 
as pernas de Belinda.
   Sentada na carroa, completamente vestida e satisfeita depois de um banho na gua gelada do rio, ela se inclinou para recompens-lo com um beijo apaixonado.
   Conner interrompeu o beijo antes de perder novamente a cabea. Quem era essa mulher capaz de enlouquec-lo, confundi-lo e perturb-lo?
   - Voc  maravilhosa - sussurrou, as mos repousando sobre o banco bem perto dela.
   -  bom saber que fui capaz de agradar.
   - Sem arrependimentos?
   Ela retribuiu o olhar srio e compreendeu que a brincadeira havia acabado. Conteve a primeira resposta, um simples no. Apesar de no sentir-se arrependida pelo 
que acontecera entre eles, tambm percebia a questo silenciosa por trs de suas palavras: por que o escolhera? Especialmente depois de ter deixado claro que no 
haveria conseqncias para o episdio. E por que no? Belinda silenciou a dvida. As razes eram complexas e estava confusa demais para tentar discuti-las agora, 
quando ainda sentia o gosto de Conner nos lbios.
   De repente ele ergueu o corpo e virou-se.
   - Seu silncio  to eloqente quanto as palavras doces que pronunciou em meus braos.  melhor no esperar muito, docinho.  quase hora do almoo. - Exasperado, 
desceu da carroa e foi buscar a camisa e o poncho que deixara na relva.
   O amante doce e de fala mansa havia desaparecido, deixando em seu lugar o duro representante da lei. Belinda abriu a boca para cham-lo, mas o som de cascos atraiu 
sua ateno. Conner j olhava na direo da encosta que marcava o limite da propriedade.
   - Belinda, prepare-se para partir.
   A ordem rpida e tensa a surpreendeu.
   - Por qu? Quem se aproxima?
   - Faa o que estou dizendo, vamos.
   Ele virou-se e jogou a camisa e o poncho na carroa, atrs dela. Belinda no se moveu. Normalmente no estaria to preocupado com a aproximao de cavaleiros, 
mas estavam muito perto do limite do rancho. Um arrepio na nuca o alertava contra o perigo.
   - Conner, o que est acontecendo?
   - Segure isto - ele ordenou, sem se dar ao trabalho de explicar sua estranha atitude.
   Belinda olhou para o rifle e, quando ergueu a cabea, notou que ele j terminava de ajustar o cinturo com o revlver, prendendo a tira de couro em torno da coxa. 
Os movimentos eram calmos e controlados. Tinha a sensao de que ele no queria alarm-la, mas a tenso em seu rosto o traa.
   Conner sabia que no poderia escapar dos quatro cavaleiros na carroa. Se fossem empregados do Rocking K, j o teriam cumprimentado. O silncio significava que 
eram estranhos... ou homens de Riverton. A nica coisa que estava ao seu alcance era zelar pela segurana de Belinda mandando-a embora.
   Afinal, no estavam atrs dela. Ele era o alvo. 
   -  capaz de comandar os cavalos - perguntou, recuperando o rifle que deixara nas mos dela.
   - Acredito que sim. - Os olhos estavam fixos nele, lendo o perigo em seu rosto, mas a voz sugeria calma. - Conner, no vou...
   - Saia daqui - ele ordenou, entregando as rdeas enquanto soltava o breque. - Pela menos uma vez nessa sua vida de menina mimada, cumpra ordens sem discutir. 
Saia daqui e no volte.
   - Quem so aqueles homens?
   Conner adiantou-se um passo e deu um tapa num dos animais. O veculo foi puxado para a frente com uma violncia que a jogou contra o encosto do banco.
   - No vou deix-lo sozinho! - ela gritou, segurando as rdeas com firmeza. Olhando para trs, viu que os quatro desconhecidos aproximavam-se depressa. - Odeio 
cumprir ordens, xerife! - gritou furiosa, obrigando os animais a descreverem um semicrculo amplo.
   Como o sujeito era capaz de imaginar que fugiria e o deixaria sozinho  merc de estranhos? Era evidente que pretendiam fazer algum mal a Conner. Se fossem empregados 
de Charles, sua presena poderia det-los.
   Os cavaleiros seguiam num trote lento, como se no tivessem nada a temer. Belinda puxou o breque, mas no soltou as rdeas.
   - Voc os conhece, Conner?
   - So homens de Riverton - ele respondeu irritado. Reconhecera o capataz do Circle R na frente do grupo.
   - O que querem aqui? Pensei que j houvssemos entrado em suas terras.
   - Mesmo que houvesse uma placa na fronteira, Dacus no sabe ler. Quero que saia daqui, Belinda, antes que eles cheguem mais perto. Tenho certeza de que no iro 
persegui-la. V embora! Vamos, deixe-me aqui!
   - No.
   A resposta breve e calma provocou uma onda de fria to intensa, que Conner sentiu vontade de agredi-la. E atrs da raiva veio o medo por ela. Belinda no sabia 
o que homens como aqueles eram capazes de fazer.
   Conner no tinha iluses sobre a possibilidade de estarem se apresentando para uma visita social. Acabaria tendo de usar a arma. Tinha um instinto bastante aguado, 
e nesse momento ele farejava perigo.
   Joe Dacus cavalgava na frente do pequeno grupo.. Seu cavalo era preto e branco com algumas manchas marrons, e a cauda e a crina eram negras e brilhantes como 
a noite. O animal e o arreio de prata faziam do homem um alvo fcil, mesmo  distncia.
   A tentao era grande. Uma bala e estaria vingado. No estava pensando como o xerife que havia jurado garantir a lei, mas como o homem que quase perdera a vida 
num pesadelo que ainda o acordava no meio da noite.
   Tinha certeza de que Dacus havia sido o responsvel pelo saco cheio de cobras. No podia ter sido mais ningum. Riverton pagava bem a todos os empregados, mas 
Dacus era o nico em sua folha de pagamento em quem confiava para matar por ele.
   Conner respirou fundo a fim de controlar a tenso. Ignorou o som da gua correndo no riacho, dos cascos dos cavalos se aproximando devagar, mas no conseguia 
deixar de ouvir a voz de Belinda.
   - Conner, o homem que vem na frente do grupo  aquele com quem voc discutiu...
   - Sim, aquele  Dacus, o capataz e pistoleiro de Riverton. E atrs dele vem Dillion, seu cordato salvador.
   - Ele salvou minha vida. Ouviu quando ele prometeu esperar por mim. Por que estaria com esses homens? - Sabia que havia algo de muito grave entre os invasores 
e Conner. Nunca vira os outros dois homens no rancho de Charles, e Conner tambm no parecia disposto a apresent-los.
   Um estranho sentimento a invadiu. Um n gelado oprimia seu estmago. O medo crescia  medida em que percebia que os homens se aproximavam lentamente, como se 
soubessem que ningum poderia v-los. Mas temia por Conner, no por si mesma.
   - Eles no podem nos impedir de partir, Conner. Dillion e Joe Dacus sabem que sou hspede no Crcle R. Eles no se atreveriam...
   - Eles so mais atrevidos do que pode imaginar. Tentei preveni-la para ir embora. Agora  tarde demais. Se eu subir nessa carroa com voc, eles cairo sobre 
ns como urubus sobre a carnia. Sei do que esses animais so capazes e... Ah, maldio! Cale a boca, est bem? Se pensa que ser hspede de Riverton  suficiente 
para estar imune, lamento informar que se enganou.
   - No podia deix-lo aqui! - O sussurro de Belinda foi abafado pelos gritos de Dacus.
   - Kincaid! - Ele parou dez metros antes de alcan-los. - Estava esperando por uma chance de encontr-lo sozinho.
   - Se queria o prazer de minha companhia, Dacus, devia ter mandado um bilhete. Mas no estou sozinho. A hspede de seu chefe est comigo. E voc se afastou demais 
de casa, mocinho!
   Preocupada e tensa, Belinda lanou um olhar de reprovao para Conner. A voz de Dacus era maldosa e incitante. Eram quatro, e Conner ainda se dava ao luxo de 
provoc-los.
   Estava afastado da proteo conferida pelos algodoeiros. O sol arrancava reflexos ofuscantes do rifle que segurava com falso descaso. Mesmo sem a camisa, ainda 
parecia sombrio e perigoso. E mantinha-se afastado dela, cerca de trs metros  esquerda da carroa.
   Belinda pensou na pequena pistola de dois tiros que levava na bolsa. Do tamanho da palma da mo, a arma provocava um ferimento mortal a cinco ou seis metros de 
distncia. No que pudesse ter certeza. Nunca chegara a us-la fora da prtica de tiro ao alvo.
   - Conner - sussurrou. - D-me seu rifle.
   - Fique fora disto, Belinda. Se a virem com uma arma, eles a atacaro para roub-la. Uma mulher to elegante da mais fina sociedade do leste no gostaria de sentir 
aquelas mos imundas em seu vestido. E eu mataria o primeiro que se atrevesse a toc-la.
   O comentrio a atingiu. S queria ajud-lo, mas ele insistia em trat-la como se fosse uma idiota indefesa.
   - Voc tem um senso de humor deplorvel, xerife.
   - No queria mesmo ser engraado.
   Suaves e diretas, as palavras a levaram de volta  realidade.
   - Desculpe, Conner. Piorei a situao com minha teimosia.
   Ele no respondeu. No ia mentir, e no podia correr o risco de virar-se para fit-la. Belinda havia percebido o perigo tarde demais.
   Duro, calmo e confiante, observou os quatro cavaleiros se aproximarem e formarem um semicrculo em torno dele. Gostaria de ter posto a camisa, porque sabia o 
que eles pensariam depois de encontr-los juntos, ele com o peito nu e Belinda com os cabelos soltos. Mas tambm era tarde demais para tentar fazer algo a respeito 
das prprias roupas.
   Notou o brilho intenso nos olhos dos homens e lamentou pelo que Belinda seria forada a ouvir, apesar de seu status de hspede de Riverton. E se deixasse o temperamento 
empurr-lo para uma luta, ela poderia ser morta.
   Joe Dacus inclinou-se para a frente, os braos cruzados sobre a sela. Conner o comparava a um touro. O homem era forte, mas no tinha uma nica grama de gordura 
no corpo. Era um lutador traioeiro, e havia aprendido diversos truques sujos na priso de Galveston antes de comear a alugar sua pistola.
   - Rolar na relva com a queridinha do chefe vai lhe custar caro, Kincaid.
   Conner teria sido capaz de mat-lo pelo olhar que lanava na direo de Belinda. Os outros riam. Silencioso, manteve os olhos fixos em Dacus. Um movimento... 
um nico movimento na direo dela...
   Mas Dacus no se moveu. Sabia que Conner s esperava por isso para mat-lo.
   - Belo pedao de terra, Kincaid. Perfeito para um ninho de amor. No sabia que ela era adepta das prticas de Ado e Eva. Sabe de uma coisa, Kincaid? No posso 
culp-lo. Se soubesse que o encanamento da moa precisava de reparos, eu mesmo teria me apresentado para ajud-la.
   A exclamao chocada de Belinda caiu como uma pedra no silncio que se seguiu ao comentrio grosseiro. Conner imaginava quanto tempo ela levaria para entender 
o verdadeiro significado dos insultos.
   O estmago doa em funo do esforo que tinha de fazer para controlar-se. Dacus tambm esperava um movimento tolo, de sua parte para atacar e, para proteger 
Belinda, tinha de relevar as ofensas. No se mexa! mas queria atacar. Deus, como queria arrancar aquele sorriso idiota dos lbios de Dacus e depois cuidar dos outros.
   Quatro contra um no era a pior situao que enfrentara, mas uma nica bala de qualquer um deles o impediria de proteger Belinda. E era essa certeza que o mantinha 
imvel.
   Dacus jogou o chapu para trs e riu.
   - Ser capataz do rancho de Riverton significa que tenho de resolver todos os problemas dele, Kincaid. E voc se transformou num enorme problema. Alm do mais, 
Riverton no vai gostar de saber que andou esticando seu couro com a moa.
   - Pare com isso. - Dillion aproximou o cavalo da montaria de Dacus. - No viemos aqui para insultar a srta. Jarvis. Ela no nos fez nada. E Riverton vai ficar 
ainda mais furioso do que aquelas serpentes que voc cria se souber o que andou dizendo. E no precisamos ficar aqui, dentro da propriedade do xerife, enquanto voc 
se diverte jogando conversa fora. Isso  provocao intil, Dacus.
   - Srta. Jarvis? - o capataz debochou. - Cale a boca, moleque. Damas de verdade no saem por a se deitando com sujeitos como Kincaid. E no precisa ter medo dele, 
meu rapaz, porque o xerife deixou sua coragem na cela h algumas noites, e ainda no conseguiu voltar l para recuper-la.
   Conner no ouviu o gemido ultrajado de Belinda. Os olhos permaneciam cravados no rosto de Dacus. Os dedos tocavam o gatilho do rifle como se j no pudessem mais 
resistir ao impulso de mudar os traos do capataz. Do recanto escuro onde deveria ter permanecido enterrado, o terror de estar sozinho numa cela cheia de cobras 
voltou a invadi-lo. Pensou em si mesmo gelado, colado  parede... apavorado.
   Dacus havia sido o responsvel por aqueles momentos de pnico. E pelo que acabara de dizer, o bastardo havia ficado por perto para apreciar os resultados.
   Conner no sabia de onde havia tirado foras para bloquear a viso de horror. No teve tempo para pensar no assunto, porque um dos outros homens adiantou-se.
   - Amigos, esse homem  meu. O irmo dele me abandonou para morrer no meio do deserto, sozinho e desarmado. Fao questo de retribuir a gentileza, s? Depois mostraremos 
 senorita solitria que ela no precisa desse cholo. Eu serei seu bravo cavaleiro.
   - O que pretende para ele, Billy Jack? - Dacus quis saber. No encarava o homem a seu lado, porque no ousava desviar os olhos de Kincaid. Sabia como o xerife 
era habilidoso com as armas e os punhos. E estava intrigado com a estranha reao de Kincaid s suas provocaes.
   -  tolice insistir nisso, Dacus - Belinda gritou, orgulhosa da voz firme, apesar do medo.
   - Belinda - Conner a preveniu.
   - Isso j foi longe demais. Charles vai ficar furioso quando souber sobre o que aconteceu.
   -  mesmo, moa? - Dacus provocou. - Ainda no fizemos nada alm de nos divertirmos um pouco com o xerife.
   - Sua idia de diverso  revoltante. Primeiro insultou-me, e depois ofendeu a honra de um homem alm do suportvel.
   - Moa, no conheo palavras difceis como as que est dizendo, por isso... cale a boca!
   Belinda engoliu todos os palavres que passaram por sua mente, cada um deles apropriado ao sujeito asqueroso que tinha diante dos olhos. No entendia por que 
Conner ficava ali parado, recusando-se a reagir.
   Dillion a encarava e, ao ver que ela o fitava, balanou a cabea num aviso silencioso. Teimosa, Belinda o ignorou.
   - Dillion, quero que volte ao rancho. Deve haver algum a quem esse... esse homem escute.
   - Senhorita, eu...
   - Garoto, j que est to preocupado com a srta. Jarvis, devia faz-la calar a boca e mant-la fora do meu caminho, ou eu mesmo serei obrigado a cuidar dela.
   Dillion ouviu o tom de ameaa na voz do capataz e fez o cavalo adiantar-se at a carroa, parando bem perto dela.
   - Tentei preveni-la - sussurrou. - O chefe paga meu salrio. No posso ir contra o capataz. Um homem que aceita o dinheiro de outro tem o dever de retribuir com 
trabalho e lealdade.
   - Lealdade? - Odiava ter de desviar a ateno da conversa sussurrada entre Dacus e Billy Jack, mas Dillion havia oferecido uma possibilidade de salvao, e no 
podia deix-la escapar.
   - Chama de lealdade ignorar ou participar dos planos para ferir Conner? Est bem. Voc afirma ser leal quele que paga seu salrio. Posso oferecer mais dinheiro 
do que ganharia em um ano de trabalho no Circle R. Detenha aqueles homens e estabelea seu preo.
   - Sei que uma mulher no pode entender minha posio. Fique quieta, est bem? No deixarei que eles a molestem.
   Mas Belinda estava preocupada com Conner, no com ela mesma. Infelizmente, no podia dizer isso ao peo. Ele acreditava nas mentiras que Dacus dissera a respeito 
de Conner. Ela no podia acreditar.
   - Quem  o outro homem? - perguntou.
   - Webb Fulton. Ele e Dacus so como unha e carne. Dacus salvou a vida dele, e Webb far tudo que o capataz mandar, sempre.
   - Tanta lealdade devia ser recompensada com uma medalha, mas por alguma reao no consigo admir-lo. - O sarcasmo no causou nenhuma impresso em Dillion.
   Conner ouvia a conversa sussurrada s suas costas, mas no ousava virar-se e censurar Belinda. Ela havia conseguido separar o grupo, e graas a ela era obrigado 
a preocupar-se com Dillion atrs dele.
   O homem que conversava com Dacus era o mestio de quem Logan falara. Seu irmo cavalgara com os bandidos, roubando as minas da famlia, mas infelizmente perdera 
a chance de matar o sujeito. Billy Jack Mulero, uma perigosa mistura de mexicano, apache e branco, era to violento quanto traioeiro. Cauteloso, Conner procurou 
por algum sinal de que ele estivesse mascando folhas de coca. Logan comentara que, uma vez sob o efeito da droga, Billy Jack tornava-se ainda mais perigoso. Mas 
o exame no acusou olhos brilhantes e vermelhos, nem movimentos espasmdicos, indicadores seguros.
   Billy Jack no s apreciava jogos de provocao, especialmente quando contava com a companhia dos amigos, como tinha uma fraqueza por mulheres. Jessie teria sido 
uma de suas vtimas, mas escapara do estupro quando ele a atacara num armazm, e no em campo aberto. Como agora.
   O estmago contraiu-se quando pensou em Belinda  merc do bandido sanguinrio. Dacus ria do que Billy Jack dizia. Conner no se atrevia a sair do lugar, mas 
maldizia a prpria sorte por s agora descobrir que o famigerado voltara a fazer parte da folha de pagamento de Riverton.
   Sabia o que era sentir-se entre a rocha e o mar. Eles no o matariam, a menos que planejassem tirar tambm a vida de Belinda, mas pela expresso em seus rostos, 
tinha certeza de que acabaria machucado. Se abrisse fogo, atingiria dois deles. Mas poria Belinda em perigo de ser alvejada por uma bala de Webb antes que pudesse 
acert-lo.
   E havia Dillion... a carta surpresa do baralho de terror.
   Conner comeou a retroceder. O rifle permanecia apoiado em seu brao.
   - Enquanto esto ainda falando, ele vai tentar escapar - Webb gritou, usando a espora para pr o cavalo em movimento e impedir os planos de Conner. Para assegurar-se 
de que conseguiria cont-lo, empunhou a arma. - Acho que devemos atirar de uma vez e encerrar o assunto. A moa no vai falar, porque sabe o que aconteceria com 
ela se nos delatasse.
   - E quem vai preveni-la, Webb? Voc?
   - No vai continuar falando com toda essa valentia quando acabarmos de resolver nosso assunto com voc, xerife!
   - Pela velocidade com que Dacus est agindo, vou acabar morrendo de tdio antes de ser atingido por uma bala. - O cavalo de Dillion comeou a lamber sua nuca. 
Ele empurrou o focinho curioso com fora suficiente para obrigar o animal a retroceder alguns passos.
   - Conner? - Belinda murmurou.
   - Quando eu disparar, mova-se.
   - O que est dizendo a ela, Kincaid? - Dillion quis saber, levando o cavalo de volta e obrigando Conner a afastar-se da carroa.
   - Kincaid no morrer de tdio. Billy Jack me convenceu de que tem direito a vingar-se dos Kincaid. Seus amigos esto apodrecendo na priso por causa de um deles. 
- Dacus olhou para o comparsa e sorriu. 
   - V em frente, Billy Jack. Ele  todo seu.
   Enquanto Dacus falava, Billy Jack havia desenrolado a corda que levava pendurada na sela.
   -  linda, no? Eu mesma a fiz. No meu pas, senorita, o vaquero deve ser habilidoso com sua reata. Ser um prazer ver esse homem da lei fugir de mim.
   - Voc ouviu o que ele disse, Kincaid. - Dacus esporeou o cavalo para impedi-lo de buscar refgio entre as rvores. 
   - Jogue as armas no cho e comece a correr.
   - Faa-os parar! - Belinda gritou, agarrando o brao de Dillion num gesto desesperado. - Est me ouvindo? - insistiu, a voz dominada pelo pnico. - Saberei recompens-lo. 
Cinco mil dlares sero suficientes? - E olhou para Conner. Ele contornava a carroa, mas Webb e Dacus o acompanhavam de perto. Por que ele no atirava nos bandidos? 
- Dez mil dlares, Dillion! Vinte mil!
   Mas o rapaz nem respondia. Dinheiro era a nica arma de que dispunha para ajudar Conner, mas, pela segunda vez na vida, havia se deparado com um homem imune ao 
suborno. A caracterstica, que considerava admirvel em Conner, era uma maldio em Dillion.
   Tocou a bolsa com a ponta da bota. Desesperada para interferir e salvar Conner, deslizou at a ponta do banco e, mantendo um olho em Dillion, inclinou-se para 
peg-la. Ouvindo as horrveis ameaas de Billy Jack, cujos planos para o inimigo era revoltantes, tentou abrir a bolsa com uma das mos.
   - Nem pense em usar sua pistola, srta. Jarvis. Vai acabar ferida.
   - Como soube...?
   - A sra. Dobbs contou ao chefe que a encontrou em seu quarto.  melhor me entregar a arma. - Esquea!
   - Ento jogue a bolsa no fundo da carroa. Assim, no vai machucar ningum e nem ser ferida.
   Belinda resmungou um palavro imprprio para uma dama de sua posio. Dillion desviou os olhos dela como se no a considerasse um desafio. Sem deixar de observ-lo, 
ela soltou o breque do veculo, rezando para que o rapaz no voltasse a observ-la agora.
   Billy Jack girava o lao acima da prpria cabea. A voz assumira uma qualidade musical enquanto ele provocava Conner numa estranha mistura de espanhol, ingls 
e outra linguagem desconhecida, primitiva. Horrorizada, Belinda ouviu o bandido falar sobre sua indeciso: pendurar o inimigo numa rvore, ou arrast-lo com o cavalo.
   Sabia que Conner teria de mover-se em breve. Dessa vez o obedeceria, e agiria no momento certo.
   Tenso, Conner fitava os olhos de Billy Jack, recusando-se a prestar ateno  voz odiosa do oponente. Sabia o que mos habilidosas podiam fazer com uma boa corda. 
Mas preferia observar seus olhos, porque ali veria o primeiro sinal das intenes de Billy Jack.
   O couro da sela de Dacus rangeu quando ele se moveu, bem perto de Conner. Os trs seguiam atentos os movimentos de Billy Jack, que exibia-se com a corda.
   Mudando a posio do rifle sobre o brao, Conner tocou o gatilho. Atirar j no era uma opo. Tinha de agarrar-se  esperana de que Belinda poria a carroa 
em movimento no instante em que disparasse, ou se abaixaria para no ser atingida.
   Queria preveni-la. Queria beijar seus lbios e desejar boa sorte. Queria fazer o tempo voltar e lev-la para sua casa, onde estariam seguros.
   Billy Jack parou de falar.
   Os olhos encontraram os de Conner. 
   Um segundo mais tarde, Conner atirou-se no cho, rolou para o lado e disparou.
   Quando ouviu o primeiro tiro, Belinda estalou as rdeas contra os flancos dos cavalos, que partiram num galope desesperado.
   Dacus caiu para a frente. As mos agarraram o pescoo da montaria em busca de equilbrio. Gritando, ele sentiu a segunda bala de Conner no mesmo ombro em que 
a primeira passara de raspo.
   - V buscar o bastardo e mate-o! - Dacus gritou furioso. No queria mais saber se o chefe o mandara esperar. Encontraria uma forma de fazer essa inesperada oportunidade 
de eliminar o xerife e a jovem do leste funcionar a seu favor. - Vo atrs dela - ordenou a Webb e Dillion.
   Os dois partiram atrs da carroa.
   Restavam apenas Conner e Billy Jack.
   
   
   CAPTULO XV
   
   Conner disparou contra Billy Jack, mas ele se moveu na sela como a gua escorrendo pelos rochedos, conduzindo o cavalo num crculo em torno do inimigo. A corda 
pendia de uma das mos numa ameaa constante.
   Sem a carroa no caminho, Conner teve liberdade para esquivar-se da primeira investida.
   Dacus deixou escapar meia dzia de palavres e lanou a montaria contra Conner.
   Ele disparou mais uma vez, errou e recarregou a arma rapidamente. Depois virou-se e correu para escapar da corda e dos tiros repetidos de Dacus.
   Encontraria proteo se pudesse alcanar o bosque de algodoeiros. A corda de Billy Jack ficaria enroscada nos galhos mais baixos se ele tentasse la-lo.
   Dacus estava atento. J imaginara o que Conner pretendia fazer e, habilidoso, usou o cavalo para impedi-lo de fugir.
   Conner no sabia por quanto tempo seria capaz de manter o jogo. Tentava no pensar em Belinda, mas a imagem dela no saa de sua mente.
   A distrao momentnea permitiu que Dacus se colocasse atrs dele e acertasse um violento pontap na poro inferior de suas costas. Virou-se para disparar, mas 
o rifle estava descarregado.
   O capataz atirou novamente. Conner usou o rifle como uma alavanca e acertou o brao do inimigo. O som da corda girando no ar o preveniu. Rpido, caiu de joelhos 
e escapou do lao ameaador.
   O cavalo de Dacus surgiu diante de seus olhos, desequilibrando-o. O capataz arrancou o rifle de suas mos. Apesar das luvas de couro, o bandido gritou quando 
o metal quente entrou em contato com seus dedos.
   Ocupado com Dacus, Conner ficou vulnervel. Era tudo que Billy Jack esperava para atacar. Aproximando-se, encurralou-o entre a montaria do cmplice e a dele.
   Dacus bateu com o cabo do rifle no ombro de Conner. Billy Jack livrou um p do estribo, fez o cavalo retroceder alguns passos e usou a espora para atingir o peito 
nu de Kincaid.
   Dacus o atingiu mais uma vez com o rifle, jogando-o no cho.
   Os palavres e as gargalhadas dos dois atacantes pareciam vir de um ponto muito distante. A viso estava nublada. A respirao era ofegante por causa da dor. 
Ele ergueu uma das mos e viu sangue... Seu sangue.
   O som da corda girando no ar o preveniu novamente. Conner levantou-se com esforo, oscilando por conta dos golpes e do sangramento abundante no peito. Balanando 
a cabea para clarear a mente, viu a imagem duplicada de Billy Jack cavalgando em sua direo. Tentou desviar-se, mas a corda o envolveu, apertou os braos junto 
ao corpo e comprovou que ele havia feito o movimento errado.
   - Agora arraste-o, homem - Dacus sugeriu, agarrando o brao duplamente ferido e contorcendo-se de dor. 
   - Arraste o bastardo at o inferno e deixe-o l! Quando terminar, encontre-me no rancho.
   Essas foram as ltimas palavras que Conner ouviu. O lao se tornou ainda mais apertado e seus ps foram arrancados do cho. Quando caiu, teve a impresso de que 
todos os ossos se partiam com o impacto violento. O ar foi expulso dos pulmes. Mal conseguia mover as mos para agarrar-se  corda.
   Emitindo um assustador grito de guerra indgena, Billy Jack esporeou o cavalo que, ferido, ergueu as patas dianteiras e partiu num galope alucinado, arrastando 
Conner numa esteira de poeira, sangue e dor. Muita dor...
           mundo se apagou e ele mergulhou num poo escuro onde encontrou o alvio da inconscincia.
   Belinda mal conseguia manter-se sobre o banco da carroa. Os cavalos haviam cerrado os dentes em torno do metal dos arreios, e corriam como loucos pelo terreno 
acidentado.
   Atrs dela, ainda podia ouvir o estrondo provocado pela perseguio. Havia rezado para que os dois homens desistissem dela, mas pelo visto suas preces no seriam 
atendidas.
   Tentava no se deixar dominar pelo pnico, mas no conseguia deixar de temer por Conner. Os ecos dos disparos haviam cessado, mas um horrvel pressentimento oprimia 
seu peito.
   O vento emaranhava seus cabelos. Sentia o gosto amargo do terror. Quando mais precisava do raciocnio para formular um plano, era incapaz de formular um nico 
pensamento coerente.
   Cada solavanco das rodas contra o solo ameaava jog-la longe. Ouviu algum gritar, mas no conseguia compreender o significado das palavras. Voando no veculo 
precrio, tentou recordar todos os detalhes do mapa que havia copiado com fidelidade.
   Mas, enquanto desenhava na mente o contorno da propriedade dos Kincaid, os marcos passavam por ela como imagens borradas sobre uma tela incolor. No tinha a menor 
idia de onde estava.
   Perdida numa terra cheia de pedras e arbustos que ameaavam tombar a carroa a cada metro percorrido.
   Mas voc no est perdida. S precisa diminuir a velocidade dos cavalos e se deixar alcanar. Dillion prometeu que no deixaria ningum machuc-la.
   No!
   Eles a levaro de volta para perto de Conner.
   No posso confiar nele. No devo confiar em ningum. Mas as circunstncias minavam sua resoluo.
   No podia ter esperanas de ser resgatada. Nem era capaz de gritar. No havia saliva suficiente na boca, e a garganta estava contrada num espasmo doloroso.
   Alm do mais, quem a ouviria?
   De repente se deu conta de que Dillion e Webb cavalgavam junto  carroa. Usando as pontas das rdeas como chicotes, incitavam os animais para que ultrapassassem 
a parelha que a conduzia.
   Encurralada, sentiu um grito apavorado brotando do peito. No tinha nenhuma experincia com situaes de risco, e no sabia como agir. Tudo que podia fazer era 
agarrar-se  determinao de no ser agarrada por eles.
   Conner jamais a perdoaria.
   Se ainda estivesse vivo...
   Dillion inclinou-se sobre a sela e estendeu um brao, tentando arrancar as rdeas das mos dela.
   Os braos, os ombros e as costas de Belinda eram uma massa de dor provocada pelo esforo que fazia para controlar os cavalos. Queria coloc-los no caminho da 
montaria de Dillion. Ele teria de desviar para evitar um choque fatal.
   Sentiu que a velocidade da parelha diminua e, com isso, sentiu-se mais animada. Conseguiu completar a manobra enquanto o aviso de Conner sobre o que aqueles 
homens fariam com ela ecoava em sua mente.
   Um estalido chamou sua ateno.
   A primeira coisa em que Belinda pensou foi num tiro. No instante seguinte compreendeu que o rudo viera da madeira da carroa. Uma das rodas traseiras atingira 
uma rocha de tamanho considervel. Escorregando sobre o assento, chocou-se contra o encosto com violncia. As rdeas escaparam de suas mos. A dor nas palmas feridas 
era insuportvel. Tentava manter-se sobre o assento, buscando alguma coisa que pudesse agarrar. Os cabelos emaranhados a cegavam. A roda rachada encontrou outra 
pedra e partiu-se, tombando o veculo. Com o susto, Belinda encontrou flego para gritar. A parelha arrastava o que restava da carroa. Belinda caiu para a frente 
e bateu a cabea. Perdeu o equilbrio, sentiu que estava caindo, mas no conseguia encontrar lugar algum onde pudesse segurar-se.
   Webb havia cortado a ligao entre os cavalos e a carroa e conseguira faz-los parar, mas era tarde demais. A mulher jazia imvel sobre o solo de terra. Dillion 
j havia desmontado, e corria para ela quando o companheiro gritou:
   - Deixe-a!
   - Talvez ainda no esteja morta! Se acha que vou deix-la para os urubus, deve estar maluco!
   - Pense em salvar sua prpria pele, garoto. Os Kincaid viro procur-los. Sei que as coisas no saram conforme o planejado, mas o resultado . o mesmo.
   - De que diabo est falando, Webb?
   - Era isso que o chefe queria. Ela est morta, e Kincaid ser culpado por tudo. Vamos voltar. Temos de contar a Dacus sobre o que aconteceu. Depois viremos deixar 
Kincaid perto dela.
   - Riverton queria a srta. Jarvis morta?
   - Foi o que eu disse. Mas no posso dar mais explicaes, porque no costumo questionar as ordens do chefe. Agora monte, garoto, e vamos sair daqui.
   - No vou deix-la...
   - Se quer ficar, o problema  seu. Mas serei obrigado a tomar providncias para impedi-lo de falar, caso os Kincaid o encontrem - e apontou o rifle. - Vamos, 
no me obrigue a atirar em voc. Ordens so ordens. Se no gosta delas, faa suas malas e desaparea. H muitos homens querendo cavalgar com a equipe de Riverton.
   Dillion olhou para a arma e para o rosto de Webb. No tinha dvidas de que o sujeito o mataria, se julgasse necessrio.
   - Acalme-se, Webb. No vou contrariar as ordens do chefe. Fiquei surpreso com o que acabou de dizer, mas... Tem razo. Ordens so ordens. Vamos embora. - Antes 
de montar, o garoto lanou um ltimo olhar para o corpo inerte de Belinda Jarvis. - No consigo entender - disse, segurando as rdeas para subir na sela. - Seria 
capaz de jurar que o chefe queria se casar com ela.
   Eu tambm.
   Belinda mantinha os olhos fechados e o corpo imvel, atordoada com a queda violenta. Ao ouvir os sons dos cascos cada vez mais distantes, soube que devia se mexer 
e sair dali. Mas o choque de descobrir que Charles a queria morta provocava uma onda de pnico que a paralisava. Por qu?
   Ele no tinha nada a ganhar com seu desaparecimento. S Albert poderia ser beneficiado... Albert?
   Albert e Charles estavam juntos numa conspirao para assassin-la?
   - Conner. - O nome escapou de seus lbios como um gemido e uma splica. Ele tentara preveni-la a respeito de Charles. Virando-se devagar, encolheu-se ao sentir 
uma pedra pontiaguda em contato com o quadril. Era apenas uma massa de hematomas, ferimentos e dor. Muita dor.
   Mexa-se!
   Mas, quando abriu os olhos, o cu girou como um carrossel.
   No vou entrar em pnico. No vou desmaiar. Isso vai passar.
   A voz da razo restabeleceu parte das foras. Quieta, esperou e tentou ignorar as mensagens dolorosas enviadas pelo corpo, ou os pensamentos assustadores sobre 
o que havia acontecido com Conner.
   - No morrerei - sussurrou. - Albert e Charles pagaro por tudo. Juro que os farei pagar.
   Bravas palavras. Mas eram tudo que tinha. O dinheiro no significava nada numa terra onde reinavam os lagartos e as cobras. A posio social no a ajudaria a 
levantar-se e a encontrar Conner.
   Um poo escuro a atraa como um m. Belinda lutou contra o canto da sereia. Tinha de levantar-se. Precisava mover-se.
   O tempo parou. Pensou ter ouvido a voz de Conner murmurando seu nome. Impossvel. Eles iam mat-lo.
   
   Aquele que derrama o sangue humano, pelo homem ter seu sangue derramado.
   Algum pregador havia lido essas mesmas palavras em sua Bblia. Mas, no caso de Billy Jack, no fora o homem que fizera jorrar seu sangue, e sim um cavalo. Que 
Deus
    abenoasse. O animal, perdendo sangue pelos ferimentos provocados pelas esporas do caubi, revoltara-se e jogara longe o cavaleiro. Jamais esqueceria o som 
do pescoo do mestio se partindo ao encontrar uma pedra no solo.
   Assim que pudesse respirar sem sentir dor, faria uma prece e se livraria da corda que ainda envolvia seu corpo.
   Tentou examinar os ferimentos. Nauseado, tonto em funo da perda de sangue, tinha a impresso de que no havia restado um nico milmetro de pele ilesa. Os ossos 
pareciam ter se partido nos minutos em que fora arrastado pelo cavalo.
   A dor era cada vez mais intensa, interferindo em sua capacidade de raciocnio. Conner levantou a cabea. A viso do campo era como uma imagem nublada. A dor aumentava.
   - Belinda... - O nome brotou de seus lbios como um gemido e uma splica. Tentou encontr-la, sabendo que tinha de ajud-la.
   Forou o corpo a sustentar-se sobre os joelhos, uma incrvel demonstrao de fora de vontade, j que uma intensa agonia dilacerava sua mente e a inconscincia 
o chamava de volta como uma feiticeira sedutora, prometendo alvio e esquecimento. Determinado, levantou os braos e livrou-se da corda, abafando um grito aflito. 
Chamou por Belinda novamente, e o pnico levou-o a repetir o chamado vrias vezes. Temia pela prpria vida, por ela, pelo que os esperava... Temia por tudo. Movido 
pelo medo, seguiu repetindo o nome da mulher.
   - Tenho de me levantar...
   Poupe suas foras.
   Ofegante, sustentou-se sobre os joelhos e manteve a cabea baixa enquanto respirava devagar, notando que o sangue pingava do peito e do abdome. Balanou a cabea 
para clarear a viso e tentou pensar.
   Deus olhava pelos tolos. E tambm o abenoara com um cavalo. Se pudesse rastejar, teria a arma de Billy Jack.
   Conner engoliu em seco. A dor o torturava. Obrigou-se a mover-se. Tinha de encontrar Belinda. Mas permanecia apoiado sobre os joelhos e as mos, oscilando para 
a frente e para trs, sentindo-se fraquejar sob uma nova e intensa onda de agonia fsica. Rangeu os dentes para superar o momento de fraqueza.
   O tempo no tinha nenhum significado. No sabia quantos minutos passara naquela posio antes de reunir energia suficiente para rastejar. Espasmos intensos contraam 
seus msculos, obrigando-o a parar at que pudesse controlar os tremores.
   Tinha de parar de pensar na dor. Era necessrio. Concentrando-se em Belinda, nos momentos que antecederam o ataque, e mantendo os pensamentos voltados para sua 
generosa e doce amante, esqueceu o suor que brotava abundante do corpo, lutando contra os efeitos do choque e o apelo da inconscincia.
   O progresso era medido em milmetros enquanto engatinhava. Podia ver uma pedra arredondada, seu objetivo, o apoio que usaria para por-se em p.
   Mexa-se, ou vai morrer aqui. Vamos l. Mais um pouco. Siga em frente.
   Quando estava prestes a perder o que lhe restava de foras, Conner deixou que a culpa superasse todos os outros sentimentos e enchesse sua mente, incitando-o 
a prosseguir.
   Culpa por ter se deixado ficar entre os algodoeiros com Belinda. Se no a houvesse seduzido, j estariam no rancho, sos e salvos. E curiosos. Pagaram um preo 
alto demais pela curiosidade.
   Quando a culpa deixou de funcionar, agarrou-se  vergonha de ter se deixado surrar. De no t-los impedido de atacar uma mulher inocente.
   Que belo homem da lei! Desista, e a vitria ser deles.
   Onde ela estava? O que haviam feito com Belinda?
   A mimada dama do leste. Desobedecera suas ordens. Dissera que no o abandonaria  merc dos bandidos. E fora obrigada a pagar pela desobedincia.
   Conner perdeu os sentidos. Recuperou-os em seguida e teve a impresso de sentir cheiro de medo. O prprio terror.
   - Belinda... - Seu nome era um grito fraco. O corao batia to acelerado que podia senti-lo na boca. O som enchia seus ouvidos. Invocava todos os espritos de 
que podia lembrar-se dos contos indgenas, rezava para Deus e os anjos, e pensou estar sonhando quando sentiu o hlito quente do cavalo em suas costas. Virou-se 
devagar para agarrar o estribo, erguendo-se lentamente at conseguir pendurar-se na sela. O cantil bateu em seu peito.
   Quase sem foras, conseguiu remover a tampa e deixou a gua morna inundar sua garganta, pingar sobre o peito e o ventre. Sentia o gosto da vida no lquido quente. 
O simples ato de ainda poder beber o fez ter esperanas de sobreviver e montar para encontrar Belinda.
   Encontraria Belinda, e faria cada um dos assassinos pagar com a prpria vida por terem ousado feri-Ia.
   Sentiu frio quando finalmente conseguiu montar, uma sensao incmoda que o inundava como uma onda e alimentava sua ira. O rifle pendurado no gancho da sela mudou 
de lugar, indo repousar sobre as coxas do cavaleiro. No sabia se seria capaz de ergu-lo e disparar, mas sentia-se mais seguro assim. Conner agarrou-se  crina 
sedosa, sentindo a raiva crescer em seu peito.
   A famlia toda fazia piadas sobre seu temperamento e o que aconteceria quando ele explodisse. Mas ningum, principalmente Riverton e seus homens, estariam rindo 
quando acabasse de dar vazo  fria violenta que o fazia tremer por dentro.
   Pondo a prpria vida nas mos de Deus, Conner usou os calcanhares para fazer o cavalo andar. No olhou uma nica vez para o corpo que deixava para trs. Billy 
Jack teria feito o mesmo por ele.
   Enquanto procurava Belinda, tinha de manter-se atento a qualquer sinal de Dacus e seus comparsas. S Deus poderia ajud-lo.
   
   
   CAPTULO XVI
   
   Aps uma hora da chegada inesperada de Phillip Jarvis, a apreenso dos Kincaid pela demora de Conner j havia se transformado em temor. Macria ficou incumbida 
de recepcionar o visitante, e notava a admirao em seus olhos cada vez que a fitava. Em outra poca, teria investigado a atrao mtua, mas agora tinha de impedi-lo 
de discutir com Logan, que distribua os rifles entre os membros da equipe de busca.
   - No quero nem saber se  tio dela. No ir conosco - Logan insistia. Havia planejado um curso de ao, e no perderia tempo com o tio de Belinda.
   - Parece que calou as botas de Conner com facilidade, Logan - Ty ofereceu com um sorriso conciliatrio. - Parece estar repetindo as palavras e os gestos de nosso 
irmo num momento de grande arrogncia.
   Logan resmungou uma resposta qualquer e jogou uma arma para o caula, que a transferiu para Hazer, que a passou para Blue Dalton, que a entregou a Moddy Helms, 
que ofereceu-a a Glenn Casey. A sala espaosa estava lotada. Depois de repetir a manobra mais algumas vezes, Logan escolheu um rifle para si mesmo.
   - No deu os novos rifles de repetio a Raphael e Enrique? - Santo estranhou, intercedendo pelo filho e o futuro genro. Entrara na sala apoiado em muletas assim 
que tomara conhecimento dos ltimos eventos. O tornozelo fraturado melhorava depressa, mas sabia que s prejudicaria a misso, se insistisse em acompanhar o grupo.
   Logan lanou um olhar rpido na direo de Ty, que olhou para a me.
   - Quero que Raphael e Enrique fiquem aqui com voc, Santo. Eles sero suas pernas, se acontecer alguma coisa l fora. Riverton  capaz de tudo, e precisamos estar 
preparados.
   O que Logan no disse, nem poderia dizer ao homem que havia sido como um pai para os trs Kincaid, era que desconfiava de Raphael e Enrique. O problema do roubo 
de gado comeara logo depois de Raphael ter levado Enrique para trabalhar no Rocking K. Logan sabia que partiria o corao de Santo e Sofia saber que o filho estava 
supostamente envolvido num ato de traio contra os patres.
   - Ningum questionar as ordens de Logan - Macria anunciou com voz firme antes de encarar o filho. - Ningum, exceto sua me. Permita que Phillip...
   - No, Madre. No posso cuidar dele. Ouviu o que Casey disse sobre o tiroteio na direo do rio Ouajaia. Talvez os disparos estejam relacionados  demora de Conner, 
embora no entenda o que ele possa ter ido fazer naquela regio. No vou correr o risco de ter de socorrer um forasteiro num momento to delicado e perigoso.
   - Macria - Phillip interferiu -, no suplique por mim.
   - Desde quando so ntimos o suficiente para se tratarem pelos primeiros nomes?
   - Logan! No vou admitir que questione meus atos, filho!
   - Nem eu - Phillip acrescentou com tom suave, mas com um olhar duro que conferia uma qualidade definitiva s palavras.
   - No tenho tempo para isso agora - Logan declarou.
   Mas a mo da me agarrando seu brao dizia outra coisa. No gostava da maneira como Phillip colocava-se ao lado de Macria, nem entendia por que ela permitia 
tanta liberdade. As botas do forasteiro brilhavam, e os trajes elegantes o transformavam no homem de aparncia mais formal daqueles reunidos no aposento iluminado. 
Era to alto quanto Logan, esguio, e os traos bronzeados eram emoldurados por cabelos negros, que comeavam e exibir os primeiros reflexos grisalhos.
   - Logan, sei que minha chegada inesperada a esta hora no  algo com que queira lidar, mas estou to preocupado com minha sobrinha quanto voc com seu irmo. 
Insisto em acompanh-lo. E garanto que sou bem preparado para o uso de armas de fogo.
   - Bem preparado? O que faz? Atira nos patos do lago Michigan?
   - Logan! As maneiras que ensinei aos meus filhos so bem melhores do que as que est exibindo. No vou permitir que insulte um hspede em minha casa.
   - S, Madre. Caramba, escutem o homem - Logan resmungou, ignorando as regras de cortesia que a me e Sofia tantas vezes repetiram ao longo dos anos. Virando-se, 
abriu a gaveta de um armrio para apanhar caixas de munio.
   Phillip ficou com uma delas.
   - Estas sero perfeitas para o meu Colt - disse, abrindo o palet para carregar o revlver que levava preso  cintura.
   - No percebi que estava armado.
   - Posso recomendar meu alfaiate, se quiser. Mesmo numa cidade como Chicago pode ser perigoso andar desarmado  noite.
   - timo. Voc tem uma arma. Mas...
   - No se preocupe, Logan - Phillip interrompeu mais uma vez com um sorriso. - Sei us-la para mais coisas do que atingir os patos no lago. Participei da primeira 
Brigada de Atiradores de Illionois sob as ordens do General Jacob Ammen durante a guerra, mas uma bala abreviou minha carreira militar.
   Logan no tinha mais tempo para argumentar. No gostava de ceder, mas no podia recusar o pedido silencioso da me. Resignado, encolheu os ombros e foi falar 
com Jessie.
   - Mantenha os anjinhos perto de casa - disse. - No quero que seja obrigada a sair para ir busc-los. Vocs so importantes demais para mim.
   Jessie assentiu com ar solene.
   - Mantenha a cabea baixa, fora-da-lei. No quero que nada o faa esquecer suas promessas. - Seu sorriso era forado, mas Logan tambm estava tenso quando se 
virou para falar com os integrantes do grupo.
   - Escutem, quero que saibam que no haver meio termo se Riverton houver atacado Conner.
   Os homens concordaram em silncio, os olhos brilhantes e duros com a promessa de violncia.
   Macria reteve o filho e, tocando seu rosto, murmurou:
   - V com Deus, filho - e afastou-se para repetir as mesmas palavras para Ty.
   Logan despediu-se de Jessie com um beijo rpido. Os meninos aproximaram-se e ele os abraou.
   - Kenny, voc  quase um homem. Confio a voc a segurana de Marty e Jessie.
   - Deixe-me ir com voc. Sabe que posso ajudar. Estava com voc e aqueles bandidos quando...
   - Sim, eu me lembro, e tambm lembro que quase o perdi, filho. Jessie poria meu traseiro para secar ao sol se algo lhe acontecesse. Um homem  responsvel pela 
segurana daqueles que ama. Voc  meu filho mais velho, e por isso  o responsvel quanto tenho de me ausentar.
   - Est bem.
   Logan abraou o garoto e abaixou-se diante de Marty. - Prometa-me que vai obedecer a todos que forem mais velhos que voc?
   - Prometo. Promete que no vai deixar aqueles bandidos machucarem Conner?
   -  claro que ele promete - Kenny respondeu por Logan. - A palavra dele  to boa quanto a de qualquer pai.
   -  isso mesmo. Ningum vai se machucar. Agora me d um abrao.
   Marty passou os braos muito magros em torno do pescoo de Logan e sussurrou:
   - Conner ia me trazer uma estrela hoje.
   -E voc a ter. -Nem que para isso tivesse de enfrentar o prprio demnio. Conner era seu irmo, e nada o impediria . de salv-lo.
   - Ty.
   Todos olharam para a soleira onde Dixie esperava ao lado de Sofia. Macria interrompeu a conversa em voz baixa que mantinha com Phillip.
   - Eu disse que devia ficar descansando - Ty respondeu, atravessando a sala para ir ao encontro da esposa. Ele entregou o rifle a Sofia e tomou a jovem nos braos. 
- Ser que nunca me ouve? Precisa cuidar de voc e do nosso beb. E no se atreva a t-lo sem mim, ouviu bem? - e beijou-a.
   - Lembre-se de que eu o amo. Volte para casa inteiro, est bem? Quanto ao beb - ela sorriu -, espero que seja obediente e cumpra as ordens do pai.        
   -  o que tambm espero, amor. - Escondendo o temor que sentia pela esposa e pelo filho, j que os ltimos aborrecimentos podiam dar incio ao trabalho e parto, 
ele recuperou o rifle das mos da governanta e beijou-a no rosto. - Onde est Rosanna? No a vejo em parte alguma.
   - Quem sabe? - Sofia encolheu os ombros. - Ela  sempre assim. Num minuto est aqui, no outro j desapareceu. Vo com Deus, meus filhos, e tragam Conner de volta 
so e salvo,
   - Vamos embora, Logan - Ty sugeriu. Ao virar-se, viu dois rostos sombrios no meio do grupo. Enrique e Raphael. S com grande esforo de vontade conseguiu conter 
a vontade de arrast-los para trs do celeiro e espanc-los at arrancar a verdade sobre os roubos.
   Virando-se, acompanhou o irmo que j deixava a casa. Phillip era o ltimo da fila.
   Macria hesitou antes de segui-los.
   Na frente da casa, Jed Henley, um dos mais antigos empregados do rancho, cuidava dos cavalos.
   - Escolhi cada animal com cuidado - ele disse.
   - Parecem timos - Logan aprovou.
   - Phillip - Macria chamou quando os outros comearam a montar. - Espere um momento, por favor - e levou-o para longe do grupo.
   - Tambm vai despedir-se com um beijo de boa sorte?
   - No. E que...
   - No me pea para ficar agora.
   - Tambm no  este o assunto que quero discutir com voc. Eu... - Normalmente no hesitava diante de decises importantes, mas os olhos negros fixos nos dela 
a faziam esquecer as palavras. Teve de abaixar a cabea para record-las. 
   - Deve ter sido um choque ter viajado at aqui para descobrir que sua sobrinha no estava na casa de Charles. Depois veio  minha casa e soube que ela no chegara 
para a visita que havia prometido ao menino.
   - Ele  meu sobrinho-neto. Marty, como vocs o chamam,  uma rplica do pai.
   - No discutiremos a verdadeira origem do garoto. Temos de considerar os sentimentos dele antes de decidirmos com quem ficar. Amamos aquele menino.
   - Notei assim que entrei, mas...
   - Espere, Phillip. Est me distraindo. S queria dizer que no deve culpar meu filho mais velho, Conner. Ele  um homem honrado, e daria a prpria vida para proteger 
algum sob sua responsabilidade. Se Charles traiu minha amizade e os sentimentos que nos uniram no passado, se feriu meu filho ou sua sobrinha, juro que pagar caro. 
Se ainda respirar, Conner o far pagar.
   - Seu filho deve ser um homem admirvel. Mal posso esperar para conhec-lo. Mas h algo que deve entender, Macria - e tomou as mos dela entre as suas. - Charles 
 um velho amigo. Se algum o far pagar pelos danos que est causando, este algum sou eu. Meu sobrinho Albert desapareceu de Chicago algumas semanas depois de 
Belinda ter partido em sua solitria viagem para localizar o garoto. Tive de procurar por Albert. Belinda no sabe, mas Charles e meu sobrinho mantiveram comunicao 
durante algum tempo. Devia t-la prevenido, em vez de tentar encontr-lo. Eu a mandei para o rancho de Charles certo de que l estaria segura, mas as cartas que 
encontrei eram alarmantes. Belinda tentou me alertar contra Albert, mas eu no dei ouvidos ao que ela dizia. Agora, minha falta de considerao pode t-la posto 
em risco.
   - No sabemos ao certo, Phillip. Mas temos de ter esperana.
   Phillip olhou por cima de um ombro e viu que Logan o fitava com expresso carrancuda.
   - Estou retardando a partida do grupo - disse.
   - Logan no gosta de esperar. V com Deus, Phillip. Que a sorte os acompanhe e os traga de volta sos e salvos.
   - Ei, forasteiro - Logan gritou irritado. - Estamos partindo - e uniu a ao s palavras. - Henley, feche o porto assim que o ltimo de ns sair. Ningum deve 
deixar a casa, entenderam?
   - Estarei na torre cuidando da segurana, patro.
   Phillip montou e seguiu os outros na direo dos muros que cercavam o terreno onde ficavam a casa e os celeiros.
   Logan virou-se para certificar-se de que Phillip os seguia e, exasperado, comentou com o irmo que cavalgava a seu lado.
   - Vou ter uma boa conversa com ele quando voltarmos.
   - Ns dois falaremos com o forasteiro. Mas precisaremos escolher as palavras com cautela. Mame no estava exatamente tentando conquist-lo, mas no podemos esquecer 
que Conner era sua preocupao principal. Uma vez superada...
   - Ah, pelo amor de Deus! Ela vai ser av!
   - O que no significa que seja uma velha.
   -  verdade. Bem, podemos incitar Conner contra o homem...
   Ty riu, lembrando a ira e a incredulidade do primognito quando a me havia falado sobre a inteno de reatar um antigo romance com Charles. Mas o riso desapareceu 
em seguida.
   - Primeiro, Logan, temos de encontrar Conner.
   Como se a idia os enchesse de disposio, ambos esporearam os cavalos e aceleraram o passo, seguidos de perto pelos outros.
   Phillip parecia cavalgar o vento. Numa velocidade espantosa, conseguiu ultrapassar todos os membros do grupo e alcanar os irmos Kincaid.
   Os dois o receberam com olhares duros, mas a atitude altiva do forasteiro os preveniu contra qualquer tentativa de mant-lo alienado.
   Quase uma hora e meia mais tarde alcanaram o rio Ouajaia, marco da fronteira mais distante entre o Rocking K e o Crcle R, de Charles Riverton. Logan no havia 
discutido por que Conner havia estado ali, j que no era a rota mais curta para a casa principal. Lembrou-se de como o irmo tentara convenc-lo sobre a falta de 
atrativos de Belinda Jarvis. Se essa  sua idia de seduo, Conner, juro que acertaremos nossas contas mais tarde, pensou.
   Mas a coceira na nuca, um sinal certo de perigo, desmentiu os pensamentos sobre o irmo.
   Logan ordenou que o grupo diminusse a velocidade para vasculhar a rea, depois deteve os homens antes de alcanarem o bosque de algodoeiros.
   - Ty, voc e Hazer descubram o que aconteceu aqui, antes de pisotearmos as pegadas.
   - Deixe Ty cuidar disso sozinho - Hazer sugeriu. - Santo ensinou a ns dois os mesmos truques, mas os olhos dele so mais jovens que os meus.
   Logan removeu o chapu e limpou o suor da testa antes de devolv-lo  cabea, sempre atento ao cho. Ouvia o som dos cantis sendo destampados. O sol vespertino 
no tinha misericrdia daqueles obrigados a enfrentarem o calor escaldante.
   - Ty...
   - Estou indo - ele respondeu, desmontando e descrevendo um crculo amplo em torno do terreno. Aos poucos ia diminuindo a circunferncia da rea que percorria, 
os olhos atentos e as costas inclinadas numa busca cuidadosa.
   A impacincia marcava os traos de Phillip, mas ele permanecia em silncio. Logan era menos contido.
   - Fale alguma coisa, meu irmo. Esta minha coceira na nuca est ficando cada vez pior.
   - A carroa passou por aqui - Ty anunciou, abaixando-se sobre a relva macia. No precisava dizer aos outros que a grama amassada indicava a presena de um bom 
pedao de tecido sob um peso considervel. Provavelmente dois corpos... Conner e sua dama do leste haviam encontrado um canal de comunicao, afinal. Evitando olhar 
para Logan, levantou-se e prosseguiu: 
   - Trs ou quatro cavaleiros.  difcil dizer, porque as pegadas se misturam. No posso jurar que as marcas de rodas sejam da nossa carroa. Podem ter sido deixadas 
por qualquer outro veculo sem muito peso. Mas minha opinio pessoal  que Conner esteve aqui. E estranho como o cho se divide em grupos de marcas. Como se um cavalo 
houvesse corrido em crculos, ou galopado sem o domnio de um cavaleiro...
   - Como um cavalo fujo, por exemplo? - Casey arriscou.
   - Sim,  isso mesmo. Sei que no faz sentido. Mas apostaria todo meu dinheiro como houve uma luta por aqui. - Ty abaixou-se e pegou um pequeno objeto entre o 
indicador e o polegar. - Grampos de cabelos - identificou, aproximando-se de Logan para mostrar o achado. - O que v aqui? - perguntou.
   - No sei, Ty. Sangue?
   - Foi o que imaginei. Droga! - exclamou, virando-se para a poro de grama amassada. - Logan - chamou, obrigando o irmo a abaixar-se sobre o cavalo para ouvi-lo.
   Notando o ar preocupado do caula, Logan seguiu a direo de seus olhos.
   - J havia notado - disse.
   - O que esto cochichando? - Phillip inquietou-se. - Lembre-se, minha sobrinha est com o irmo de vocs. No sei o que..
   - Conner  o xerife, e h uma antiga rivalidade entre ele e Riverton.
   Enquanto Logan continuava explicando toda a situao ao forasteiro, Ty prosseguiu colhendo pistas. Vrias vezes abaixou-se para apanhar alguma coisa, at que, 
satisfeito, retornou para perto do grupo.
   - O que quer que tenha sido arrastado por um cavalo, estava sangrando. - Dividindo um punhado de fios longos, finos e avermelhados, mostrou-os aos companheiros 
de busca. - O que acham disso?
   - Podem ser humanos, ou de um cavalo. Da crina, talvez. Ou da cauda.
   - Sim, mas vejam como os fios esto enrolados. No conheo muitos homens com tempo ou pacincia para tranar as crinas e as caudas de seus animais. Mas se serviram 
para fazer uma corda...
   - Uma corda de cabelos?
   - Logan, no sei de onde mais podem ter sado esses fios. Eu os encontrei no cho - e virou-se para o grupo. - Conhecem algum que faa cordas com pelos de cavalos?
   - J viram algum do rancho de Riverton com um objeto desse tipo?
   - Outro dia estive no saloon de Rosie e ouvi um mestio se gabando de poder laar qualquer coisa com sua reata - Hazer contou. - Ele disse que havia feito a corda 
com as prprias mos, mas no mencionou o nome de Riverton.
   - Um mestio, Hazer? - Logan perguntou pensativo.
   - Sim, um homem com traos de apache, mexicano e branco. No h muitos como ele por aqui. Pessoalmente, nunca havia visto nenhum em Sweetwater.
   Billy Jack. O nome passou pela mente de Logan como um raio. O instinto dizia que ele havia voltado. Devia t-lo matado quando tive oportunidade.
   - Por que tem tanta certeza de que no enforcaram o homem? - Phillip perguntou. - Aquelas rvores representam uma tentao para algum...
   - Vou me certificar. - Ty afastou-se de cabea erguida, afastando os galhos mais baixos para ter uma viso mais clara. Sentia o estmago oprimido cada vez que 
pensava na associao entre Conner, uma corda e os homens de Riverton.
   - Hazer - Ty chamou.
   - Estou a caminho - o peo gritou ao desmontar, aproximando-se apressado para examinar o bosque. - No creio que uma dessas rvores tenha sido usada para enforcar 
algum. No recentemente.
   Balanando a cabea, Ty voltou para junto do grupo e montou. O empregado imitou-o. Todos esperavam pela deciso de Logan.
   - Vamos nos dividir. Ty, leve Moddy, Blue e Casey com voc. Siga a pista da tal corda. Iremos atrs das marcas da carroa. Se encontrar alguma coisa, atire trs 
vezes seguidas. Faremos a mesma coisa.
   Logan olhou para Phillip e torceu para no ser questionado.
   - Voc vai ficar com Hazer. E antes de protestar, compreenda que s estou pensando em sua proteo. No sei o que nos espera. Voc no conhece esta regio, e 
Hazer pode cavalg-la de olhos vendados.
   - No precisa explicar nada, Logan. Voc est no comando. Vamos em frente.
   E foi o que fizeram. Com os rifles cruzados sobre as pernas, os olhos atentos, partiram em busca de qualquer sinal capaz de indicar que Conner e Belinda estavam 
vivos.
   
   
   CAPTULO XVII
   
   O vento quente cortava a plancie, e Belinda virou o rosto contra o sopro de fogo. Oscilava sobre as pernas, mas ainda no havia desistido de soltar a parelha 
de cavalos das tiras de couro que haviam servido para at-los  carroa. Duas aves muito grandes voavam em crculos sobre sua cabea, aproveitando as correntes de 
ar. Temendo descobrir que eram urubus, em vez de falces, preferiu no olhar para cima.
   Encontrar Conner era seu nico pensamento. Havia deixado de sonhar com gua horas antes. Ou teriam sido minutos? Estava entorpecida de dor e cansao.
   - Ai! - Mais uma vez as mos escorregaram pelas tiras de couro, os pequeninos cortes provocados pelas fibras sangrando em abundncia. A cabea pendeu para a frente 
e ela a apoiou contra o corpo do animal, exausta demais para chorar. Tambores ecoavam em sua mente. Girando a cabea de um lado para o outro, gemeu ao constatar 
que o som persistia.
   Belinda no sabia quanto tempo havia ficado ali, olhando sem ver. A princpio, a sombra lanada sobre a terra no penetrou em seus sentidos aturdidos. Pensou 
tratar-se de uma miragem. Havia visto muitas em suas viagens pelo territrio, quando as ondas de calor danavam entre o solo e o cu. Mas havia algo nessa sombra 
que a forou a erguer a cabea.
   Uma forma escura aproximava-se devagar.
   - No! - O protesto ecoou mais alto em sua mente do que no ambiente que a cercava, mas ainda teve foras para arrancar a pequena pistola da cintura da saia, onde 
a colocara anteriormente. No estava desprotegida. Movendo-se com esforo, conseguiu aproximar-se da parte traseira da carroa, cujo eixo repousava contra o cho. 
No era o melhor dos abrigos, mas era o nico de que dispunha. Encolhida, respirando com dificuldade, sentiu que o medo voltava a domin-la.
   Mais que os urubus voando em crculo sobre sua cabea, temera que algum voltasse para procur-la.
   
   Conner viu os cavalos e livrou-se do torpor. Seguira por uma rota mais longa e circular para evitar o riacho, onde os homens deviam estar procurando por ele. 
Conseguiu guiar o cavalo, sempre seguindo na direo na qual Belinda partira.
   Apesar das dores no corpo, mantinha-se ereto na sela. Em alguns momentos sentira-se prestes a perder os sentidos, e chegara a cair sobre o pescoo do cavalo, 
encolhendo-se em agonia quando os cortes e ferimentos sangrentos roaram contra o couro spero da sela.
   Vendo os cavalos e o ngulo estranho em que pendia a carroa, sentiu uma nova onda de medo. Encontrara algo, mas no sabia se queria aproximar-se para tirar suas 
concluses.
   Um grito rouco ecoou, empurrando Belinda contra o veculo. No sabia se o som havia sido provocado por homem ou animal. Um dos cavalos da parelha bateu as patas 
contra o cho numa espcie de cumprimento. Se houvesse conseguido cortar as amarras, a essa altura estaria longe dali, segura, e no encolhida e tremendo como um 
bezerro que havia se perdido da me. No sabia nem se teria coragem de atirar.
   O som de um objeto tocando a madeira do outro lado da carroa a fez prender o flego. Se ficasse bem quieta, se no respirasse... O pensamento foi interrompido 
bruscamente.
   O grito rouco parecia seu nome.
   Belinda ainda tinha esperanas, e fechou os olhos e rezou.
   Os barulhos, o ranger do couro da sela, os cascos batendo no cho, aproximaram-se. Por necessidade, a prece foi breve. Era hora de vencer a covardia. Agarrando 
a pistola, comeou a levantar-se para olhar por cima do veculo tombado.
   A viso de um cavaleiro solitrio encheu seus olhos de lgrimas.
   - Conner? - sussurrou. Ele se virou em sua direo. 
   - Oh, meu Deus! O que fizeram com voc?
   A metade superior do corpo era uma massa de cortes e hematomas. A cala, ou o que restara dela, estava rasgada e revelava mais feridas em sua pele.
   - Ento est... viva. - As trs palavras provocaram uma dor muito mais intensa do que Conner jamais imaginara ser possvel. O que podia ver de Belinda no era 
muito animador. O vestido imundo e rasgado pendia dos ombros, as mangas feitas em tiras. Um hematoma marcava sua testa, e uma tira de renda mantinha os cabelos afastados 
de seu rosto, amarrados na altura da nuca. 
   - Viva...
   -  claro que sim! Sou forte, Conner.
   - Se no estivesse to ferido... acho que gargalharia.
   - Sinta-se  vontade. Estou precisando de umas boas gargalhadas.
   - A arma...
   - O qu?
   - Guarde a arma. No vai... precisar dela.
   - Oh, sim - ela sorriu, devolvendo a pistola  cintura marcada do vestido. - Pensei que fosse um deles voltando, e por isso me preparei para receb-los.
   As perguntas atropelavam-se em sua mente, mas formul-las estava alm de suas foras.
   - H gua no cantil? - Pensou t-lo visto assentir, mas era difcil ter certeza. Devagar, abandonou a proteo da carroa para ir apanhar o vasilhame.
   - Suas mos...
   - Estava tentando soltar os cavalos. - Belinda bebeu um gole do lquido morno e desejou um barril cheio dele. Sem saber quanto tempo levariam para chegar ao rancho, 
decidiu economizar.
   - Beba mais.
   - No, obrigada. Quer um pouco?
   - No.
   Belinda no estava pensando, e a necessidade de toc-lo foi mais forte que tudo. Apoiou a cabea na coxa de Conner, tomando cuidado para no pressionar os ferimentos.
   Ele sentiu o calor das lgrimas. Com esforo, soltou as rdeas para afagar os longos cabelos encaracolados.
   De repente ela comeou a falar, contando tudo que havia acontecido e mencionando o medo que quase a fizera desfalecer.
   Conner odiava a sensao de impotncia. No podia fazer nada alm de ficar ali, esperando que ela desabafasse e superasse o pior do temor. No podia nem pensar 
em abra-la porque, se desmontasse, no conseguiria voltar  sela. As foras diminuam rapidamente, ameaando abandon-lo.
   Os soluos transformaram-se em gemidos abafados, mas Belinda permanecia na mesma posio.
   - Conner... - ela gemeu aflita. - No quero que morra...
   - No vai... morrer...
   - Estou falando de voc. No quero que voc morra.
   - Ah, sim... No posso morrer agora. Tenho... de ir para casa.
   Ela levantou a cabea para fit-lo e, apesar da dor e do sofrimento, viu um brilho divertido nos olhos cinzentos. Saber que Conner ainda tinha foras para demonstrar 
bom humor a encheu de esperanas.
   Conner olhou em volta e preocupou-se. Logo o sol estaria se pondo, e com a noite viria a queda de temperatura. J podia sentir um arrepio gelado percorrendo seu 
corpo.
   Por alguns segundos quis apenas celebrar a vida, mas no lutara tanto contra a morte para encontr-la nas mos dos homens de Riverton, caso retornassem. Ainda 
no conseguira entender por que eles a deixaram. Belinda dissera alguma coisa, mas estava tonto demais para prestar ateno ao relato. As perguntas teriam de esperar, 
porque nesse momento o mais importante era tir-la dali.
   Olhou para as mos de Belinda. Ela havia se machucado tentando soltar os cavalos. No causaria mais dor do que j suportara. Reunindo o que ainda lhe restava 
de foras para falar, lutou contra o apelo da inconscincia.
   - Suba... - comeou.
   - No fale. Sei que o esforo  doloroso.
   Valente, Conner deu as instrues com poucas palavras, agradecendo  sorte por Belinda obedec-lo sem discutir. Depois de resgatar sua camisa e o poncho na carroa, 
ela montou com cuidado, temendo machuc-lo. Devagar, colocou a camisa fina sobre suas costas. O poncho era grosso demais para ficar entre eles, por isso jogou-o 
sobre os prprios ombros.
   Depois de toda a angstia que causara, ela ainda o tratava com ternura. A culpa agia como uma barreira contra a dor que se renovava constantemente.
   Fizera um juramento. Primeiro a levaria para casa, onde ela estaria segura, e depois a tiraria de sua vida.
   - Podemos ir, Conner - ela disse num sussurro.
   Gostaria de poder falar sobre a culpa que a torturava. Se houvesse sido mais forte, se no tivesse cedido com tanta facilidade ao desejo de t-lo como amante, 
os dois estariam seguros.
   Teve de engolir os soluos que se formavam em seu peito. Piscando, conseguiu conter as lgrimas que ameaavam brotar dos olhos. Era egosmo pensar em dividir 
os sentimentos com ele. O fardo era seu, e teria de carreg-lo sozinha.
   Cada passo do cavalo era um castigo, um golpe que fazia ainda mais intenso o sofrimento fsico provocado pelos momentos de terror que haviam passado nas mos 
dos bandidos.
   A vergonha superou a culpa.
   Logo a famlia dele saberia que no obedecera s ordens de Conner e a culpariam por no ter ido buscar socorro. Ajuda que poderia ter impedido os ferimentos que 
marcavam sua pele. Por outro lado, mesmo que houvesse partido quando ele ordenara, no sabia onde ficava a casa dos Kincaid.
   Queria perguntar a Conner como ele havia se livrado de Dacus e Billy Jack, mas sabia que responder causaria uma dor terrvel, e por isso decidiu poup-lo contendo 
a curiosidade. Era uma maneira de poupar-se, tambm. Nunca convivera com a violncia que via naquela regio, mas nesse momento seria capaz de atirar contra os dois 
homens de Riverton pelos ferimentos que haviam causado a Conner.
   Conner. Tudo que importava era ele. Vivo, apesar de ferido, e capaz de lev-la para casa.
   Mas... e se a culpasse?
   A tenso que a atormentava tambm dominava os pensamentos de Kincaid. O alvio que sentira ao encontr-la viva transformara-se em apreenso, e o silncio de Belinda 
era um indcio de que o culpava por no ter sido capaz de proteg-la.
   O primeiro fracasso havia sido esquecer que era um representante da lei. Havia esquecido tudo em seu desejo de am-la. Com amargura, lembrou algo que ensinara 
aos irmos desde o final da infncia. Oferea prazer a uma mulher antes de satisfazer-se, e ela o convidar a voltar  sua cama.
   Tinha sorte por ela merecer sua confiana pelo menos para lev-la at o rancho. Por outro lado, Belinda no tinha escolha.
   No podia nem mesmo culp-la por odi-lo.
   E ela o odiava, estava certo disso. E o culpava, tambm.
   Era importante que deixasse de pensar em Belinda e pensasse no melhor caminho de volta para casa.
   O murmrio de Conner a despertou de um sono muito leve e, aturdida, ela notou que estavam no alto de uma colina. Os olhos sonolentos viram a casa no centro de 
um terreno bem cuidado, cercado por um muro alto, e a viso foi como um blsamo para os sentidos castigados.
   - Linda - sussurrou, sabendo que era mais que isso. Era o paraso de que ambos precisavam.
   Erguida no terreno espaoso perto de uma nascente de guas cristalinas, a construo em estilo espanhol era protegida por algodoeiros que ofereciam frescor e 
sombra aos habitantes.
   Currais formavam um desenho irregular em torno de um grande celeiro. Cavalos corriam nos pastos cercados, e os pees abandonaram o trabalho para olhar na direo 
da colina. Os sussurros logo se transformaram em gritos.
   Conner no os retribuiu. Era como se toda a concentrao estivesse voltada para os portes de madeira que marcavam a entrada do terreno domstico.
   Havia um moinho de vento parado e silencioso, mas Belinda sabia que a necessidade de gua o poria em movimento. Um vigia observava a regio de uma torre muito 
alta e, ao v-los, ele gritou alguma coisa e desapareceu.
   Homens comearam a surgir do celeiro e dos currais. Havia uma violncia contida nos sussurros que trocavam, como se a viso dos ferimentos de Conner os atingisse 
com um impacto incontrolvel.
   Quanto mais se aproximavam, mais o cheiro dos limoeiros a enchia com uma mensagem de conforto e proteo, um sentimento proveniente do fato de estar afinal entre 
muros, e no em campo aberto.
   Conner devia experimentar sensaes parecidas, porque a tenso desapareceu de seu corpo quando pararam diante dos portes. Segundos mais tarde eles foram abertos 
e o rosto aflito de Macria foi o primeiro a aparecer.
   - Sangre de Cristo! O que fizeram com meu filho?
   - Madre... Nossa hspede...
   Conner caiu para a frente. A queda foi amenizada pelos braos de dois homens muito jovens.
   Belinda afastou-se para que eles pudessem tir-lo do cavalo, e Macria os seguiu quando levaram o patro para o interior da casa.
   - Senhorita, permita-me?
   Belinda viu apenas ombros largos e um rosto gentil quando as mos tocaram sua cintura. No cho, ajeitou o que restava do vestido e, ao erguer a cabea, viu uma 
jovem correndo em sua direo.
   - Deve ser Belinda. Sou Jessie, esposa de Logan. Venha comigo. Estamos todos muito preocupados com vocs - e amparou-a com um brao, conduzindo-a na direo da 
casa. Na porta, ela parou. - Henley, mande algum avisar Logan e Ty. Se conheo minha sogra, ela vai reunir um conselho de guerra.
   - Conselho de guerra? - Belinda repetiu assustada.
   - No se deixe enganar pela gentileza de Macria. Ela vai exigir sangue pelo ultraje cometido contra o filho. E faria o mesmo pelos outros, por qualquer pessoa 
que carregasse o nome Kincaid. - E gritou: 
   - Rosanna, leve gua quente ao meu quarto para Belinda. Sua me deve estar com Conner.
   - E o menino?
   - Marty est com Kenny e minha cunhada Dixie no jardim. As crianas tm um sexto sentido com relao aos problemas dos adultos. Ele vai esperar, apesar de estar 
curioso para conhec-la.
   A mesma palavra novamente. Curioso. No queria ouvi-la nunca mais.
   Quando passaram pela porta de um quarto, viu Macria inclinada sobre a cama de Conner e quis entrar, mas hesitou, temendo incomodar. Ao lado da dona da casa, 
uma mulher baixinha e rolia segurava uma bacia com gua e trocava palavras em espanhol com um homem de cabelos grisalhos, apoiado num par de muletas.
   - Aqueles so Santo e Sofia. Raphael, o filho deles, e Enrique, seu futuro genro, carregaram Conner at aqui.
   - Eu... preciso saber como ele est.
   Foi Santo quem ouviu a voz aflita e aproximou-se da porta.
   - Desculpe, senorita, mas  melhor no entrar agora. La patrona parece uma leoa protegendo o filhote. Acompanhe Jessie. Voc tambm precisa de cuidados. Depois 
irei procur-la e levarei notcias de Conner.
   Tinha de contentar-se com a promessa. Belinda nem havia percebido que estava chorando. Sentiu o brao de Jessie em torno de seus ombros, levando-a para longe. 
Ela era apenas uma mulher vulnervel, ferida e assustada, algum que precisava de ajuda.
   - Conner vai ficar bem. Quando conheci Logan, tambm pensei que ele no resistiria. Nunca conheci algum que houvesse se recuperado to depressa. E Dixie dir 
o mesmo a respeito de Ty.
   Enquanto a levava ao quarto onde vivia com Logan, ela continuava falando sobre os trs irmos. J havia decidido que no havia motivo para anunciar a chegada 
de Phillip Jarvis imediatamente.
   Belinda logo saberia que o primo estava envolvido nos negcios desonestos de Charles Riverton.
   
   
   CAPTULO XVIII
   
   Um banho quente, roupas limpas e um leo analgsico sobre os cortes e arranhes devolveram a Belinda o esprito determinado. Queria saber h quanto tempo chegara 
com Conner, mas Jessie a deixara descansando e no retornara ao quarto. Em vez de repousar, andava de um lado para o outro descala, usando uma mistura de peas 
emprestadas por Macria e Jessie.
   Por que Santo no ia levar notcias de Conner?
   A cadeira de balano num canto chamou sua ateno. Sorrindo, viu uma srie de aventuras infantis sobre a mesa redonda ao lado da cadeira e soube que Conner no 
mentira sobre o amor que Marty recebia naquela casa. Havia tambm uma Bblia, um livro de poesias e um romance para adultos.
   Podia imaginar Jessie sentada com Marty e... Kenny, sim, esse era o nome do outro garoto, a lamparina espalhando sua luz dourada enquanto ela lia um dos livros 
de aventuras.
   Era a imagem da famlia feliz. Podia oferecer o mesmo ao menino? Belinda pensou nos dias que comeavam com o caf na cama e o jornal matinal, os convites e a 
correspondncia, eram quase completamente ocupados pelos negcios e terminavam sempre com funes sociais que a mantinham acordada at o incio da madrugada.
   O que faria com um garoto que desfrutara da liberdade da terra sem fim, que passava seus dias cavalgando e brincando?
   Trocaria essa liberdade por parques e trilhas restritas para a prtica da equitao, aulas de esportes, msica, cincias e at navegao. Mas no seria ela a 
ensin-lo. E tio Phillip tambm vivia muito ocupado com os vrios clubes que freqentava, locais onde no era permitida a entrada de crianas. Que tipo de famlia 
poderiam proporcionar ao pequeno? Aquela que conhecera nos cansativos jantares de domingo que fora obrigada a suportar quando criana? Ou a das festas de aniversrio 
nas quais os adultos eram maioria, e onde sempre sentia-se deslocada?
   Seria justo privar o filho de Robert do lar que os Kincaid haviam oferecido? E do amor. No podia esquecer o amor. Massageando a tmpora, constatou que a questo 
havia se misturado aos sentimentos confusos relativos ao seu relacionamento com Conner. O que acontecera com a convico de que levar Marty de volta para Chicago 
era a nica soluo correta e adequada?
   Como poderia impor a uma criana um estilo de vida do qual desejava escapar?
   Belinda empurrou as questes para o fundo da mente. As batidas na porta atraram sua ateno e, ansiosa, ela foi atender.
   - Tio Phillip? - espantou-se ao ver o rosto conhecido do outro lado. - O que est fazendo aqui?
   As botas sempre brilhantes estavam to empoeiradas quanto o terno, e uma expresso fatigada marcava os traos serenos. Phillip a tomou nos braos.
   - Graas a Deus est salva, minha querida. Quando descobrimos...
   - Espere, espere - ela cortou, empurrando-o com delicadeza para estudar seu rosto. - Primeiro quero saber o que est fazendo aqui. No pode ter respondido ao 
meu telegrama to depressa.
   - Telegrama? No recebi nenhum. Parti poucos dias depois de voc e... Espere um minuto. Deixe-me ir buscar suas coisas. Elas estavam na carroa. - Phillip voltou 
ao corredor para resgatar o ba e a bolsa que deixara no cho. Seguindo a sobrinha ao interior do quarto, deixou os objetos sobre a cama.
   - So presentes para Marty - ela comentou distrada. - Mas ainda no entendi...
   - Vamos com calma, minha querida. Quero ter certeza de que est bem. Aqueles homens a atacaram e...
   - Esquea, tio. Estou bem. Apenas um pouco cansada e preocupada com os ferimentos de Conner, mas bem. No entanto... preciso me sentar - disse, apoiando-se na 
beirada da cama. 
   - V-lo aqui foi mais um choque neste dia repleto de eventos.
   Phillip sentou-se ao lado dela e, tomando suas mos, notou as unhas quebradas e os cortes que cobriam a pele delicada, mas no fez nenhum comentrio.
   - Belinda, receio ter mais uma notcia chocante para voc. Albert desapareceu.
   - Albert? Quando? O que aconteceu?
   - Algumas semanas depois de sua partida, encontrei diversas cartas contendo longas conversas entre Albert e Charles. Seu primo estava dando dinheiro a alguns 
empregados dos nossos currais para lidar com o gado enviado por Charles. Nenhum dos carregamentos aparecia nos registros da companhia.  claro que decidi procurar 
Albert para confront-lo e exigir a verdade, mas fui informado de que ele partira numa longa viagem. A governanta no queria permitir meu acesso ao escritrio particular 
do crpula, mas ignorei os protestos da mulher e praticamente invadi a casa.
   - Posso imaginar.
   - Foi quando descobri que Charles e Albert trocavam correspondncia. O que mais me perturbou foi a freqente meno ao seu nome, bem como perguntas sobre seus 
gostos e preferncias...
   - As cores! Pensei que voc houvesse falado a Riverton sobre minhas cores favoritas. Ele preparou o quarto de hspedes s para me agradar.
   - Riverton? Desde quando deixou de cham-lo de Charles?
   - Desde que os empregados dele tentaram me matar e quase tiraram a vida de Conner.
   - No pode ter certeza...
   - Posso e tenho, tio. Joe Dacus  capataz do Circle R e Rich Dillion foi designado para me acompanhar a todos os lugares. E eles estavam l, fazendo parte do 
grupo que nos atacou. Mas... - inquieta, ela se levantou. 
   - Ainda no concluiu seu relato sobre Albert.
   - Como estava dizendo, fiquei preocupado com o tom das cartas de Charles. Parti assim que encontrei uma referncia a um encontro em Tucson. Ele desapareceu, e 
ento achei melhor vir preveni-la.
   - Tucson? Riverton tambm foi chamado para atender a negcios naquela regio.  evidente que foram se encontrar. Tio Phillip, h algo que deve saber e falou sobre 
o atentado que sofrera na noite em que retornava da cidade em companhia de Dillion.
   Phillip esperou at que ela conclusse o relato.
   - Devia t-la ouvido sobre Albert. No tinha idia de como ele estava desesperado para tir-la do caminho. Sua determinao em encontrar o filho de Robert acabou 
por ajud-lo, especialmente quando decidiu partir nessa viagem perigosa e solitria. Acidentes so comuns no territrio. Quem questionaria sua morte, caso houvesse 
sido atingida por um atirador misterioso?
   - Quem?
   - Belinda.
   Ela se virou para a porta.
   - Conner? Como ele..?
   - Ele quer v-la - Jessie avisou.
   Belinda saiu apressada e atravessou o corredor como se tivesse asa nos ps, mas parou diante da porta do quarto. Enxugou as mos suadas na saia, ajeitou os cabelos 
midos e respirou fundo.
   Consciente da presena de outras pessoas, aproximou-se da cama devagar, os olhos fixos no rosto plido de Conner. Ele estava coberto por um lenol, e os olhos 
cinzentos e profundos eram como poos indecifrveis quando ele sussurrou seu nome.
   - Voc est... bem?
   - Sim, Conner - ela respondeu enquanto se ajoelhava ao lado da cama, sacudida por urna profuso de emoes que no conseguia identificar. 
   - Por favor, no fale. Voc precisa descansar, e eu s queria ter certeza de que...
   - Vou sobreviver - ele tentou sorrir, erguendo um brao para tocar seus cabelos. - Fique... comigo.
   - Sim, no suportaria estar em nenhum outro lugar.
   Ento ele fechou os olhos e deixou a mo cair sobre a cama. Belinda aproximou-se e pousou a testa sobre os dedos longos e bronzeados. No podia compreender por 
que um pedido to simples significava tanto, mas sabia que a promessa de permanecer ao lado dele fora feita por seu corao.
   Algum sussurrou e tossiu, mas Belinda no deu ateno s outras pessoas. Sabia que no estava sozinha com Conner, mas o esforo de mover-se era maior do que 
sentia-se capaz de fazer.
   O aroma relaxante das ervas que cobriam seu corpo penetravam lentamente em seus sentidos. Os olhos foram ficando pesados. Belinda sentou-se no cho e, com o rosto 
apoiado sobre a mo de Conner, mergulhou num sono profundo.
   - Ela vai ter cibras no pescoo quando acordar - Logan disse  me.
   - Deixe-a. A jovem no nos agradecer se a incomodarmos agora. V ver sua esposa, filho. Eu cuidarei de seu irmo.
   - No poder passar muito tempo aqui, Madre. Temos outros planos a fazer. Conner disse que foi Dacus quem comandou o ataque. No podemos deix-lo impune depois 
de to grave ofensa.
   -  claro que no. Logo irei me reunir a voc e Ty, e ento decidiremos o que fazer.
   Logan sabia que a me no deixaria o quarto do irmo enquanto no tivesse certeza de que os ferimentos no provocariam febre, o maior de todos os riscos. At 
l, no havia nada que pudesse fazer alm de esperar.
   No corredor, encontrou a esposa conversando com Phillip.
   - Como est seu irmo? - o hspede perguntou atencioso. 
   - Ele vai ficar bem. Ainda no consegui convencer minha me e sua sobrinha, mas Conner  forte, duro como o ao. 
   - Sua me disse a mesma coisa a respeito dele. Bem, vou deix-los a ss. Mais tarde, Logan, gostaria de conversar com voc sobre o que Conner disse.
   - Irei encontr-lo no escritrio assim que terminar de me lavar - e virou-se para Jessie. 
   - H algum quarto vago que Phillip possa ocupar?
   - Tenho certeza de que sua me e Sofia...
   - Elas esto ocupadas, meu bem. No momento voc  a dona da casa, e temos um hspede que precisa de acomodaes. Jessie sorriu.
   - Vou cuidar disso imediatamente.
   
   Duas horas mais tarde, Phillip e Logan encontraram-se no escritrio. Ty oferecera-se para manter os meninos ocupados e os levara ao estbulo, onde uma gua estava 
prestes a dar cria.
   - Rosanna vai preparar uma refeio para ns - Logan avisou, acomodando-se numa cadeira de couro e convidando Phillip a ocupar a outra. A mesa entre as duas cadeiras 
sustentava pratos com po de milho, bolinhos, po fresco, fils e fatias de presunto.
   - Cerveja, vinho ou...
   - Usque, por favor - Phillip escolheu, servindo-se sem cerimnia. - Por maior que seja o problema, nunca perco o apetite. - Sorrindo, provou o usque que o anfitrio 
servira e suspirou. -  to bom quanto o de Kentucky.
   - Tem razo. Quanto ao problema que mencionou, ele ainda no acabou. Temos de decidir o que fazer com Riverton e seu capataz. Eles precisam pagar pelo que fizeram 
contra Belinda.
   - E seu irmo?
   - Bem, pelo que fizeram a Conner, aqueles sujeitos podem comear a encomendar o prprio enterro. - Logan esvaziou o copo de um gole. 
   - E se acha que estou exagerando, espere at ouvir o que minha me tem a dizer sobre o assunto.
   - Bem, devo admitir que estou aliviado. 
   - Aliviado? Por qu?
   - Pensei que fosse questionar minhas intenes com sua me.
   - No pense que no quero fazer algumas perguntas. Minha me me assaria sobre o braseiro da cozinha, se soubesse. No, Phillip. Limito-me a preveni-lo: ela no 
 uma doce dama do leste. Mame tem um temperamento explosivo, dominador e imperioso, e no poder dizer que a conhece at v-la sacudida por um daqueles ataques 
de raiva. Conner  exatamente como ela.
   Phillip sorriu com um brilho fascinado nos olhos.
   - Considere-me prevenido. Agora, vai me contar o que seu irmo disse? Apesar de tudo que vi, ainda  difcil acreditar que Charles tenha sido capaz de mandar 
seus homens atrs de minha sobrinha. Belinda mencionou que ele fez comentrios, como se quisesse despos-la e assumir o comando da parte dela nos negcios de nossa 
famlia.
   Logan tomou uma deciso. Gostava daquele homem de fala franca e sorriso aberto, e por isso contou a ele sobre todas as suspeitas que os Kincaid abrigavam contra 
Riverton. Foi um desabafo, uma descarga emocional e no deixou de falar nem mesmo sobre o perodo que passara com os fora-da-lei, uma tentativa arriscada de levar 
os bandidos  justia.
   Nenhum deles notou a presena de Macria na porta. Ela ouviu a conversa por alguns instantes e, sorrindo, continuou andando at seu quarto. As velas que acendera 
anteriormente ainda queimavam, e ela se ajoelhou diante do pequeno altar particular para uma prece. Durante cerca de uma hora, rezou pela recuperao do filho e 
pelo bom senso que guiaria os filhos na guerra contra um homem que, depois de anos de suposta amizade, revelara-se seu pior inimigo.
   Ao levantar-se, sentiu o peso da obrigao de decidir por uma vingana.
   A vingana era como uma imagem vagando pela mente de Belinda naquele mundo entre o sono e a viglia. Imaginava-se uma mulher forte impedindo aqueles homens horrveis 
de ferirem Conner.
   Um rudo abafado penetrou em sua conscincia e ela abriu os olhos, virando-se para a porta. Por alguns momentos olhou para o garoto sem acreditar no que via. 
Era como estar diante de uma pequena rplica do irmo!
   S percebeu que pronunciara o nome de Robert quando o menino balanou a cabea.
   - Meu nome  Marty.
   - Sim... Sim,  claro! - e virou-se para Conner, temendo t-lo acordado.
   - Posso v-lo? - Marty perguntou enquanto se aproximava da cama.
   - Sim, mas no deve acord-lo.
   - Sei ser silencioso como um ndio. Hazer me ensinou a rastrear, e para isso  preciso saber mover-se sem fazer nenhum barulho.
   Belinda afastou-se um pouco para que a criana pudesse se aproximar. Gostaria de poder tocar os cabelos dourados como os de Robert, e notou que, perturbado, o 
pequeno mordia o lbio inferior, mais um hbito que herdara do pai. Era triste saber que Robert no veria o filho chegar  maturidade.
   - Kenny disse que Conner vai ficar bem.
   - E ele est certo. Gosta muito de Conner, no ?
   - Sim, muito. Ele ia me trazer uma estrela. E prometeu me nomear seu assistente.
   - Todos devem estar orgulhosos de voc. - Belinda conteve o mpeto de perguntar sobre o amor e o orgulho de Jessie e Logan, porque no queria que o garoto s 
assustasse e fugisse.
   - Voc ... a mulher que veio me buscar?
   - Sou sua tia Belinda. Seu pai era meu irmo mais velho. 
   - Ele... morreu. E minha me tambm.
   - Deve ter sido uma experincia muito dolorosa para voc. Gostaria de ter estado l para ajud-lo. -
    Kenny estava comigo.
   - A dificuldade os aproximou, e  compreensvel que tenham se tornado to dependentes um do outro.
   - Voc no sabe o que eu sinto. No me conhece. Kenny mentiu para Logan para impedir que algum me levasse embora, porque ele sabe sobre os pesadelos e me ajuda 
quando eles acontecem. - O menino falava depressa, atropelando as palavras.
   Belinda fechou os olhos. Se ele a houvesse mandado embora, a declarao no poderia ter sido mais clara. Quando comeara a procurar essa criana, no havia pensado 
no que ela poderia querer. Nas ltimas semanas sofrera tantas mudanas em sua maneira de pensar, que j no podia afirmar nada com absoluta certeza. Legalmente era 
a guardi de Marty e tinha o direito de lev-lo quando partisse. Moralmente...
   - Por que no me lembro de voc? - ele perguntou.
   Conner moveu-se na cama e ela se levantou, pousando um dedo sobre os lbios para pedir silncio. Depois conduziu o garoto at a porta.
   Ansioso, ele continuou perguntando:
   - Nunca sentiu vontade de me conhecer?
   Jessie estava se aproximando da porta quando eles saram do quarto.
   - Marty, eu disse que no devia incomod-la. - Apesar da censura firme, ela no hesitou em receber o menino entre os braos. Ele enterrou o rosto em sua saia 
e ficou ali encolhido, como se temesse alguma ameaa invisvel. 
   - No disse que sua tia iria procur-lo, quando estivesse preparada para conversar? No pedi que no viesse perturb-la com perguntas?
   Marty respondeu com um silencioso movimento afirmativo.
   - Ele tem todo o direito de perguntar, Jessie. - Queria sentir antipatia. Queria sentir ressentimento pela mulher que abraava seu sobrinho como se quisesse proteg-lo 
dos perigos que ela representava. Mas Jessie o apoiara no momento mais difcil de sua vida, como Kenny e toda a famlia Kincaid.
   V-lo agarrado a Jessie a fez perceber o quanto era inadequada s necessidades de um garoto to pequeno. Havia acabado de dizer a Jessie que Marty tinha o direito 
de fazer perguntas, mas precisava de tempo para oferecer respostas honestas.
   No podia censurar o irmo e a cunhada por terem mantido aquela criana longe dela. O menino j havia sofrido demais sem saber sobre os motivos que os mantiveram 
distantes um do outro. Mas no queria que ele pensasse que no havia desejado conhec-lo, porque sentira um enorme amor pelo sobrinho desde o instante em que tomara 
conhecimento de sua chegada ao mundo.
   
   - Vai jantar conosco?
   - Mas Conner...
   - Meu marido e seu tio j jantaram. Logan ficar no quarto de Conner enquanto comemos. - Jessie tocou o rosto de Marty com carinho. 
   - V se lavar. Irei ajud-lo num instante.
   As duas mulheres o viram desaparecer alm da porta de um quarto no final do corredor. Jessie foi a primeira a falar.
   - Temos muito o que conversar, mas podemos esperar at amanh.
   O que no sabiam era que teriam de esperar mais do que imaginavam. No meio da noite os gritos rasgaram o silncio e o rancho se transformou numa praa de guerra.
   
   
   CAPTULO XIX
   
   Belinda acordou de um sono agitado ao ouvir os passos apressados no corredor. Escutava gritos do lado de fora, e parecia que toda a casa estava acordada.
   Vestindo o roupo emprestado, correu para fora do quarto e encontrou os membros da famlia reunidos no ptio, ouvindo o relato de um cavaleiro sobre um estouro 
de boiada.
   - Juro que no percebemos nada, Logan. Tarabee caiu antes que pudssemos reunir o rebanho. Agora restam apenas trs homens lutando contra aqueles bastardos. No 
sei quantos so do outro lado do vale, disparando contra os nossos.
   O badalar furioso dos sinos instalados nos galpes que cercavam o celeiro espalhavam o alarme.
   Belinda mantinha-se afastada, tentando compreender a que se referiam todos aqueles gritos. Vrios homens davam ordens ao mesmo tempo, e vrios grupos obedeciam 
comandos distintos.
   Era como se todos os empregados do Rocking K estivessem acordados, prontos para entrar em ao. Logan e Ty ocupavam o centro do crculo formado pela pequena multido.
   Jessie e Macria correram para dentro de casa no mesmo instante em que Santo, com a ajuda de Sofia, apareceu na porta do chal modesto onde viviam, poucos metros 
distante da casa principal. Eles tambm foram engolidos pela pequena multido de homens aflitos.
   Belinda gritou ao ver o tio, mas ele no pde ouvi-la em meio a tantas vozes alteradas. Os sinos silenciaram. A multido se abriu e ela viu o motivo da sbita 
mudana de disposio. Trs homens conduziam cavalos selados para os portes da propriedade. Jessie passou por ela correndo, os braos repletos de armas que entregou 
a Logan e Ty.
   Belinda estava retrocedendo desde que chegara, e de repente sentiu que a parede da casa a impedia de continuar. Nunca se sentira to intil.
   - Vamos! - A ordem simples teve o poder de pr o grupo em movimento.
   Em minutos todos haviam desaparecido. O cho tremia com o impacto dos cascos, e depois a noite mergulhou num silncio profundo. Era como se os portes fechados 
os isolassem do mundo l fora. Belinda observou o tio e Macria, parados perto da entrada do terreno. Ele pousou um brao sobre os ombros da dona da casa e a fez 
virar-se para voltar para casa. Luz e sombras os envolviam, mas havia claridade suficiente para ver as cabeas juntas. Se falavam, era em voz baixa. Pararam perto 
de Jessie, e ela tambm deu as costas para o porto, aproximando-se de Santo e Sofia.
   Uma maldio em voz baixa chamou a ateno de Belinda, que se virou para a casa. Conner estava parado perto da porta, o peito envolto por ataduras brancas e uma 
das mos apoiada no batente. Kenny, que tentava ajud-lo a manter- se em p usando um ombro como alavanca, reclamava do peso e do esforo que era obrigado a fazer.
   - Ajude-me a levar este teimoso de volta para a cama - ele pediu, lutando para no deix-lo cair.
   - Solte-me. Vou assar seu traseiro... - Conner ameaou.
   - Sou grande demais para isso.
   - Vou lhe mostrar...
   - Conner, pare com isso! - Belinda o censurou ao aproximar-se. - Est plido como as ataduras em seu peito.
   - Kenny tem razo. Seu lugar  na cama. O menino tem mais juzo que voc.
   - O gado  meu. O problema  meu. Ainda sou a lei...
   - Sim, sim,  o representante da lei. - Sabia o que ele estava sentindo. To impotente quanto ela estivera momentos antes. Mas agora deparava-se com algo que 
podia resolver. 
   - Se tentar cavalgar agora, s conseguir piorar sua situao. De que utilidade ser quando seus irmos trouxerem os homens para serem apresentados  justia, 
se no puder andar?
   - No se meta nisso, Belinda.
   - Brigue comigo, se quiser, xerife, mas saiba que no vou desistir de lev-lo de volta ao quarto.
   Antes que pudesse dar mais um passo, o grito de Marty ecoou dentro da casa.
   - Mame Jessie! Mame Jessie! Ela est chamando por voc!
   Assustado, o garoto passou por Kenny e Conner como se . nem os visse.
   - O que aconteceu, Marty? O que houve? Quem est me chamando?
   - Dixie! Ela est toda molhada, e insiste em dizer que o beb vai chegar!
   - Oh, meu Deus!
   - Acalme-se, Jessie. Todos ns devemos manter a calma. - Macria afastou-se de Phillip e dirigiu-se  casa. 
   - Belinda, ajude Kenny a levar meu filho para a cama. E fiquem com ele para impedi-lo de criar mais problemas. Conner, lembre-se de que deve dar o exemplo aos 
mais jovens. Sofia, a cozinha. Temos muito a fazer com a chegada do beb. Jessie, venha me ajudar com Dixie.
   - E eu? - Marty quis saber. - O que posso fazer?
   - Ah, meu corajoso nino. H trabalho para voc, tambm - Macria ajoelhou-se na frente do garoto e ps as mos sobre seus ombros. Ser responsvel pela mais importante 
de todas as tarefas. Cuidar de todos ns.
   - Na torre?
   - Sim, na torre.
   - Quer que eu seja o sentinela? Posso usar o binculo?
   - Sim, sim, como qualquer guarda. - Ela o soltou e Phillip ajudou-a a levantar-se. Por um momento viram Marty pular de alegria antes de correr para Kenny.
   - Voc ouviu? Kenny, ouviu isso?
   Belinda conseguiu convencer Conner a voltar para o quarto, e j estavam comeando a caminhar quando Macria parou no corredor.
   - Sofia, onde est sua filha?
   - Em algum lugar da casa. Ela decidiu passar a noite aqui, caso fosse necessrio. - Sofia virou-se para o marido, que havia parado alguns passos atrs dela. - 
Santo, ouviu Rosanna dizer que preferia dormir aqui?
   - Sim, mas no vi nossa filha l fora. V cham-la - ele ordenou com tom rspido. - Chame Rosanna para la patrona.
   Phillip adiantou-se.
   - V ajudar Macria, Sofia. Eu irei procurar por sua filha. Sentindo que Conner comeava a suar frio, Belinda levou-o de volta ao quarto. Todos ouviam os gemidos 
no ltimo aposento do corredor. Dixie no sofreria em silncio. Assim que entraram, Kenny fechou a porta e esperou.
   - Sinto-me impotente - Conner reclamou ao deitar-se. - Ento somos dois, xerife.
   - Mas voc pode fazer muito por mim. Fique comigo, e j estar sendo de grande utilidade.
   - Quer que eu segure sua mo?
   - J  um bom comeo. Uma dose de usque e estaria completamente perfeito. E se Kenny no estivesse aqui, diria como pode amenizar meu desconforto. 
   - Ei, no se importem comigo. 
   - V buscar um drinque, Kenny. 
   - Mas... voc no bebe, Conner! 
   - No discuta comigo.
   - Acho que uma dose no far mal algum - Belinda opinou. - Ele no devia ter sado da cama. Talvez a bebida o ajude a dormir.
   - Conner, se quer beij-la, v em frente. Juro que no vou olhar. Jessie e Logan no fazem outra coisa o tempo todo. Ele est sempre...
   - Kenny! - Belinda protestou.
   - Um Kincaid nunca fala demais, garoto.
   - Est bem, vou buscar o usque. Baterei na porta ao voltar, est bem?
   - Faa isso - Conner ordenou.
   Belinda esperou at que o menino sasse para dizer:
   - Toda essa tenso  intil. Est ferido, e no h nada que possa fazer para mudar os fatos. Deus sabe que fez o possvel para evitar o ataque. A princpio no 
entendi por que no atirou nos bandidos. Agora sei que arriscou sua vida para me proteger.
   - Era minha nica inteno.
   - Gostaria de poder voltar no tempo e ter obedecido s suas ordens - ela confessou com tom culpado. 
   - Teria procurado ajuda...
   - No teria chegado a tempo, mesmo que soubesse para onde ir.
   - Ento tambm pensou nisso!
   - No importa. Estamos vivos. - E eles pagaro pelo que fizeram.
   - Acho que j falou demais. Sei que  corajoso, Conner.  mais valente do que qualquer outro homem que eu tenha conhecido. Portanto, obedea-me e descanse.
   - Sim, senhorita.
   - No que eu tenha o direito de lhe dar ordens...
   - Permisso concedida.
   - Conner, silncio!
   - Sim, senhorita.
   Belinda encarou-o e teve de morder o lbio para conter o riso. Mas em seguida ele fechou os olhos e, vendo as linhas de cansao em seu rosto, ela compreendeu 
que a piada chegara ao fim.
   Quando tentou afastar-se, ele segurou sua mo e moveu-se, abrindo espao para que ela se sentasse a seu lado na cama.
   Belinda hesitou. Os eventos do dia haviam sido estressantes, mas sentar-se ao lado dele nesse momento de fragilidade parecia a maior de todas as tolices. No 
pelo ato de sentar-se, mas pela tentao de encolher-se ao lado dele.
   Naquele dia havia perdido mais que a virgindade. Abrira mo de vinte e seis anos de conduta impecvel, fazendo tudo que a sociedade considerava correto e prprio, 
para perder-se no desejo por um homem.
   No sabia se devia ser grata a Conner Kincaid ou odi-lo por t-la feito abandonar as regras que sempre governaram sua vida.
   - A deciso  to difcil assim? 
   - No sei se  sensato...
   - No seja sensata.
   - No tenho sido desde o instante em que o conheci. 
   - E isso  ruim? Sente-se perturbada? 
   - No, eu...
   - Mentirosa.
   - Pare de falar, Conner.
   - S se vier sentar-se ao meu lado.
   Talvez fosse a luz suave da lamparina, ou a intimidade criada pela atmosfera do quarto, mas o fato era que se sentia tentada a sentar-se e falar sobre sua confuso. 
E sobre a culpa, a indeciso quanto ao futuro de Marty, aos sentimentos que ele despertava...
   Quando conseguiu tomar uma deciso e preparou-se para falar, Kenny bateu na porta e anunciou: 
   - Sou eu.
   Um grito o seguiu para o interior do quarto. Dixie continuava sofrendo para trazer o filho ao mundo.
   Kenny deixou o copo sobre o criado-mudo e comentou:
   - O beb vai chegar bem depressa. Ty vai ficar furioso por no ter podido estar presente num momento to importante.
   - Kenny, sei que quer ajudar. Marty est sozinho na torre, e estou preocupado. Aquele lugar  muito alto, e ele  s uma criana. Sei que no tenho o direito 
de dar conselhos, mas acho que deve ir fazer companhia ao pobrezinho.
   - Ah, voc tambm? Por que todos me mandam embora? Santo me expulsou do escritrio. Jessie me mandou sair do quarto. Agora  voc quem encontra uma maneira de 
se livrar de mim. Tenho a impresso de que no h mais lugar para mim nesta casa.
   Belinda pensou em cham-lo de volta, mas percebeu o brilho divertido em seus olhos e viu o sorriso que distendia em seus lbios antes dele sair.
   - Foi um truque baixo - disse.
   - No foi um truque. Estou realmente preocupado com o menino na torre. Mas j que estamos sozinhos...
   - Vou ajud-lo a beber o usque, e depois voc vai dormir - ela cortou.
   Inclinando-se sobre Conner, apoiou a cabea dele com uma das mos e segurou o copo com a outra, aproximando-o dos lbios ressequidos.
   A pele estava quente ao toque, mas no o bastante para sugerir uma febre. Os cabelos roavam em seus dedos e os msculos tensos pediam uma boa massagem. Belinda 
no pde deixar de pensar em como retribura com avidez aos beijos que a incendiaram.
   Balanando a cabea, dispersou a imagem. Conner estava ferido! Como podia pensar nisso? Mas, ao fit-lo, viu que ele a encarava. Por alguns momentos teve a impresso 
de que podia ler seus pensamentos. Piscou vrias vezes, mas o convite permanecia ali, estampado nos traos cansados.
   O cheiro forte do usque misturado ao suave perfume de ervas e  fragrncia floral do sabonete com que ele havia sido banhado penetraram em seus sentidos. Era 
uma combinao poderosa, quente, cheia de recordaes que sugeriam amantes em abandono. Intimidade... paixo...
   Tentao. Tolice...
   Mas o olhar de Conner a atraa como um m. Ao sentir a mo acariciando sua coxa, experimentou uma onda de calor to intenso, que temeu desfalecer. Sem perceber, 
comeou a inclinar-se na direo dele, os olhos fechados e a respirao ofegante, os lbios entreabertos numa splica silenciosa.
   O copo caiu de sua mo, derramando o que restava do usque. Aromas potentes desprenderam-se do lquido, misturando-se ao hlito que era como um vapor inebriante 
em seu rosto.
   Os lbios de Conner sussurraram seu nome.
   Belinda suspirou e beijou-o.
   Insanidade! Sabia disso, mas as emoes que aquele homem despertava eram poderosas demais para tentar control-las. O beijo fazia cantar seu corao, e o corpo 
reagia com uma rapidez assustadora.
   Separar-se dele era como perder um pedao de si mesma. Mas o medo de perder tudo que conquistara a fez interromper o contato.
   - No devemos...
   - Belinda, venha aplacar minhas dores.
   Ela fechou os olhos, buscando foras para recusar o pedido. Conner usou a ponta do dedo para acariciar sua perna.
   Lentamente, subiu pelo quadril, passou pelo ventre e tocou um seio.
   - Seu corpo est dizendo sim... - murmurou com voz rouca.
   Experiente, era capaz de reconhecer o desejo que despertava. Admirava a coragem e a determinao de Belinda, mas gostaria que os escrpulos fossem jogados pela 
janela junto com a timidez e a apreenso.
   - Belinda, un beso - pediu. - S um.
   A determinao dissolveu-se sob o calor da voz suplicante. Ela abriu os olhos e fitou-o. A urgncia era to intensa que se tornava quase palpvel. No queria 
afastar-se. No queria ser sensata.
   - Estamos brincando com fogo - disse em voz baixa, os lbios muito prximos dos dele. 
   - Ento venha me queimar.
   Sem vergonha, inclinou-se e beijou-o com paixo. 
   - Fogo.
   Sentia o calor que os envolvia, dando vida ao desejo. Ele a queria com a mesma intensidade dos sentimentos que experimentava. Belinda acariciou os ombros musculosos 
com cuidado, temendo feri-lo. Conner tremeu e ela experimentou um prazer ainda maior por saber que tambm podia acend-lo.
   - Fogo.
   Belinda moveu-se para inclinar o corpo sem tocar a regio mais ferida do peito amplo. Estava perdida no beijo apaixonado. Fogo era a nica palavra que ecoava 
como um mantra em sua mente.
   O eco tornou-se mais alto.
   Conner interrompeu o beijo e murmurou a palavra contra sua boca. Os dedos acariciavam seus seios. Os olhos, escuros como o veludo, estudavam seu rosto em busca 
de sinais da paixo. Beijaram-se novamente, e ela teve a impresso de ouvir o eco do sussurro cruzando sua mente. Fogo. Assustada, afastou-se e encarou-o. 
   - Conner?
   Os dois ouviram o grito. No um eco, mas um alerta. 
   - Fogo! O celeiro est em chamas!
   
   
   CAPTULO XX
   
   - Pelo amor de Deus! Os cavalos! Belinda, ajude-me a calar as botas.
   Maldio! Providencie cobertores! Aqueles bastardos! Apavorada, Belinda ajudou-o com as botas. - Conner, no pode combater um incndio!
   - No posso? E quem mais est aqui para faz-lo? - Pelo menos vista a camisa.
   Surpreso, ele a viu despir o roupo e vestir outra de suas camisas.
   - Apanhe um par de botas de Jessie. Eu a encontrarei no celeiro. - Conner arrancou o cobertor da cama. - Molhe-se. O nico fogo que quero ver em seu corpo  aquele 
que eu acendo.
   A porta da frente estava aberta. Os gritos de Dixie se tornaram mais fracos, mas ainda podiam ser ouvidos do lado de fora. Com a ajuda de Kenny e Jessie, Phillip 
estava removendo a tranca dos portes. Macria ia atrs de Conner ecarregava muitos cobertores.
   - Sofia ficou com Dixie. Santo est to furioso que quase o tranquei no escritrio. Conner...
   - Belinda est a caminho. Teremos mos suficientes para formar uma corrente com os baldes. A nascente est cheia, h muita gua no celeiro, tambm. - Tentou correr, 
mas a dor o fez parar. 
   - Vo indo - disse. 
   - Estarei bem atrs de vocs.
   As chamas podiam ser vistas do porto, e pareciam mais intensas na parede onde se localizava o estbulo. Seus preciosos cavalos! O fogo comeara perto do cho 
e subia voraz pela madeira seca. Ainda havia tempo para tirar os animais do galpo.
   - Conner! Conner, espere por mim - Marty gritou.
   - Volte para casa e fique com Sofia. Ela est sozinha. Melhor ainda, volte para a torre. Precisamos de algum que possa nos avisar, caso haja outro foco de incndio. 
Depressa! - No podia esperar. Se no continuasse em movimento, a dor o derrubaria e Riverton seria o vencedor.
   Belinda alcanou-o pouco antes de chegarem ao celeiro. Podiam ouvir os relinchos desesperados dos animais.
   O fogo era o pior inimigo de um rancheiro, mas era o maior terror de um cavalo.
   Phillip manejava a bomba que ficava atrs do galpo, enquanto Kenny enchia os baldes e os enfileirava no cho.
   - Fique aqui e ajude com a gua - Conner disse a Belinda. A me e Jessie tentavam abrir as portas do celeiro, mas a tranca era pesada demais. Deixando o cobertor 
com Belinda, correu a ajud-las.
   No momento em que as portas se abriram, o cheiro da fumaa invadiu o ar noturno com rapidez espantosa. As colunas escuras subiam como chamins ameaadoras na 
direo do cu estrelado. Jessie e Macria seguravam cobertores ensopados, prontos para serem jogados sobre as cabeas dos cavalos quando eles fossem retirados do 
galpo.
   - Cuide dos que esto mais prximos da porta - Conner ordenou s duas. - Vou buscar os que esto nas baias do fundo. - Despindo a camisa enquanto corria, teve 
a impresso de ouvir apenas os relinchos aflitos dos animais. O pnico o invadiu quando um cobertor molhado foi jogado sobre seus ombros e ele viu Belinda a seu 
lado. 
   - Por que no a impediram de entrar?
   - No h mais ningum para ajud-lo, Conner. Diga-me o que fazer.
   Ele jogou o cobertor ensopado sobre o corpo dela. Seus olhos ardiam e lacrimejavam, e sabia que a garganta doa tanto quanto a dele. Sabia que estava praticamente 
arrastando Belinda, mas temia soltar sua mo e perde-la no meio do celeiro em chamas. Os cavalos moviam-se com desespero dentro das baias, investindo contra as portas 
fechadas enquanto o instinto os empurrava para fora, onde encontrariam segurana.
   A fumaa era cada vez mais espessa, o cheio de couro queimado pairando no ar irrespirvel.
   As chamas alaranjadas lambiam as paredes da sala de ferramentas. Mal podia ouvir a tosse de Belinda enquanto obrigava-se a prosseguir at as ltimas baias. Os 
gritos apavorados cortavam o ar.
   Ao abrir a porta da primeira baia, perdeu Belinda de vista. O garanho ergueu as patas dianteiras num movimento apavorado, mas Conner jogou a camisa sobre sua 
cabea, evitando o golpe dos cascos que teria fraturado seu brao. Rpido, amarrou as pontas da camisa sob o queixo do animal e, tentando tir-lo da baia, chocou-se 
contra a porta. A tarefa era difcil at para um homem em plena sade fsica. Para ele, cheio de ferimentos e fraco em funo da perda de sangue, a misso era quase 
impossvel.
   A dor era como um manto envolvendo todo seu corpo. De repente um par de mos cobriu as dele. Belinda! Ela agarrou a camisa pelo outro lado e, juntos, conseguiram 
tirar o cavalo da baia. Em pnico, o animal correu na direo da porta.
   Os pulmes de Conner precisavam de ar fresco.
   Quando chegaram na porta, Kenny aproximou-se com um pedao de corda.
   - No! - Conner o impediu de entrar. - V abrir a porta do curral!
   Com a ajuda de Belinda, o garoto conseguiu conduzir o primeiro cavalo para dentro da rea cercada, onde outros foram chegando nos minutos que se seguiram.
   - Onde esto as guas?
   - Eu as levei para o pasto - Kenny respondeu. - E sua me levou os bezerros para o curral do outro lado da cerca. 
   - Est bem, vou voltar para dentro do celeiro - Conner anunciou. - Kenny, ajude Phillip com os baldes antes que o fogo se espalhe e destrua tudo. E no deixe 
Belinda vir atrs de mim.
   Kenny olhou para a mulher que, envolta num cobertor ensopado, corria na direo do celeiro.
   - Por que no me pede para provocar uma tempestade, Conner? - o menino gritou. 
   - Seria mais fcil...
   - Provoque uma, se puder - Belinda o aconselhou. - Deus sabe que estamos precisando de chuva.
   Jessie conduzia um potro para o curral alm da cerca. Ela gritou alguma coisa, mas Belinda no pde ouvi-la, e no estava disposta a parar para fazer perguntas. 
Conner entrara no celeiro sozinho, e tinha de ajud-lo.
   Movendo-se s cegas em meio  fumaa escura, ouviu o estalar das chamas. Quente e molhado, o cobertor que devia proteg-la s contribua para a sensao assustadora 
de ter entrado num inferno.
   No conseguia ver Conner. Os ouvidos doam enquanto os relinchos desesperados dos cavalos alcanavam um volume ensurdecedor.
   - Conner! Conner, onde est voc? - gritou, sabendo que ele no a ouviria, mas rezando para que um milagre os ajudasse nesse momento de perigo e terror.
   Tossindo, usou a mo para tatear as paredes e encontrar o caminho. A madeira quente a fez afastar-se. Lgrimas escorriam dos olhos congestionados. Era intil 
piscar; no conseguia enxergar absolutamente nada. Movida por uma espcie de instinto, moveu-se por entre as fileiras de baias e descobriu que aquelas mais prximas 
da sada j haviam sido abertas.
   Deus, ser que cometi um terrvel engano ao entrar?
   Ento ouviu o grito agudo de um animal com dores. Cautelosa, moveu-se passo a passo pelo corredor. Estava fraquejando, mas em algum lugar  frente estavam Conner 
e mais um cavalo.
   Conner conseguiu tirar o jovem garanho da baia, e o estava conduzindo pelo corredor quando viu um vulto encolhido junto a uma das portas. Ainda havia uma gua 
a libertar, mas temia que fosse tarde demais para salv-la. Quem havia voltado ao celeiro?
   O instinto indicava que era Belinda. Conner soltou o animal, mesmo sabendo que se expunha a um terrvel risco. Belinda era mais importante. O cavalo no precisou 
de incentivo para correr na direo da porta aberta, longe do terror. Conner correu para Belinda.
   Ela inclinou-se para a frente, a mo estendida na direo da maaneta. O metal estava quente, mas precisava abrir todas as portas.
   Conner enlaou-a pela cintura, tirou-a do cho e girou-a para o lado. Em seguida, chutou a porta com violncia e encostou-se na parede, esperando que a ltima 
gua corresse rumo  liberdade.
   Belinda sabia que estava perdendo os sentidos. Dominada pela fumaa, enxergava apenas a escurido e no conseguia respirar.
   Conner oscilava sob o peso de Belinda, mas conseguiu recuperar o equilbrio e correu para a porta.
   Rangendo os dentes para suportar a dor e no derrubar a preciosa carga, reuniu todas as foras que lhe restavam para escapar do inferno de fogo e fumaa e reencontrar 
a vida do lado de fora.
   A dor o impedia de respirar. Ondas sucessivas percorriam seu corpo, mas a determinao de vencer todos os obstculos se tornou ainda maior quando ele percebeu 
que Belinda havia desmaiado em seus braos.
   A fumaa o cegava. Conner escorregou, tropeou, recuperou o equilbrio, e depois do que parecia ter sido uma eternidade, finalmente atravessou a porta e viu o 
cu estrelado. Os pulmes se enchiam de ar, mas, mesmo ali fora, a fumaa era espessa e fazia arder os olhos e o nariz. A caminho da passagem utilizada pelos cavalos, 
escorregou mais uma vez e conseguiu manter-se em p.
   Arrancando o cobertor que Belinda usara para cobrir a cabea, ensopou parte dele e usou-o para lavar seu rosto. Repetiu a operao dezenas de vezes, usando o 
choque da gua fria contra a pele quente para traz-la de volta  realidade. A certa altura, Belinda comeou a mover a cabea e gemer.
   Ouvindo a gua jorrar da bomba, Conner virou-se e viu Santo.
   - No h nada de errado com meus braos - o empregado explicou. - Posso ficar em p e manejar a bomba enquanto os outros lutam contra o fogo.
   No podia dizer ao velho amigo que abandonasse a tarefa, porque no havia mais ningum para desempenh-la. Kenny aproximou-se com meia dzia de baldes vazios. 
Em silncio, inclinou-se e pousou as mos sobre os joelhos para respirar, enquanto Santo trabalhava depressa para ench-los. Assim que viu quatro deles cheios, agarrou-os 
e correu para a parte de trs do celeiro.
   Conner tomou uma deciso. Devagar, aproximou-se da bomba, serviu-se de um balde e despejou-o na prpria cabea. O banho frio provocou dores to intensas que temeu 
perder os sentidos, mas renovou as energias.
   - Cuide dela, Santo.
   As chamas eram cada vez mais altas. O dio o encheu de foras. Determinado, passou por Phillip e Macria e, levando um balde em cada mo, foi jogar a gua contra 
o fogo que ameaava destruir o teto do galpo. Kenny tomou para si a tarefa de abastecer os braos de Conner com baldes cheios, enquanto Jessie usava um cobertor 
molhado para investir contra as chamas mais baixas.
   A gua ensopava a madeira das paredes. Gotas frias caam sobre a pele ardente de Conner. Mas ele no sentia nada, no via ningum. Seu nico propsito era apagar 
o fogo e salvar o que fosse possvel do celeiro, impedindo que a destruio atingisse outros edifcios do rancho.
   O mundo reduzira-se  fumaa, ao calor e  luz que se recusava a ceder.
   Algum o armou com um machado. Conner o levantou e abaixou vrias vezes, rasgando a madeira com golpes poderosos, at que uma dor aguda o fez parar.
   Sentindo o peito em brasa, ele caiu de joelhos e derrubou o machado, as mos apertando o trax enquanto tentava respirar.
   Ouviu um grito abafado, mas o esforo de levantar a cabea era maior do que podia suportar.
   - Conner! Oh, meu Deus! - Belinda estendeu a mo para toc-lo, mas retrocedeu no ltimo instante, temendo aumentar seu sofrimento.
   O sussurro desesperado penetrou a nvoa que enchia sua mente. Devagar, virou a cabea e a viu parada a seu lado. O rosto e as roupas estavam cobertos de fuligem, 
os cabelos eram uma massa molhada e emaranhada, evidncia da luta corajosa que travara contra o fogo. Mas estava de joelhos diante dela, abatido e humilhado pela 
dor, e a posio era intolervel.        
   Conner conseguiu plantar um p no cho. O corao batia no peito como se quisesse libertar-se. Ele se preparou para o esforo de levantar-se.
   Belinda aproximou-se com a mo estendida, mas Macria a reteve.
   - Deixe-o! Meu filho no vai agradecer sua ajuda. Ele se levantar sozinho.
   - Mas ele precisa...
   - Silncio!
   - Saia de perto dele, Belinda - Phillip aconselhou, segurando o brao da sobrinha no instante em que Conner levantou-se.
   Belinda livrou-se da mo que a segurava, mas no tentou toc-lo novamente. Ele jogou a cabea para trs e encarou o grupo reunido  sua volta.
   - Voltem para casa. No h mais nada a ser feito. - A voz era desprovida de emoo. Estava ali sozinho, tanto quanto havia sido durante toda a vida, apesar do 
crculo de amigos e familiares.
   Jessie abraou Kenny. Eles foram os primeiros a partir. Belinda resistiu ao incentivo silencioso do tio e permaneceu onde estava. Phillip ofereceu o brao a Macria 
e os dois caminharam juntos de volta  casa.
   - No me ouviu? - Conner perguntou, sentindo a presena de Belinda, apesar dos olhos fechados e do silncio da noite.
   - O fogo est quase extinto, Conner. Voc venceu.
   Olhou para o que restava do celeiro. A fumaa subiu como um dedo negro para o cu, passando pelo espao aberto do telhado em parte desmoronado, mas no havia 
mais focos de incndio. Trabalhara com Jessie e Kenny para ensopar as paredes de madeira antes que o fogo atingisse o meio do edifcio.
   Os cavalos ainda relinchavam, mas o som perdera a qualidade desesperada de antes. A noite foi se tornando mais e mais silenciosa. Belinda ainda esperava por Conner.
   - Ajudei meu pai a construir esse celeiro.
   - Conseguiu salvar os cavalos, Conner. Foi um gesto de valentia, sem falar no prejuzo que conseguiu evitar.
   - Por que ficou?
   - No podia deix-lo sozinho.
   - J disse isso antes, se no estou enganado.
   - Sim. No riacho, quando aqueles homens horrveis nos cercaram.
   - No  capaz de seguir ordens.
   - Tambm j ouvi algo parecido. Teimosa, determinada, obstinada... Minha av costumava dizer que herdei essa obstinao da famlia dela.
   - E seu tio Phillip, o que diz disso?
   - Tio Phillip acredita que podemos sempre aprender novas lies a partir dos erros.
   - Ele  um homem sensato. Meu pai costumava dizer algo parecido. Ele nos ensinou a enfrentar as regras e leis que governam os homens, mas s quando temos certeza 
de que podemos arcar com as conseqncias.
   Belinda tentou sorrir, mas a tenso a impedia de mover os msculos. Conner tambm fazia um grande esforo para manter-se em p.
   De repente ele respirou fundo.
   - Voc  uma mulher e tanto, Belinda Jarvis. Posso ter a honra de acompanh-la at minha casa?
   No sabia de onde ele tirou foras para segurar sua mo e caminhar a seu lado. Muitos homens haviam oferecido elogios e galanteios antes, mas nenhum a deixara 
to feliz e orgulhosa quanto as palavras simples que acabara de ouvir.
   
   
   CAPTULO XXI
   
   Horas mais tarde, quando o amanhecer ainda era apenas uma promessa, todos esperavam reunidos na sala de estar. Os restos de uma refeio leve ainda estavam sobre 
a mesa. Limpos, os ferimentos e queimaduras tratados com ungentos analgsicos, todos tomavam caf forte e esperavam em silncio.
   Kenny e Marty dormiam no sof. Macria e Phillip ocupavam uma poltrona dupla do outro lado da sala. Conner e Belinda estavam frente a frente em cadeiras estofadas, 
e Jessie mantinha-se ao lado da janela, atenta. Santo os deixara pouco antes e ainda no retornara.
   Dixie parou de gritar, depois de alguns instantes, Sofia surgiu na soleira. Apesar do ar exausto, ela parecia muito feliz.
   -  uma menina! - disse. - Uma linda princesa!
   - Uma menina? - Macria repetiu emocionada. - Oh, meu Deus! No imagina a alegria que acaba de me dar, minha queria amiga! E Dixie, como est?
   - Bem. J deve ter adormecido.
   - E a criana? Preciso v-las. Venha comigo, Sofia.
   As duas saram da sala e Phillip props um brinde.
   - Usque para todos?
   - O meu duplo - Conner pediu.
   - Prefiro uma taa de vinho, tio - Belinda optou. 
   - No quero beber nada, obrigada - Jessie recusou. Todos brindaram, mas a expresso de Conner era sombria, como se algo o perturbasse.
   E havia realmente algo a incomod-lo. O usque no tinha o mesmo sabor de antes, porque o gosto amargo da traio era forte em sua boca. Estava esperando pelo 
retorno de Santo. Ele insistira em cuidar do assunto pessoalmente, e nenhum argumento o demovera do propsito de agir segundo sua noo de lealdade. No final, tivera 
de respeitar o desejo do velho amigo de fazer o que considerava correto. Com a cabea inclinada sobre o encosto da cadeira, fechou os olhos e pensou na tolice que 
cometera ao ultrapassar os limites do corpo e da mente. Essa noite aprendera que um homem no pode punir-se sem sofrer as conseqncias impostas pela dor.
   Belinda. Pensar nela era o bastante para perturb-lo. Mas no podia deix-la interferir no que ainda teria de enfrentar. No precisava fit-la para saber que 
o observava. Se a chamasse, ela o atenderia sem nenhuma hesitao.
   Mas no podia cham-la. No podia toc-la, ou fraquejaria e no concluiria a amarga misso.
   Belinda o observava em silncio. Conner parecia estar em estado de alerta, como se esperasse alguma coisa, mas...
   - O qu?
   De repente Santo entrou na sala e ele se levantou, os olhos fixos no amigo e empregado.
   -  hora, patrne - o mexicano anunciou com tom solene.
   - Onde est ela?
   - Ela, quem? - Macria quis saber. Havia acabado de entrar na sala, mas ainda pudera ouvir as ltimas palavras e inquietou-se com a expresso perturbada do filho.
   - Rosanna.
   - Ah, ento a encontraram! Vou com voc, meu filho. Quero falar com Rosanna sobre a maneira como negligenciou seus deveres esta noite.
   - Madre, no ir comigo. Este assunto ser resolvido por ns, Santo e eu.
   - Santo, o que significa tudo isso? Agora sou uma velha que deve ser jogada num canto da prpria casa? O que Conner pode ter a resolver com sua filha?
   Irritado, Conner respondeu pelo empregado.
   - Rosanna vai responder pelo incndio que provocou - explodiu.
   - Conner! No! - Macria gritou. -
    Santo, onde est seu bom senso? Fale com ele? Explique ao meu filho que ele est enganado! Sua filha foi criada em minha casa. Nasceu aqui! Ela no faria isso 
conosco. No pode ser...
   Santo mantinha a cabea baixa, como se o peso da vergonha fosse maior que suas foras. Macria guardou silncio por alguns minutos e, quando voltou a falar, a 
raiva a dominava.
   - Negue este absurdo, Santo. Olhe para mim e diga que tudo no passa de um mal-entendido.
   - Onde est ela, Santo? - Conner adantou-se.
   - No escritrio. - A vergonha e a tristeza coloriam as palavras do velho mexicano. Algum de seu sangue havia trado a honra e a lealdade com que haviam jurado 
servir a famlia que os acolhera. Tinha a impresso de que o cho se abria para trag-lo.
   - Por favor, levante a cabea, amigo - Conner pediu, tentando consolar o homem a quem amava como se fosse seu pai.
   Santo no respondeu. Silencioso, virou-se e saiu apoiado nas muletas, levando com ele todo o peso de uma amarga e dolorosa decepo.
   Conner dirigiu-se a Belinda.
   - Sei que est exausta, mas gostaria que esperasse aqui por mais algum tempo. - No corredor, ele parou diante de Macria. - Me, se pudesse poup-la de todo esse 
sofrimento, juro que no hesitaria. Creia-me, no fao to graves acusaes sem ter noo das conseqncias. S peo que fique fora disso.
   - Conner, por favor...
   - Madre - ele cortou com firmeza. - No tenho escolha. 
   - Sofia morrer de tristeza quando souber... 
   - Ento v prepar-la para o duro golpe. - O que far com Rosanna?
   A resposta foi o silncio. Conner atravessou o corredor e desapareceu alm da porta do escritrio, onde Santo o esperava ao lado da filha.
   Na sala, Phillip tomou as mos de Macria e fitou-a nos olhos.
   - H alguma coisa que eu possa fazer para ajud-la, minha querida?
   - Sabe rezar? Ento reze pelo fim desta noite.
   Ela tentou afastar-se, mas Phillip segurou suas mos com firmeza.
   - Por favor, permita-me acompanh-la. Quero conhecer sua neta. 
   - E olhou para a sobrinha. - Vem conosco, Belinda?
   - No, tio. Quero esperar por Conner.
   - Sabe por que ele acusa Rosanna? - Macria perguntou.
   - No. Tambm no sei por que ele me pediu para esperar aqui. - Mas tenho suspeitas.
   Temendo revelar os pensamentos, ela fechou os olhos e repousou a cabea no encosto da cadeira.
   No escritrio, Conner trancou a porta e entregou a chave a Santo, que se mantinha perto da janela.
   Rosanna, a irm caula que os Kincaid no tiveram, j no era uma menina a ser mimada. Ela mantinha-se apoiada na mesa, os braos atrs do corpo e as mos sobre 
a superfcie da madeira. Os cabelos encaracolados e negros eram mantidos afastados do rosto com a ajuda dos pentes que o prprio Conner havia lhe dado como um presente 
em seu dcimo-quarto aniversrio. A sujeira escurecia o azul celeste da saia azul, e manchas arredondadas indicavam que ela se ajoelhara recentemente. A boca, antes 
sempre distendida num sorriso doce, agora era uma linha fina que sugeria desafio e arrogncia.
   - No sei o que meu pai disse, mas  mentira.
   - Rosanna, quero que me escute em silncio. S fale quando eu fizer alguma pergunta, entendeu?
   - Por que meu pai me trouxe at aqui? No fiz nada!
   - Sei que provocou o incndio, Rosanna. Quero saber quanto recebeu de Riverton para nos trair, e por que ficou do lado daquele bandido.
   - O que vai fazer comigo?
   - Responda! Por favor, Rosanna, no abuse da minha pacincia e da sua sorte. Foi uma noite difcil para todos ns, e no me responsabilizo por meus atos.
   - Riverton odeia voc. Ele  capaz de qualquer coisa para destruir sua famlia. Ele me deu muito dinheiro, barras de ouro - ela contou com tom desafiante, as 
mos na cintura e a cabea erguida.
   - Ento nos vendeu ao inimigo. Deu a ele informaes sobre as minas, o gado e a folha de pagamento. Ps em risco a vida de Logan.
   Temendo que Conner perdesse o controle, Santo decidiu interferir:
   - Exijo que me explique por que desonrou...
   - Desonra? - ela cortou. - Como pode falar em desonra, padre? Sou sua filha, mas os Kincaid sempre vieram em primeiro lugar para voc e minha me. La patrona 
chama, Rosanna deve correr. La patrona precisa, Rosanna tem de atender. Ela est triste, Rosanna, cante uma cano para alegr-la. Ela deseja, Rosanna...
   - Cale-se! No vou permitir que fale com desrespeito de nossa patrona! Foi ela quem a amamentou quando sua me no pde faz-lo. Ela a vestiu. Ela garantiu um 
lugar quente e confortvel par voc, e sempre lhe deu...
   - O qu? As migalhas que restavam em sua mesa? Sim, la patrona sempre foi mais importante que tudo e todos para vocs. E depois dela, os filhos. Nunca pensaram 
o que podiam fazer por seus prprios filhos, no ? O que podiam oferecer a Raphael e Rosanna? At mesmo a terra sobre a qual construram nossa casa pertence a eles. 
Aos sagrados e poderosos Kincaid!
   A bofetada de Conner foi um choque para ela. Jamais o vira erguer a mo para uma mulher.
   - Pea desculpas ao seu pai - ele sussurrou, lutando contra a exploso que se aproximava.
   - Nunca! No disse nenhuma mentira.  isso que os incomoda. Digo sempre a verdade. Meu pai teria dado a vida por voc antes mesmo de pensar em mim.
   De repente uma muleta caiu e Santo levou a mo ao peito.
   - No! - Conner gritou, sustentando-o nos braos e levando-o para a cadeira prxima da escrivaninha. - Providencie conhaque para ele!
   Assustada com a palidez do pai, Rosanna obedeceu sem discutir. Estava tremendo, e Conner tomou o copo da mo dela antes que pudesse aproximar-se de Santo.
   Aos poucos a bebida devolveu a cor ao rosto do velho empregado, que voltou a respirar com regularidade.
   - Deixe-me lev-lo para a cama, amigo. Posso concluir este assunto sozinho.
   - No. Quero ficar at o fim - ele decidiu.
   Com cuidado, Conner o fez acomodar-se melhor e encarou Rosanna, temendo no ser capaz de controlar a fria que o queimava por dentro.
   - Sei que foi movida pela ganncia. E quanto a Enrique? O que o fez participar de toda essa sujeira?
   - Aquele fraco? - A gargalhada debochada inflamou o temperamento de Conner.
   - Voc  noiva do homem que chama de fraco, filha.
   - Por acaso me casei com ele? Acredita mesmo que sou tola? Eu o usei! Enrique dizia coisas que eu vendia. Ele  como Raphael, um brinquedo em minhas mos. Os 
dois acreditavam que voc os recompensaria.
   - E voc sabia que seria diferente?
   Rosanna sorriu, ignorando a pergunta de Conner.
   - Responda ao patrne!
   - Sim, sabia - ela suspirou. - Sempre soube que meu destino seria trabalhar neste rancho at envelhecer. No passaria de uma escrava para os Kincaid, como minha 
me.
   Conner atirou-se sobre a jovem. Ela tentou correr, mas as mos j estavam em torno de seu pescoo.
   - Uma escrava usaria coleira, ou pelo menos a marca do dono!
   Rosanna tremia. O medo abalou sua segurana.
   Santo observava em silncio.
   Conner suava frio. Apavorado, deixou as mos carem ao lado do corpo, a mente tomada pelo que quase havia feito.
   Perturbado, aproximou-se da mesa e retirou o pequeno cofre que guardava em uma das gavetas. Dentro dele havia um pequeno saco de brim.
   - Judas s recebeu trinta moedas de prata. Sua traio lhe valeu mais, Rosanna. Muito mais - e atirou o saco no cho, aos ps dela.
   A jovem no fez meno de apanh-lo.
   - Vamos l! Sua grande ambio  o ouro! A dentro h cinco mil dlares em barras de ouro. Teria sido seu presente de casamento.  claro que tambm pagaramos 
pela festa e pela viagem a San Francisco que tanto queria. E minha me, a mulher que a escravizou, j havia encomendado na Frana o cetim para o vestido de noiva, 
a renda e a seda que vestiriam nossa querida Rosanna. E isto - ele acres- centou, levantando o fundo falso do pequeno cofre -, isto teria sido seu verdadeiro presente 
- e mostrou um pedao de papel. - Mil acres de terra na parte sul do rancho, onde voc e Enrique poderiam construir sua casa. Apesar do que pensava a respeito dele, 
apesar de todas as suspeitas, minha me insistiu nisso. Ela queria que sua felicidade fosse completa. Infelizmente, minha me no  to sensata quanto imaginvamos. 
Ela criou uma cobra que acabou por nos envenenar com suas picadas. Leve seu ouro, Rosanna. Mas esquea o pedao de terra - e rasgou a escritura em vrios pedaos, 
jogando-os no cho enquanto a fitava atento.
   - No quero seu ouro.
   - Encare-o como um pagamento pelos servios prestados em nossa casa. Quero que saia daqui ao amanhecer, e leve com voc a certeza de que s est viva por causa 
do amor que sinto por seus pais. - E aproximou-se de Santo, ajudando-o a levantar-se. 
   - Venha comigo, amigo. Acabou.
   - No. - Santo olhava para a filha. - Lamento a perda de minha menina. Agora ela no faz mais parte de nossa famlia. Ser riscada de nossa lembrana como se 
jamais houvesse nascido. V embora, como o patrne ordenou, e no volte nunca mais.
   - Padre!
   - Voc no tem pai. Leve-me daqui, Conner. No quero respirar o mesmo ar que essa... essa traidora suja.
   - Acha que venceu, patrne? - ela gritou desesperada.
   Conner continuou andando. Santo entregou a chave quando se aproximaram da porta, mas ao gir-la na fechadura, ele ouviu as palavras de Rosanna e sentiu o sangue 
ferver nas veias.
   - V olhar a bolsa da fina dama que trouxe  sua honrada casa, senor. E veja quem  a verdadeira traidora sob seu teto.
   - Que mentiras...
   - No se incomode, Santo. No darei ouvidos ao que diz uma mentirosa. - Mas j ouvira o que ela dissera.
   - No se perguntou como Charles sabia onde atacar esta noite? Como ele podia saber onde no havia guardas?
   Conner abriu a porta e empurrou Santo para o corredor.
   Antes que pudesse sair, Rosanna passou pela soleira como um furaco e correu na direo do quarto de hspedes onde Belinda fora instalada.
   - V atrs dela - Santo ordenou.
   Conner apressou-se. No queria que ela tivesse tempo para plantar falsas evidncias. Ao empurrar a porta, quase atropelou Rosanna.
   - Olhe! - ele apontou para a bolsa deixada sobre a cmoda. - Est com medo?
   - Voc recebeu ordens para deixar esta casa.
   -  s isso que tem a dizer? Olhe a bolsa! Olhe! - e agarrou o pequeno objeto, abrindo-o com um movimento brusco. - Aqui est - declarou, desdobrando um pedao 
de papel e empurrando-o contra o peito do dono da casa.
   De repente ela olhou para a porta e viu Belinda parada com uma das mos sobre a boca. Atrs dela estavam. Macria e Phillip.
   - Sou culpada. Deixarei esta casa levando a felicidade em meu corao. Mas, antes de partir, quero ter a satisfao de v-lo descobrir que tipo de vbora aninhou 
em seus braos, Conner.
   - Conner, espere. Eu posso explicar.
   Devagar, ele terminou de desdobrar o papel, temendo o que poderia encontrar. Os olhos pousaram sobre um mapa onde marcas negras indicavam o posto de cada guarda 
na fronteira das terras de sua famlia.
   - Uma evidncia e tanto - murmurou, jogando o mapa no cho e escondendo-o sob a bota. Os olhos estavam fixos no rosto de Rosanna. 
   - Mais alguma coisa?
   Ela saiu de cabea erguida, os lbios distendidos num sorriso desafiante.
   Belinda adiantou-se.
   Conner, copiei o mapa de um original que encontrei na gaveta de Charles. Ouvi quando ele comprou o desenho, e pretendia us-lo para barganhar com voc, caso se 
negasse a me deixar ver o menino. Mas depois mudei de idia, e trouxe-o comigo para entreg-lo a voc e prepar-lo para as possveis investidas de Charles.
   - Sua confisso  desnecessria, Belinda.  a primeira vez que vem  minha casa, e por isso no poderia ter feito um mapa do terreno.  evidente que no teve 
tempo para levantar informaes sobre o Rocking K, ou qualquer outra propriedade de minha famlia.
   - Oh, Conner! Obrigada... Muito obrigada pelo voto de confiana.
   - Por nada. - Tocando o rosto plido, ele no pde mais conter-se e beijou-a nos lbios.
   Devido  audincia, o beijo foi breve e discreto, mas cheio de promessas.
   Ainda estavam trocando um olhar terno e doce quando, fraco depois dos ltimos eventos, Conner fechou os olhos e oscilou. O reflexo rpido de Phillip impediu que 
ele casse. Belinda passou o que restava da noite na cama de Conner.
   Sozinha. Ele havia ficado no quarto de hspedes, dormindo. As cores do amanhecer tingiam o cu de dourado e vermelho quando, cansada, ela finalmente fechou os 
olhos. Havia descoberto um sentimento assustador.
   Corria o terrvel risco de apaixonar-se por Conner Kincaid.
   
   
   CAPTULO XXII
   
   Logan e Ty chegaram na tarde seguinte, escoltando Charles Riverton, enquanto Kenny terminava o relato sobre o que havia acontecido no rancho durante a ausncia 
do grupo. Jessie os esperava na porta da cozinha do alojamento, limpando as mos no avental.
   - Casey - Logan ordenou ao v-la -, leve Riverton para o galpo de madeira e tranque-o l. Conner decidir o que fazer com ele mais tarde.
   - Conner no pode decidir nada! Terei um julgamento justo, Kincaid. Sou poderoso, tenho amigos influentes, e vocs no tm provas de que...
   - Voc provocou um estouro na nossa boiada. Caso tenha esquecido, Conner  a lei por aqui.
   Ty intercedeu:
   - Se Conner optar por um julgamento, voc ser julgado. Se ele achar melhor enforc-lo, voc ser enforcado. Se preferir jog-lo num abismo, eu mesmo cuidarei 
disso. E agora, cale a boca e faa o que estamos dizendo. No posso perder mais tempo com voc, Riverton, porque minha esposa espera por mim.
   Kenny havia contado tudo, menos sobre a chegada do beb. Ty teria uma surpresa e tanto ao chegar em casa.
   - Eles chegaram! - Marty gritou da torre. - Chegaram!
   Minutos depois o grupo se dispersava. Macria e Phillip esperavam por Ty, Logan e Jessie na porta da cozinha. Enquanto ela os aconselhava a aproveitarem a gua 
quente para um bom banho antes de algumas horas de sono, Ty perguntava ansioso pela esposa, j que no a vira em parte alguma. Sorrindo, Macria sugeriu que ele 
fosse procur-la no quarto.
   - Aconteceu alguma coisa com Dxie? - Logan perguntou preocupado ao ver o irmo entrar correndo.
   - Oh, no! Ela... teve um beb. Uma menina.
   - Uma menina? Ento temos uma sobrinha? Oh, Jess, ouviu isso?
   - Eu estava aqui, meu amor - ela sorriu. - Mas no estrague a surpresa quando seu irmo vier dar a notcia. Finja que no sabe de nada, est bem?
   - No acha melhor ir ver se ele desmaiou? No lugar de Ty, eu estaria correndo pela casa e gritando como um louco.
   - No, meu amor. Esse momento  deles. Devemos respeitar a privacidade da famlia.
   
   No quarto, Ty inquietou-se ao abrir a porta e encontrar a penumbra. Dixie estava deitada sob as cobertas, o que tambm no era comum, mas a apreenso deu lugar 
 alegria, quando ele viu o pequeno volume aninhado em seus braos. Com os olhos cheios de lgrimas, aproximou-se da cama e sussurrou:
   - Estou aqui, meu amor. Eu...
   - Olhe para ela. No  linda?
   - Ela?  uma menina? Agora tenho dois anjos para amar? Dixie mudou o beb de posio e afastou-se para que o marido pudesse se aproximar.
   - Deixe-me lavar as mos e o rosto.
   Quando retornou, Ty acomodou-se ao lado da esposa e beijou-a.
   - Pode toc-la. Garanto que ela no vai quebrar.
   Com dedos trmulos, ele traou o contorno do rosto da filha. 
   - J disse a eles que nome escolhemos? 
   - No. Quero que voc faa isso. 
   - A primeira princesa Kincaid. Quero prometer o mundo  nossa menina. Foi muito difcil para voc, meu amor. - No momento em que a tive nos braos, esqueci a 
dor e o sofrimento.
   - Obrigado por mentir para mim - ele sorriu. - E pela nossa filha. Reina Justine Kincaid, seja bem-vinda ao mundo!
   
   Conner e Belinda conversavam no jardim, quando Macria e Phillip aproximaram-se. Tomando as mos da sobrnha. Phillip contou:
   - Soube que Charles foi preso durante o estouro da boiada dos Kincaid. O grupo que ele comandava era grande, e pelo que ouvi dos pees,  possvel que Albert 
tenha estado entre os bandidos. Alguns homens do Rocking K vo voltar ao local da batalha para recolher os corpos, e decidi acompanh-los. Se Albert est morto, 
quero ser o primeiro a saber.
   Belinda desejou sentir algum pesar, mas pensar que o primo teria sido capaz de mat-la., se pudesse, era suficiente para impedi-la de lamentar sua morte. Ela 
limitou-se a aceitar sua deciso em silncio.
   - Charles est preso num dos galpes - Macria informou ao filho. - O que pretende fazer com ele?
   - A quem est perguntando, me? A seu filho, ou ao xerife?
   - Para mim eles so uma s pessoa. E saiba que, qualquer que seja sua deciso, ter todo o apoio da famlia.
   - Belinda ter de decidir sozinha qual ser sua posio nessa histria, mas pode contar com meu apoio, tambm - Phillip comunicou. - Charles era meu amigo, mas 
traiu minha amizade. Sua me me contou que a forca  o castigo mais comum para os ladres de gado, e que a sentena normalmente  executada sem demora. Francamente, 
se no providenciar punio para o bastardo que tentou matar minha sobrinha, eu mesmo o farei.
   - Pare com isso, tio. Est incitando Conner a praticar um assassinato. Ningum tem esse direito.
   - Essa  sua escolha? - Conner perguntou.
   -  s uma opinio.
   Conner respirou fundo.
   - Riverton ser julgado. Assim ningum poder fazer acusaes contra minha famlia e meus amigos. Vou mandar algum  cidade para chamar Rob e Tom Sweet. Eles 
viro buscar o prisioneiro e recebero a misso de mant-lo vivo. - Ele passou um brao sobre os ombros de Belinda. 
   - E agora, espero que nos desculpem, mas temos alguns assuntos importantes a discutir.
   Sem esperar por uma resposta, Conner a levou at o porto dos fundos, onde rvores frondosas ofereciam sombra e privacidade. L chegando, pressionou-a contra 
a cerca de madeira e, sem rodeios, perguntou:
   - Vai ficar comigo, Belinda?
   
   
   
   CAPITULO XXIII
   
   Belinda fitou Conner afastou-se temporariamente do escritrio, deixando Rob Long como seu substituto e assistente. O corpo de Albert no foi encontrado, e Belinda 
no sabia se o primo estava vivo ou morto. O julgamento de Riverton era o assunto mais discutido na cidade, mas nada era mais importante que a paixo que ela sentia 
por Conner.
   Os dias passavam depressa, repletos de felicidade e encanto. Conner a ouvia, respeitava sua opinio, beijava seus lbios com ardor, mas nunca mais voltara a am-la. 
Semanas mais tarde ele perguntara sobre suas regras mensais e, constrangida, ela amenizara seus temores com um movimento afirmativo de cabea antes de correr para 
o quarto. Sabia que ele se importava com seu bem-estar, mas jamais dissera am-la, e nunca discutia o futuro.
   Mas o futuro de Marty fora decidido. Belinda havia dito a Logan e Jessie que eles manteriam a guarda do menino, enquanto ela seria apenas a tia que iria visit-lo 
sempre que possvel. Amava o sobrinho, e no lanaria mo de direitos assegurados por lei para arruinar sua felicidade. Marty amava a liberdade do rancho, e aquele 
era seu lugar.
   - De qualquer maneira - ela disse a Jessie certa manh, quando conversavam na cozinha -, no podemos esquecer da herana de Marty. Um dia ele pode reivindic-la. 
Quero que tenha certeza de que o dinheiro estar  disposio dele, mesmo que no o leve comigo.
   - Levar? No pensei que ainda tivesse alguma inteno de partir. Eu... ns deduzimos que voc e Conner...
   - Ele no me pediu para ficar. No em carter definitivo. 
   - Voc o ama?
   - Bem, eu...
   - Se ainda no voltou ao leste, apesar dos negcios e dos amigos que deixou l, no acha que deve pensar nos prprios sentimentos? E quanto ao que ele sente, 
por que no pergunta a Conner e acaba com as dvidas de uma vez por todas?
   - Perguntar o qu? - Conner quis saber ao entrar pela porta dos fundos. 
   - Acabei de saber que o juiz Beltane chegou  cidade.
   - Ele j marcou a data do julgamento? - Belinda indagou.
   - Dentro de dois dias. Ser o tempo necessrio para que ele reveja as evidncias que reuni e converse com os advogados contratados por Riverton.
   - Ento vai ficar na cidade? - Jessie concluiu.
   - Sim. Partirei amanh cedo. - O olhar de tristeza que ele lanou na direo de Belinda era mais eloqente que todas as palavras.
   Sem encar-lo, ela pediu licena e disse que iria procurar o tio para contar as novidades.
   - Ele acabou de sair com minha me. Os dois j sabem.
   Dois dias. Mais dois dias. Tinha de fazer alguma coisa. Mas atirar-se nos braos de Conner e exigir uma declarao de amor e uma promessa de casamento exigia 
coragem, desprendimento e a certeza do amor correspondido. Quanto aos dois primeiros quesitos, dispunha deles em abundncia. Quanto ao terceiro e mais importante 
ingrediente da receita... no tinha certeza.
   Riverton foi condenado a vinte e cinco anos na priso de Yuma. Depois do julgamento, Phillip passou pelo rancho do ex-amigo para apanhar os pertences da sobrinha, 
enquanto ela seguia com Conner para o Rocking K. L chegando, os dois sentaram-se no jardim para discutir a concluso do 
   caso envolvendo o rancheiro bandido, mas acabaram discutindo outros assuntos.
   - Marty  uma criana adorvel - Belinda comentou com tom triste, pensando que o momento de despedir-se do sobrinho se aproximava. - As crianas so surpreendentes, 
no acha? Sempre to curiosas, fazendo perguntas e provocando a reflexo dos adultos que as cercam... Nunca pen- sou em ter filhos, Conner?
   - Sim, j pensei nisso, mas ainda no encontrei uma mulher disposta a viver com um xerife e rancheiro perdido numa pequena cidade do oeste.
   - Entendo.
   - Tem certeza? Acho que no, Belinda. - Suspirando, decidiu mudar de ttica. - Duvido que seu tio volte ao leste com voc. Ele mencionou a inteno de comprar 
terras ao norte de Sweetwater.
   - Ele no me disse nada.
   - Porque no pensou que pudesse estar interessada. Phillip conhece seus planos. Ele sabe que pretende partir no final da semana.
   - Bem, eu...
   - O que foi? No vai mais partir? No parece muito segura de sua deciso, Belinda.
   -Tenho minha casa, amigos, negcios. E j disse a Jessie que no levarei Marty comigo. Mas quero que ele v me visitar, e tambm virei v-lo sempre que puder.
   - Entendo. Cheguei a esperar que...
   - O qu? - ela se virou para encar-lo. Devia confessar seus sentimentos? No. Se Conner a quisesse, teria de dar o primeiro passo como convinha a uma relao 
entre um homem e uma mulher.
   - Gostou do tempo que passou aqui, no?
   - Muito.
   - Est dificultando as coisas.
   - Dificultando? - ela repetiu. - Como posso criar dificuldades, se no sei quais so suas intenes? 
   - Quero que fique comigo, Belinda.
   - Voc j me pediu a mesma coisa h algumas semanas, e eu fiquei.
   - Ah, que diabos... Quer que eu me ajoelhe?
    - Para qu?
   - Por favor, me ajude, est bem? Nunca fiz um pedido de casamento antes.
   - No sabe como isso me deixa feliz - ela sorriu, surpresa com as batidas aceleradas do prprio corao. - De qualquer maneira, h sempre uma primeira vez para 
tudo.
   - Est bem, vou dizer o que quer ouvir. Belinda Jarvis, aceita se casar comigo?
   - Ainda no disse o principal, Conner Kincaid.
   - Amo voc. Como nunca amei ningum.
   - Agora o pedido est completo. - Radiante, ela atirou-se em seus braos e beijou-o. 
   - Mas h algo que precisa saber. No sei costurar, no sei cozinhar e no serei uma esposa dcil. Jamais poder me comparar a Jessie e Dixie, porque nunca serei 
como elas.
   - No ter nossos filhos? No estar sempre pronta para me amar e lutar por mim?
   -  tudo que quero, meu adorvel xerife Kincaid.
   - Ento, no se preocupe com o resto. Podemos contratar uma cozinheira, uma costureira, e certamente seremos felizes vivendo esse amor  nossa maneira. Com alguns 
solavancos pelo caminho, mas com os olhos sempre voltados para o nosso objetivo: a felicidade.
   Feliz, Belinda beijou-o e agradeceu a sorte por t-lo colocado em seu caminho. Um homem honrado, honesto, perfeito para o cargo de xerife e mais perfeito ainda 
para o papel de marido. Um homem que seria amado e respeitado como merecia, e que, tinha certeza, faria dela a mais feliz das mulheres. Uma Kincaid, afinal.
   
   FIM
   
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